Entretanto, acho necessário se realizar algumas ponderações sobre as criticas dirigidas aos movimentos de negros e seus militantes, que têm como luta o combate à discriminação e a exclusão dos negros, e que segundo alguns, deveriam se espelhar na postura “pós- racial” de Barack Obama.
Para Norberto Bobbio, a idéia de democracia nasceu de uma concepção individualista de sociedade, sendo a vida em sociedade um produto da vontade de indivíduos. Esse autor destaca que, ao contrário, a democracia real tem não só um centro de poder (seja o Estado, ou o Governo, ou a Soberania Popular), mas sim tem vários centros e grupos de poder, ou seja, é uma democracia pluralista.
A partir dessa distinção entre a democracia ideal (dos indivíduos) e a democracia real (dos interesses), gostaria de fazer uma reflexão entre dois “extremos”: Jesse Jackson e os movimentos negros de um lado e Barack Obama (e também Condoleezza Rice) de outro.
É notória a discriminação racial que aflige não só a sociedade estadunidense, mas também a sociedade brasileira, e os movimentos de negros de ambos os países, através de pressões sociais e de protestos, conseguiram importantes conquistas às populações negras. Chegamos ao ideal? De modo algum, mas sem esses grupos de pressão (de iniciativa negra) estaríamos em uma situação de precariedade muito maior do que hoje estamos.
O movimento negro, dentro desse contexto de pluralidade, é um grupo que reivindica à sociedade e ao governo melhorias das condições de vida da população negra brasileira. Ele funciona do mesmo jeito que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ou e a União Democrática Ruralista que, dentro de uma democracia, têm o direito legítimo de existirem e de defenderem os seus interesses. Ou seja, são grupos de pressão.
No momento em que militam nesses grupos, é claro e notório que essas pessoas vão procurar defender os interesses específicos daqueles que eles representam, exigindo ações da sociedade em prol da realização de seus interesses. Ou seja, elas adotam um tipo de discurso que não anula ou deixa de canto anseios mais amplos de toda a sociedade. Cabe avaliar se essas reivindicações são válidas ou não, através do debate e da discussão democrática.
Do outro lado estão àqueles que concorrem aos cargos do executivo. Essas pessoas, ao contrário do que alguns militantes negros tanto nos EUA ou no Brasil, erroneamente acreditam que um negro concorrendo a algum cargo majoritário deveria em seus discursos nas suas campanhas eleitorais erguer a bandeira da causa negra. Ou seja, na verdade, eles querem o militante na pele do presidente – o presidente dos negros -, pois acreditam que ele olhará com maior cuidado para a população negra.
Notem que eu usei a palavra discurso, pois todos nós sabemos que, na hora que ganham as eleições, nem sempre eles cumprem o que prometeram em suas campanhas. Além de acreditar que esse tipo de prática tem alguns problemas éticos, ela é também contra-producente, pois afastaria os votos daqueles que não são negros ou que não concordam com esse tipo de discurso. Note -se que Barack Obama fugiu de pessoas como Jesse Jackson, pois sabia que uma interação maior com elas poderia significar perda de votos brancos.
Além de ter sido taticamente inteligente, Barack Obama é um orador espetacular. Ele me lembra muito aqueles pastores evangélicos carismáticos, que envolvem seus fiéis com suas pregações poderosas. Talvez seja herança das Black Churches, com seus pastores talentosos e inspirados. Talento esse que Obama usou para conquistar o mundo e restabelecer em seus compatriotas o orgulho já perdido de serem americanos. E não esqueçamos também do desastre da administração Bush e da crise econômica que foi o prego no caixão republicano.
Outro fator que ninguém até agora abordou, mas que eu acho que foi essencial para a vitória de Obama foi a realização das democráticas primárias. Caso o processo de escolha do candidato à presidência da república fosse feita à brasileira, a indicada do partido democrata para concorrer às eleições seria Hillary Clinton. Provavelmente os democratas ganhariam, mas não teriam o carisma e a confiança (um pouco exagerada) que os americanos e o mundo têm por Obama. Por isso, esse aspecto de todo o processo eleitoral não pode ser descartado e sim enfatizado, servindo de exemplo para que um dia seja adotado pelos partidos brasileiros
Feita essas distinções, me remeto ao título dessa reflexão – o presidente e o militante: Não acredito que os movimentos negros devem se tornar um movimento puramente de classe, pois a história já mostrou que a classe não é o único fator de exclusão do negro e que a cor ainda exerce uma forte influência no processo de sua ascensão social.
Como exemplo temos Cuba, onde os negros ainda ocupam os piores postos da sociedade, mostrando que máxima “racismo e capitalismo são faces da mesma moeda” é falsa, pois o racismo se insinua em sociedades hierárquicas, seja com a burguesia capitalista ou com politiburo comunista. .
Acho que, feitas algumas correções que levem em conta o racismo à brasileira, os movimentos negros devem continuar a exigir do poder público ações que promovam não só o fim da discriminação racial, mas também o desenvolvimento e o acesso dos negros aos postos sociais mais valorizados, onde ainda são sub-representados. E entre essas demandas, a aplicação de ações afirmativas que promoveu nos Estados Unidos a ascensão de muitos negros, além de possibilitar que surgissem lideranças políticas, como o general Colin Powell e a Secretária de Estado Condoleezza Rice, que ao meu ver, ajudaram a preparar politicamente o coração dos estadunidenses para elegerem um presidente negro.
O presidente negro e o militante negro usam em suas práticas políticas dois tipos de discurso distintos, e que cabem em ocasiões e situações distintas. Não acho que um deve se impor ao outro, mas ao contrário, acredito que ambos podem coexistir sem que um elimine ou prejudique ao outro. Obama foi correto em se apresentar como um candidato “pós- racial”, mas os movimentos negros devem insistir na denúncia do racismo e exigir oportunidades iguais de ascensão social para que tenhamos uma verdadeira democracia racial.

Juliano Tobias