Durante um debate que participei na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, em 11 de agosto de 2009, sobre PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO RACIAIS, observei atentamente a participação da saudosa médica e militante histórica do chamado movimento negro brasileiro,Secretária Nacional do Movimento Negro do PDT, Edialeda Salgado Nascimento, e bastaram duas frases para que aquele evento espelhasse uma realidade que vai prosseguir em todos os cantos deste país ainda por muitos anos. “Até hoje o Brasil não reconhece a nós negros como seus filhos iguais”, disse Edialeda.
Sistema de cotas para o ingresso de negros nas universidades, a Lei que prevê a inclusão da temática ‘História e Cultura Afro-Brasileira’ no currículo oficial da rede de ensino (Lei nº 10.639/2003), e a diferenciação nos salários dos profissionais brancos e negros foram algumas das questões abordadas pela representante da secretaria pedetista.
Segundo ela, a abolição de 13 de maio não é aquela com que os negros sonharam. E pediu empenho do legislativo para reverter tal situação. “Cabe ao Congresso lutar pela igualdade”, declarou.
O Congresso Nacional, principalmente o Senado, através de uma das expressões máximas representante da ancestralidade africana da maioria do povo brasileiro, o senador gaúcho Paulo Paim, procurou fazer o seu papel para que após muitos anos de luta chegássemos à sanção presidencial do Estatuto da Igualdade Racial, com os aleijões dignos de corar os negros que lutaram pela Abolição da Escravatura neste país.
A luta para a conquista de um instrumento jurídico melhor para que a verdadeira igualdade racial seja alcançada, mesmo com a presença dos maçanetas racistas de plantão no âmbito governamental, pois como um dia também lembrou o criador político da presidente eleita do Brasil no pleito deste ano, o filho da gaucha Bagé, ex-vereador porto-alegrense, ex-deputado federal, prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande do Sul, novamente deputado federal Alceu Collares, o que mais atrapalha qualquer ação governamental: “São os áulicos do Poder, sempre prontos em atrapalhar, muito menos do que colaborar para com o governo”.
Em um dos momentos do debate realizado na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, destaquei, parafraseando um dos ícones do chamado Movimento Negro Brasileiro, Abdias Nascimento, no alto dos seus 95 anos bem vividos, de luta e de determinação para se atingir os objetivos maiores da nossa raça, lembrei que:
“Vivemos num país que se acostumou achar que negros bons são aqueles que conhecem o “seu” lugar, que é o da submissão e o da inferioridade. Mas eu estou aqui justamente para tentar subverter essa visão. Para mostrar que a construção de um Brasil moderno, justo, democrático, que não tenha de se envergonhar todos os dias perante o mundo com as imagens de violência, miséria e discriminação divulgadas pelos veículos de comunicação, passa necessariamente pelo fim do racismo e do preconceito que se abatem sobre seus filhos de ascendência africana.
Nessa luta sem tréguas enfrentando inimigos quase sempre ocultos sob os véus da hipocrisia e do paternalismo, é com alento que vemos hoje manifestações como as do atual Presidente da República – ainda que seja lembrado por suas atitudes racistas do passado – infelizmente desconhecidas ou desvalorizadas pela maioria daqueles que dizem ser seus seguidores. O que mostra que ainda é muito árdua a luta que temos pela frente; mas também que, felizmente, já dispomos de aliados nos mais altos escalões governamentais e empresariais do País.
Assim como ressaltei que somente a imbecilidade fará com que o atual Presidente da República, não entre para a história como a maior autoridade brasileira, que deu visibilidade política e administrativa para a comunidade negra e faço esta observação, desprendido de qualquer sentimento político ou partidário, pois até esta data ainda não me posicionei quanto a uma possível filiação a qualquer grei política deste Brasil, brasileiro de quase todos nós.
Mas não deixei de lembra o ensinamento do ministro Antonio Nader,presidente do Supremo Tribunal Federal, durante solenidade realizada no Palácio do Itamaraty, Brasília, em 21 de Março de 1979, celebrando o transcurso do Dia Internacional Para a Eliminação da Discriminação Racial,quando entre outras afirmativas destacou: “(…) Pascal dizia com sarcasmo que o homem é um caniço pensante. Para demonstrar o acerto de tal definição é bastante se considere o erro dos que sustentaram a doutrina racista ou que uma ração contém caracteres que a definem como superior. Ver-se-á que, no assunto, o pensamento dos racistas um caniço no seu vai-vém, oscila entre duas falsidades : a de uma raça pura e a de uma raça distinta. Alguns homens do século passado sustentaram a idéia racista e outros tantos deste século aproveitaram-se dela para fins políticos.O certo, porém, é que o racismo não contém fundamento científico, e o valer-se dele como força política, produz conseqüências funestas.(…)”
As passagens acima justificam que até podemos ficar na contra-mão da história política nos últimos anos do governo do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, do qual sempre fomos críticos, mas nunca deixamos de devotar respeito como comandante da Nação brasileira, que ainda que criticado por seus périplos pelo Continente Africano, visando um melhor relacionamento com os 53 países que o integram, onde uma grande maioria das promessas feitas visando incrementar a presença brasileira em solo africano não foram cumpridas e que tiveram apenas o cunho demagógico do Brasil buscar apoio para conseguir seu intento de ocupar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, melhor não fez, foi exatamente em função da existência dos áulicos que o acompanharam no período governamental, alguns dos quais, tem verdadeira repugnância quando se trata de assuntos relacionados com a raça negra.
Foram eles, os áulicos, ninguém mais, que tentam justificar com motivos os mais diversos, a ausência da autoridade maior da república em atos que o destaque maior foram a raça negra e que visaram consolidar a sua referência racial como ele sempre ressaltou, como o do início das comemorações do Dia da Consciência Negra 2010, na última semana no Rio de Janeiro e ou na confraternização com os quilombolas de Ivaporunduva no dia de ontem (22/11),sem contar que durante todos os anos impediram que a comunidade africana na diáspora pudessem prestar uma homenagem pública em São Paulo ao presidente brasileiro que durante a história política deste país foi o que mais se preocupou com o desenvolvimento e o progresso da maioria dos países africanos.
PRESIDENTE LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, a história lhe fará Justiça, mas não se esqueça nunca, que foram eles, os áulicos, responsáveis pela presença constante em sua trajetória a partir de janeiro vindouro da música QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE, composição de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, cuja letra é bom lembrar: “Sei que amanhã Quando eu morrer//Os meus amigos vão dizer Que eu tinha um bom coração// Alguns até hão de chorar E querer me homenagear Fazendo de ouro um violão//Mas depois que o tempo passar Sei que ninguém vai se lembrar Que eu fui embora/Por isso é que eu penso assim//Se alguém quiser fazer por mim Que faça agora//Me dê as flores em vida O carinho A mão amiga Para aliviar meus ais//Depois que eu me chamar saudade Não preciso de vaidade Quero preces e nada mais”.

Antonio Lucio