O programa é reconhecido como extensão universitária em jornalismo impresso pela Universidade de Navarra (Espanha). Ou seja, é um curso notório para o início de carreira de qualquer jornalista.
O problema começa com a foto escolhida para a divulgação exposta no cartaz distribuído pelo Grupo Estado. A peça exibiu os 30 jovens jornalistas que participaram da última edição realizada ano passado. O que nos chama atenção? Todos os alunos, sem exceção, são brancos (homens e mulheres que podem ser identificados como integrantes da categoria cor branca). É escandaloso que um projeto de reconhecimento internacional não comporte em seus quadros jovens negros e negras recém formados em comunicação social. Geralmente, nestes casos, ouvimos dos organizadores de cursos como este que se trata de uma questão de competência e mérito, daí a inexistência da presença de negros. Minha proposta de reflexão é propor um ponto de interrogação neste tipo de afirmação: será?
A discussão em torno das cotas para negros e indígenas nas universidades públicas pode nos ajudar a iniciar um processo de reflexão. Também lá o debate gira em torno do acesso a oportunidades. Diversas pesquisas têm demonstrado o fosso de desigualdades entre os brancos e os grupos historicamente excluídos. No caso das universidades públicas, pesquisas revelam que o branco tem praticamente 100% das vagas nas universidades. No aprofundamento da discussão, especialistas têm se deparado com as barreiras impostas pelo sistema baseado na meritocracia e na competência. Ou seja, ao olharmos essa questão despidos de preconceitos, constatamos que “o buraco é mais em baixo”.
No Brasil do século XXI não cabe mais escamotear o universo de desigualdades de oportunidades que impera em nosso país com o véu da meritocracia e da competência. Retomando o debate em torno do Grupo Estado: será que é por “acaso” que 100% dos jornalistas recém formados na última turma do curso intensivo de jornalismo aplicado sejam brancos? O episódio é uma ótima oportunidade para refletirmos que tipo de diversidade a mídia brasileira está construindo. É preciso que façamos uma investigação séria para compreendermos sob quais processos de exclusão a mídia brasileira está sendo alimentada ao longo da sua trajetória histórica.
É preciso termos coragem para reavaliarmos nossas condutas e estabelecermos novos procedimentos que impeçam a produção de imagens que revelam a profundidade das nossas desigualdades como a que está sendo divulgada pelo Grupo Estado. É preciso coragem para colocar o dedo em nossas próprias feridas. A mídia brasileira precisa ser repensada nesse sentido. É um compromisso ético com o Brasil.

Angélica Basthi