Como bem deve saber o formulador da idéia do ministério do “Vai dar Merda”, toda vez que a dita-cuja aparece se faz um silêncio imenso, as pessoas tendem a olhar para os lados ou para cima, alguns até balançam os corpinhos e começam a assobiar. Ninguém assume a responsabilidade, e aqueles que já tinham alertado antes acabam ficando constrangidos em apontar para os “cagalhões” e dizer: “pô, bicho, eu te disse, não foi?”
Para quem não está acompanhando de perto ou vive em outros estados da Federação vamos aos fatos: no último domingo e na segunda-feira o jornal O Globo publicou matéria de capa sobre os financiamentos da Petrobrás beneficiando algumas Ongs e outros grupos diretamente ligados ao PT. O presidente da Petrobrás rebateu dizendo que tudo está dentro dos conformes e que não há ilegalidade na forma como os recursos foram repassados. Esquece-se o presidente da estatal do famoso ditado romano que dizia não bastar à mulher do César ser honesta, ela também deveria parecer honesta.
Não é de agora que se fala e que se sabe que a Petrobras, pelo menos no Rio de Janeiro, e pelo menos no que tange a determinadas áreas, ficou refém dos humores daqueles que tomam cafezinho junto e batem nos ombros de alguns diretores e aspones de alto coturno. Os comentários sempre rolaram. Curioso é que o sistema Globo tenha deixado passar as eleições para soltar as informações sobre o caso. Tanto se fala do compromisso da Globo com a direita porque então a matéria não saiu antes para ajudar o candidato direitoso do Psdb? Responderia o velho Brizola: “Ah, o PT é a esquerda que a direita gosta!” Pronto, temos então a resposta.
Ao resolver tratar recursos públicos como se privados fossem o PT, as Ongs e outros grupos a ele ligados correram o risco de acontecer exatamente o que está acontecendo agora. Houvesse uma assessoria do “Vai dar Merda” dentro da empresa, quem sabe…
O fato é que recursos públicos passaram a ser tratados como fundo de investimentos próprios. Se você não faz parte do grupo, se você não beija a mão de uns fulanos ou de outros beltranos nem pense em apresentar teu projeto porque nem mesmo da porta ele passará. Feio não?
Duas situações, no entanto, geram absoluto incômodo nessa história toda: 1) o absoluto silêncio das pessoas, grupos, organizações etc., que de uma forma ou de outro estão envolvidos ou são envolvidos a partir das ações de terceiros num sistema que até então deveria beneficiar aqueles que desenvolvem ações onde o governo é falho; 2) o oportunismo da oposição que, ao propor a CPI das Ongs, só quer surfar na onda do escândalo esquecendo-se que não fosse os trabalhos dessas Ongs esse país já teria explodido, pois é a ação social promovida por elas – as sérias – que propicia vida melhor a milhares de pessoas do país. Infelizmente, é possível que agora, por absurda irresponsabilidade de uns poucos, muitos tenham que pagar pelo erro.
Tudo na vida é risco. Chorar pelos cantos depois colocando-se como vítima das circunstâncias é hipocrisia e falta de vergonha na cara. O fato é que muitos dos que se locupletaram e ainda se locupletam com o que está dito nas páginas do jornal sabiam dos riscos que estavam correndo e, pensando no que dizia o agora grande amigo Delfin Netto, nem esperaram o bolo crescer, quiseram logo pegar sua fatia. Então que agora se expliquem.
O César, coitado, era cobrado pela honestidade da sua esposa, como se uma pessoa os dois fossem. Não adiantaria ao César dizer, “eu sou eu, ela é ela”, não bastava. A mulher do César tinha que ser honesta. E os mais rigorosos diziam ainda que tinha que ser honesta e parecer honesta. Paulo, o apóstolo, que era cidadão romano diz a mesma coisa em outra frase: “não basta evitar o mal, é preciso evitar também a aparência do mal”.
Em minha modesta opinião todos que lidam com recursos públicos, tanto na doação quanto no recebimento, deveriam recitar pela manhã, tarde e noite este ditado romano. E mais que isso, deveriam ter verdadeira obsessão por evitar não só o mal, como também a aparência do mal. Quem sabe assim começaríamos a construir um país com menos escândalos, menos corrupção e mais vergonha na cara.

Márcio Alexandre Martins Gualberto