De início é preciso explicitar que quando falamos de negro, falamos de uma multiplicidade de cores, de interesses, de posições, de preferências políticas e ideológicas, de interesses de classe, em um sistema marcado pela contradição capital/trabalho. Não falamos de um ser único, padronizado.
Nos tratar como se não tivéssemos diferenças, tem sido a forma como secularmente o racismo nos iguala, ao mesmo tempo em que nos desumaniza. Em resumo: o racismo só nos oferece a alternativa da igualdade para nos desumanizar, como se todos fôssemos uma coisa só, padrão único, como se, humanos que somos, não tivéssemos o direito à diferença, a tudo que é humano.
Há, entre nós, quem defenda a idéia de que “ser negro basta”. Essa noção despolitizada e conservadora da própria identidade é fonte de muitos equívocos. A idéia de um país separado entre negros, de um lado, e brancos, de outro, é uma delas. O modelo de racismo que por aqui prosperou não se caracterizou jamais pela segregação/apartação, mas pela miscigenação/branqueamento. É, portanto, muito mais refinado, sofisticado e, portanto, não pode ser combatido na base do “nós, os negros x eles, os brancos”.
Essa posição pode ser vista, tanto na postura vitimizada dos que advogam “políticas públicas para o negro”, os que falam da “comunidade negra”, como se fôssemos uma minoria e não a maioria do país – 51,3%, segundo o IBGE -, quanto nos que navegam nas águas de um racialismo abstrato e política e conceitualmente confuso que nos acena com um futuro em que nós, os negros, sejamos poder e possamos ditar as regras a partir da nossa visão do mundo, da nossa cultura, da nossa história.
Dois equívocos de conseqüências igualmente nefastas. Nem uma coisa nem outra. Reconhecer os efeitos perversos do racismo e da cultura discriminatória – fruto de quase 400 anos de escravismo e de mais 122 anos de racismo pós-abolição – não significa advogar poder para os negros em oposição aos brancos, reduzindo tudo a uma questão de tonalidade de pele ou quantidade de melanina. Essa visão é profundamente atrasada, conservadora, para não dizer retrógrada.
Nem tampouco significa reservar aos negros, ou “à comunidade negra”, o espaço do “puxadinho” que o Estado racista nos tem reservado há séculos, quando forçado a reconhecer que existimos. Não queremos fazer o papel de símbolos de inclusão em uma ordem social injusta e perversa, nem o de alegorias das mudanças que tem sido deixadas sempre “para depois”.
“Depois que se fizer as mudanças estruturais”; “depois que se fizer a revolução”; “primeiro resolve-se a contradição de classe” e, nessa batida, temos ficado sempre para “depois”, tornados objetos de estudos de acadêmicos e temas da sociologia dita progressista. Roubam o nosso protagonismo, subestimam nossa inteligência e capacidade de agentes da história.
O que queremos é outra coisa. Nem hegemonia negra, nem “puxadinho”. O combate à supremacia branca não se faz com supremacia negra; se faz com a compreensão de que nós negros, brasileiros, cidadãos, agentes da história nos somamos – como sempre fizemos – a luta do povo brasileiro por transformações de fundo na sociedade. E queremos fazê-lo como protagonistas, jamais como subalternos.
Queremos igualdade de oportunidades e a erradicação do racismo como elemento da estrutura profundamente desigual que transforma a democracia em peça de marketing e a República numa fantasia – reduzida ao direito de voto, ou seja: ao direito de escolher a cada dois anos, quem dos que nos oprime – fará o papel de nosso representante.
Queremos ser protagonistas para que essa democracia de fachada se torne democracia de fato e isso interessa não apenas a nós negros, mas a todo o povo brasileiro e aos setores da sociedade – que advogam transformações profundas que acabem com a desigualdade obscena que tem sido a marca registrada do Brasil.
O que queremos é desconstruir a Casa Grande que a cultura discriminatória e racista edificou em cada instituição, em cada Partido, em cada empresa, neste Estado Democrático de Direito, que nem é Democrático, nem de Direito, porque reproduz as mazelas do escravismo e o racismo institucional. É isso o que explica o fato de ganharmos menos, de sermos invisíveis – na mídia, no Parlamento, nos espaços de Poder – e de morrermos primeiro. Para quem não sabe a expectativa de vida de um negro no Brasil, é seis anos menor que a de um não-negro.
Se é igualdade o que queremos, a nossa luta, inclusive para eleger mais negros para o Parlamento, não pode se tornar sinônimo de afirmação abstrata de identidade ou busca de hegemonia, numa sociedade que nos divide primeiro, não entre negros e não-negros, mas em quem tem os meios de produção – o capital – e explora a força de trabalho, e quem, por só ter a força de trabalho, é explorado e destituído do direito à uma vida digna.
A nossa afirmação se dá na soma com todos os setores da sociedade que seguem lutam por mudanças, de forma pró-ativa e protagonista, não pela divisão, muito menos pela apologia do gueto ou da “periferia”, como espaço separado, segregado.
A contradição fundamental nessa sociedade não é quem é negro ou não é negro; é entre quem explora, e quem é explorado. E esta não é uma constatação abstrata. Tem conseqüências concretas na vida diária, em nosso dia a dia.
O que queremos nas eleições, nós que somos a vanguarda dos explorados da terra porque somos a maioria, é dizer com todas as letras que esse modelo de sociedade não nos serve e que não basta discutir medidas cosméticas, que só atendem aos interesses dos que se locupletam dos lucros da nossa exclusão.
O que queremos dentro de Partidos que reproduzem e replicam o racismo institucional – fruto da ordem escravocrata -, é afirmar que esses Partidos devem ser profundamente transformados para que eliminem a Casa Grande, cujo modelo reproduzem, e passem a encarar a desigualdade originada pelos quase 400 anos de escravismo, não como objeto de estudo para a Sociologia, mas como um fato que tem conseqüências práticas em nosso dia a dia.
E que, portanto, mudem suas agendas de modo a contemplar a nossa reivindicação de inclusão, a centralidade da nossa agenda, não como um dado simbólico ou secundário, mas como questão central, entendendo que, sem isso, o Brasil continuará sendo um país profundamente desigual e injusto – e pouco importa a posição que ocupe no ranking da economia mundial; pouco importa se sob Lula ou FHC; se sob Dilma ou Serra.
Ser a quinta economia do Planeta, sem que se garanta a inclusão da maioria da população brasileira – não muda em nada a realidade dos que continuam a ser apenas a mão de obra barata, carne de canhão para a Polícia.
Então, queremos eleger o maior número de candidatos negros e antirracistas porque isso significa mudar a realidade do Parlamento brasileiro. Mais do que isso: ter representantes com condições e capacidade de falar do Brasil real e não do Brasil que tem prestígio na arena internacional, mas onde jovens negros continuam sendo alvos preferenciais das balas assassinas da Polícia.
É importante que esses representantes sejam negros combativos, com história de luta, comprometidos com transformações sociais profundas, sim, é importante. Quem melhor pode falar pelas mulheres, de suas necessidades de suas demandas do que as mulheres? Quem melhor pode falar pelos negros, senão os próprios. Mas, negros e mulheres não são padrão de virtude. Não basta ser mulher e negro. Há mulheres que reproduzem à perfeição e até tiram proveito do modelo patriarcal machista, como há negros, que são meros servidores do modelo escravista que explica a nossa exclusão.
O que precisamos é de negros e mulheres capazes de compreender a lógica perversa em que nos tentam enredar e mais ainda capazes de continuar empunhando a bandeira das transformações profundas no Brasil – que continua sendo um país muito rico, mas vergonhosamente injusto e desigual – e que não fiquem presos a armadilha dessa disputa supérflua das elites beneficiárias da exploração capitalista e do racismo.
Nós queremos mais do que discutir se tal ou qual partido é melhor para nós negros. Nós queremos mais do que decidir se é melhor votar em Dilma, Serra ou Marina. Não por coincidência, em nenhum dos programas desses candidatos há espaço para a questão da desigualdade racial, que é elemento estruturante da desigualdade social, com a centralidade de quem pretenda encarar de frente o que há séculos vem sendo empurrado com a barriga. Nós queremos mais.
Nós somos a maioria do Brasil e não queremos “entrar nessa festa pobre” pela porta dos fundos. Queremos e vamos entrar pela porta da frente; com altivez e cabeça erguida. É esse o modelo de inclusão que defendemos, em contraposição ao modelo de inclusão subalterna.
A luta dos negros no Brasil se mistura, se mescla e se confunde com a luta do povo brasileiro – na sua imensa maioria pobre, na sua imensa maioria negra – independente de partidos, independente de grupos de interesse, independente de candidaturas. Vem sendo assim, desde 1.500, e continuará assim neste país marcado – do Oipoque ao Chuí -, pela injustiça e pela desigualdade, que nos atingem e nos afetam no nosso dia a dia e que nos retiram as condições mínimas de uma vida com dignidade.