Não. Não sou afrodescendente. Se for ver a origem de meu sobrenome, vem lá das bandas da Itália, da misturança de povos invasores com invadidos, como conta a bela História.

Não enxergo com bons olhos a cor de minha pele como vantagem sobre qualquer pessoa, embora isso tenha me causado alguns dissabores nos idos de 1970, quando tomei ciência do movimento hippie e me apaixonei pela ideia de viver com menos, de amar mais, de derrubar tabus, de provocar a família, de contestar as religiões, de a cada grito de ‘há governo?” ser contra.

Hoje, um pouco mais lustrada pela vida, aos 66 anos, posso definir que sou antirracista, termo justo pois requer uma luta árdua contra esse modelo de sociedade fundamentada na exploração humana, que explodiu na nossa cara neste governo de lunáticos, de psicopatas, de exterminadores.

Digo explodiu porque, na tentativa de sermos politicamente corretos em governos de pseudo-esquerda, afrouxamos o nó da corda, já roída por celeumas e purismos…e ficamos ‘a ver navios’.

Onde estávamos com a cabeça para acreditar que a dignidade roubada de tantos povos estaria, enfim, restituída só com discursos flamejantes, programas de governo e ações solidárias? Foi pouco. Esquecemos dos hipócritas, dos celenterados, do Mercado ou foi mero relaxo ao deixar de nutrir as bases aliadas com mais força, mais justeza?

Em nossa conta por Justiça (representada pela letargia, parcialidade e ancorada em preconceitos) estão as mortes de Marielle Franco, de Joãos, Maris, Amarildos, Miguéis e tanta gente negra – os presídios revelam há séculos o segregacionismo; as favelas urram de dor, enquanto o mercado de trabalho tritura mentes e ossos; as escolas superiores estreitam as portas, enquanto se faz uma catilinária para a aceitação de cotas; durante a pior fase da pandemia, trens e metrôs espremeram empregadas domésticas, rapazes e moças de serviços gerais, mães, pais e filhos que não podiam ser dispensados do emprego.

É um assombro ver nos noticiários reportagens sobre mortes e espancamentos, vindos da PM, de seguranças de lojas, dos tais ‘cidadãos de bem’, em adultos e crianças, cujos motivos são pífios, ou melhor, o motivo é a cor da pele, é a roupa que a pobreza veste. Buscando vocabulários condizentes contra o preconceito, tropeçamos nessa realidade, a realidade de quem mora ao lado.

Sabe, tivemos medo de admitir a vontade de uma sociedade muito mais justa, de bancar uma revolução não só de ideias, mas capaz de assumir o socialismo como bandeira; enquanto o antipetismo circulou entre cabeças ditas esclarecidas, deu-se o golpe de 2016…e perdemos o Brasil das oportunidades iguais, da beleza de se ser o que se é!

Agora temos o horror! Nada se junta ao que idealizamos, a não ser as convicções estreitadas de ouvido em ouvido, entre amigos.

Ser antirracista mexe com tudo isso, sacode os preconceitos, devolve ao esgoto a canalha que nos governa hoje. Ser antirracista é sair da poltrona e dialogar com o vizinho.

Ser antirracista é não mais apresentar uma pessoa pela cor de sua pele… é não mais contar quantas pessoas negras aparecem em comerciais nem bater no peito e dizer não sou racista.

Ser antirracista é ir além do que contam os livros de História.