Motivado pelas frequentes publicações de Flavio Leandro e do artigo "O corporativismo da Cor" de Dojival Vieira, Editor-chefe do site AfroPress, na mesma linha critica, com viés de esquerda. Como também me reivindico de esquerda, faço aqui um contraponto a ambos, como um marxista moderno deve fazer, que identifica e jamais se compõe com a direita, mas que, faz uma releitura dos clássicos, de acordo com a historia e os tempos.

Permitam-me meter minha colher nesta sopa particular [agora publica] de vocês. Queria não debater e concordar, mas não consigo. Teimoso, opto por apontar e discordar das posições equivocadas de ambos. Aqui não vai nenhuma ofensa aos dois, mas o exercício do contraditório, muito em moda.

Primeiro, há Movimento Negro & Movimentos Negros, com diferenças e princípios [até picuinhas, é verdade], que remontam aos primórdios das nações africanas muito antes da África colonial. Portanto, muito além da invenção do capital liberal e da divisão da sociedade em classes.

Depois, é preciso entender que qualquer agrupamento humano, busca em suas condições objetivas, assim  como nas forças e nas fraquezas, as formas de reação contra a opressão, de modo que ainda que condenemos as especializações segmentadas de bandeiras dentro do MN, deixando de identificar quão o racismo e os racistas são inimigos comuns de todos [devendo assim, ser combatido a partir da identificação e da unidade de todos], não podemos negar-lhes a legitimidade, uma vez que é o próprio sistema racista, estruturante, quem promove a confusão em nossas hostes.

Pena que a maioria de nós não pensa [a respeito], e aceita. Refiro-me aqui a militância partidária e governista e do outro lado, a mal informada, arrogante e sectária. Fosse fácil a solução já a teríamos resolvido, ou os comunistas o teriam feito, afinal estão cientificamente calçados e organizados, a muito mais tempo que os negros.

Não é fato que todos os movimentos ignoram os aspectos da luta de classe e não tem programa ou projeto, ao contrario, enquanto Fração Publica MNU De Lutas, Autônomo e Independente, em processo de fusão com outras organizações negras na OLPN – Organização para Libertação do Povo Negro defendemos um Projeto de maioria-, Um Projeto Politico de Nação, partindo do Povo Negro e Indígena para todos os brasileiros, na contramão do Projeto de Nação em curso, que contempla a minoria branca europeia e exclui os outros seguimentos, colocando em pratica uma verdadeira Guerra Civil Genocida [não declarada, desde a Guerra do Paraguai], contra indígenas, negros e seus mestiços pobres, com mais de 57.000 vitimas/ano entre nossos jovens.

A classe não veio antes do Racismo como Ideologia de Dominação Politica [primeiro Clovis Moura sugeriu isso, sem analisar as razões, eu tive acesso à conclusão dele, depois de analisar e chegar a mesma conclusão].

O velho testamento da Bíblia Sagrada quecomprova o parentesco dos judeus, cristãos e muçulmanos, é que com a teoria de C A M  propõe, nas escrituras, o racismo para justificar a dominação dos povos africanos, mouros e Indus, de "cor" negra. Felizmente, há um grupo de jovens, que a despeito de sua especialidade e sectarismo, tem mérito de revolver pesquisas e publicações históricas, demonstrando que, além da África ter parido a humanidade [e não um boneco de barro ou uma costela do primeiro], essa historia vem sendo escamoteada a milênios, de modo a construir provas da hegemonia e superioridade ocidental europeia.

Não bastasse isso, a maior empresa multinacional religiosa, tem participação há séculos, na tarefa de legitimar a guerra genocida colonial e capitalista, com o Imperador romano Constantino convertendo-se ao cristianismo, no inicio do século 4º, de nossa era, mandando reescrever a Bíblia, de modo a transformá-lo em importante documento-instrumento politico-religioso de legitimação de inverdades e de dominação e exploração dos povos não europeus.

Não havia até então, classes sociais, mas castas. A servidão entre os brancos de então, não separava famílias. Foi em 1554, que o papa Nicolau IV, dá carta branca aos Europeus [aos portugueses, inicialmente, depois aos espanhóis], para que escravizem, saqueiem, conquistem, submetam e exterminem o povo africano, não cristão, para os tornar "humanos" tementes e merecedores do "deus" dos europeus, em troca de 5% da indústria da morte, saques e da comercio de carne humana preta.

Pois é, prezados Dojival e F. Leandro, ali se inicia o maior holocausto da humanidade, com associação de capitais dos três parentes religiosos [Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo], que rendeu a primazia do comércio mercantilista triangulado [Europa, África e Américas], com lucros exponenciais dando origem à acumulação de capitais, responsável pela revolução industrial e superioridade hegemônica dos europeus, com o poder dos canhões, sobre os povos.

Essa hegemonia, além de permitir aos europeus velejar pelos quatro cantos do mundo, recolhendo, à força e na marra, o que de mais valia existisse, permitiu-lhes pelo poder das armas e da propaganda [religião, língua e educação], que destruíssem as culturas desses povos, impondo-lhes a sua, como única e verdadeira. Houve cooptação, como há agora, mas via de regra, o método principal foi a coerção e a violência contra esses povos obrigando que negassem a si mesmos como seres humanos e como protagonistas históricos.

O capitalismo e a sociedade de classes surgem então, após séculos de acumulação escravista, e de destruição da dignidade e das referencias das nações africanas [assim como das américas] ocupadas e sitiadas, e da distribuição forçada dos prisioneiros [de um sistema baseado no lucro e na fé], que negou a humanidade desses seres por mais de 4 séculos. Assim fica fácil pra o opressor dizer que somos atrasados e alienados políticos.

Portanto, para encerrar essa parte da polemica [Se o capitalismo é o pai/mãe, criador do racismo, ou o contrário], tenho a acrescentar que muitos séculos antes do capitalismo, e do liberalismo politico- econômico, o racismo foi [e é] o principal instrumento ideológico de poder na construção da hegemonia branca. Coisa por demais aproveitada como marketing de guerra e dominação dos mesmos [até hoje], para destruir as referências dos povos subjugados, incutindo-lhes a ideia de inferioridade, inclusive por parte daqueles que, se reivindicando de esquerda, querem minimizar o potencial transformador do oprimido, para que se sagrem direções, como vocês, parecem fazer agora.

Poderia apenas colocar aqui o link de meu artigo: O RACISMO COMO IDEOLOGIA DE DOMINAÇÃO POLITICA, publicado vários sites desde 2011. Fácil de encontrar na Google, que vcs insistem em ignorar. Talvez porque no caso do Dojival, ainda esteja preso aos antigos dogmas da esquerda marxista-leninista, há muito questionado e superados pelos próprios marxistas. 

Da parte do F. Leando fica mais difícil identificar as razões, e não quero aqui ser leviano. A metralhadora giratória que é, nos apontam duas perguntas que não querem calar:1 – Qual o tipo de contribuição Flávio Leandro apresenta como militante, já que generaliza e sentencia a acusação a todos os negros [e movimentos negros], de que ninguém presta, só ele!?  Aliás, a generalização pela "esquerda", que Dojival também pratica, é mais bem mais fácil de entender; 2 -. O critico contumaz do MN, Flavio, com sua língua afiada [ferina, diria meu pai], condena TODOS os movimentos negros, sem exceção, afirmando que não tem um que se salve [ocorre que ele nunca pertenceu a nenhum], não propondo alternativas [provavelmente porque não possui uma]. A sua função parece ser somente a de desqualificar e descaracterizar, quaisquer construções negras, como faz a historia branca e o marketing capitalista e imperialista há séculos. 

Fraternalmente faço aqui uma discussão politica e ideológica. Será que na gênese das opiniões do Flavio Leandro, estão os mesmos motivos de desconstruir, negar, alienar e destruir o povo negro como conceito de resistência e de reconquista da humanidade e dignidade, adaptando as condições para um novo tempo colonial a partir da máxima ideológica,  instrumento do liberalismo capitalista-imperialista, de incentivar e fortalecer a quebra da identidade e da solidariedade entre os negros [dividir para dominar], promovendo o individualismo como forma de facilitar seu projeto racista de dominação?

Quanto ao Dojival, torço para que sua defesa, não se trate de justificativas pessoais, nem de soberba vanguardista da velha esquerda, entendendo que as direções são mais importante que as massas, o que, os faziam no passado, mais realistas que o rei. Os tempos e os conceitos mudaram, e as adaptações de resistência foram as possíveis, frente aos equívocos das esquerdas frente à supremacia das agressões da direita. 

Espero estarmos abrindo uma nova era de sérios e fraternais debates, histórico – ideológicos e teóricos bem fundamentados, entre negros. Creio não haver objeções de vossa parte e gozar da liberdade fraternal  de nos tratarmos assim. Agradeço a ambos pela oportunidade. 

*O título original do artigo postado postado pelo autor a convite da Afropress é "O racismo como ideologia de dominação é anterior ao capiitalismo e ao liberalismo econômico que o instrumentalizou como como principal arma!"

PS: lincks de alguns sites que publicaram: O Racismo como Ideologia de Dominação Politica.

http://www.ceert.org.br/acontece/noticia.php?id=2087

http://racismoambiental.net.br/2013/03/04/o-racismo-como-ideologia/

https://plus.google.com/113085693918084354536/posts/YEXFb1Pty4x

http://reparations.com.br/?p=158

 

 

Reginaldo Bispo