A comunidade negra brasileira e os militantes políticos negros que se movimentavam ou ainda se movimentam nos mais diversos partidos, reunidos em verdadeiros guetos criados para o beija-mão permanente, o puxa-saquismo e subserviência aos dirigentes partidários de plantão, perderam a excelente oportunidade em 1990 se reunirem em torno do então recém criado Partido
Democrata-PD, por iniciativa do saudoso empresário e ex-deputado federal Adalberto Camargo, representante durante 16 anos consecutivos como parlamentar representante do Estado de São Paulo na Câmara dos Deputados que conseguiu, seguindo as regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral, registrar provisóriamente a legenda que disputou as eleições daquele ano, partido que observando os ditames estabelecidos pela Constituição da República Federativa congregou brasileiros de todos os credos e raças, sem a preocupação de racismo e ou preconceito velado contra seus militantes.
Com a participação de pessoas de todas etnias na sua Comissão Diretora Nacional Provisória, o PD não obteve o Registro Definitivo para prosseguir sua luta pela participação efetiva da comunidade negra no processo de desenvolvimento sócio-politico brasileiro e num trabalho articulado por seus então dirigentes se fundiu com o então provisório Partido Republicano
Progressista (PRP) para que, com a denominação desta legenda, alcançasse o seu registro definitivo.
Infelizmente os que ainda sonham com a criação de um partido político com maioria negra, verdadeiramente democrático sem qualquer ato de preconceito e ou racismo contra nós, perderam o bonde da história e vão continuar sonhando com esta possibilidade, mesmo porque, sonhar não paga imposto.
Nunca em minha trajetória de vida pretendi galgar cargo político público para ser subserviente ou capacho de políticos de qualquer etnia, principalmente se ocupasse um mandato parlamentar, ser monitorado pelo partido político que nos dias atuais não permite sequer que o político negro
tenha em seu gabinete funcionários negros de sua livre escolha, ainda que em cargos em comissão, como acontece nos gabinetes de políticos da nossa raça em Brasília ou em alguns estados ou capitais brasileiras, onde irmãos negros ocupam mandatos, exceção feita e aqui afirmo sem medo de errar, no gabinete do ínclito deputado estadual petista José Cândido – a quem particularmente nada devo a não ser meu respeito e admiração -, que acima de sua filiação
partidária sempre se pautou como um parlamentar suprapartidário, trabalhando em favor dos pleitos de todas as etnias, sem discriminação e ou preconceitos.
O Partido Verde, o PV que tem uma candidata negra à Presidência da República nas eleições deste ano, a brilhante mulher lutadora, batalhadora e senadora Marina Silva, reconhecida mundialmente por sua luta ao lado de Chico Mendes em favor do meio ambiente e da dignidade do povo da floresta, pelo conhecimento que tenho da sua pessoa como ser humano desde o início da sua militância política em Rio Branco é combatente permanente contra qualquer tipo de preconceito e creio sem sombra de dúvidas que não concorda com os jogos preconceituosos que vem sendo praticado pela direção nacional do partido a que está filiada, que sem qualquer explicação plausível, simplesmente pelo fato de achar que fulano ou beltrano, com ou sem
experiência política possa ter mais representatividade ou voto que qualquer militante da raça negra, que estão sendo boicotados em seu legítimo direito de ao menos ser pré-candidatos a um cargo proporcional e ou majoritário, como já aconteceu em São Paulo, com o nome do empresário do Grupo Ecoturis e jornalista Hércules Góes e como está acontecendo na Bahia, onde o nome de
João Jorge, personalidade conhecida mundialmente pelas ações que desenvolve no Grupo Olodum, que buscavam o direito de ao menos se apresentar perante o eleitorado como candidatos ao Senado da República.
Por não concordar, nunca, com qualquer ato de preconceito e ou racismo contra a nossa raça, deixo de atender os inúmeros apelos para que neste ano de eleições proporcionais e majoritárias, disputasse o pleito de outubro como candidato a deputado federal, atendendo a solicitação de personalidades negras, entre as quais incluo a mulher negra senadora Marina Silva, razão principal de minha filiação partidária ao Partido Verde, do qual me afasto, que está fazendo corar de vermelho as faces democráticas do povo brasileiro, com atitudes racistas de seus dirigentes que com o observar sincero do cidadão-contribuinte-eleitor, que não concordar com estas atitudes, através das urnas democráticas de outubro passarão de meros políticos racistas para figurantes de parte do lixo político racista que infelizmente ainda está presente na história deste Brasil, brasileiro de quase todos nós.
A trajetória política da senadora Marina Silva que ao deixar de cabeça erguida o Ministério do Meio Ambiente levou junto a roupa imaculada de credibilidade ambiental do atual governo, como candidata à Presidência da República é outra história, pelo seu passado de lutas como mulher negra acima de tudo, deve merecer todo apoio e voto da maioria consciente da comunidade negra brasileira, os inconscientes, principalmente os militantes agrupados em “guetos partidários que continuem onde sempre estiveram, pois não tem credibilidade e respeito da nossa raça, pois como define o massacrado cabeça pensante, militante negro em São Paulo, esquerdista por
excelência, José Augusto Gonçalves da Silva, o Neninho de Obaluaê, em seu livro BECO SEM SAÍDA, Eu Vivi no Carandiru: (…) é preciso saber quem não é militante profissional para falar sobre a problemática da comunidade afro-brasileira.”
Na hora do voto perante a urna eletrônica vamos relembrar uma das máximas de uma das personalidades polêmicas da política brasileira, o Senador Antonio Cardoso Magalhães: “Representatividade quem dá é o voto” e saber escolher quem pode ou não representar condignamente a nossa comunidade negra nas eleições majoritárias e ou proporcionais, pois haverão de surgir após as convenções partidárias, nomes que através da luta permanente em defesa de ações afirmativas, contra o preconceito e o racismo, assim como outras ações em defesa da sociedade civil organizada, merecem o voto de irmãs e irmãos
negros concientes para candidatos como a nossa candidata à Presidência da República Marina Silva, a mulher negra Benedita da Silva, Jorge Coutinho e Jurema Batista, no Rio de Janeiro, Silvana Davis, em Rondônia, Claudete Alves, Leci Brandão e o batalhador jornalista Dojival Vieira, Diretor da AFROPRESS, permanentemente contra o racismo no Brasil, candidatos em São
Paulo, Siba Machado, no Acre, senador Paulo Paim, Maria da Graça Paiva e Maria da Conceição Lopes Fontoura, no Rio Grande do Sul, Cristina Almeida, no Amapá, José Amaral Neto, em Minas Gerais e muitos outros espalhados por este país para o qual os nossos antepassados não vieram a passeio.
Vou permanecer até o fim dos meus dias na trincheira de luta onde labuto há mais de 40 anos que é o jornalismo, do qual vivo e sobrevivo sem qualquer dependência de cargos públicos ou de políticos e aqui, parafraseando o poeta Ele Semog in Ponto Histórico: “Não é que eu seja racista…/Mas existem certas coisas/ Que só os NEGROS/ Entendem. (…) Mas existe uma História/Que só os NEGROS/ Sabem contar/… Que podem/ ENTENDER.

Antonio Lucio