Vou surfar na onda do rap negro que o sempre jovem compositor baiano canta, para reafirmar que nem tudo é maravilhoso, embora muito seja divino, nas terras de Alaíde do Feijão. A chacina do nosso cotidiano, não é de presos, mas de quase todos negros, pretos e pardos, jovens com idade entre 17 e 25 anos, que são arrancados de nós pela violência urbana cujo trilho parece não ter fim.
Como parece não ter fim a imunidade e a contemplação de setores da sociedade que parecem que já normalizaram ou naturalizaram a mortandade de nossos jovens, negros de Salvador.
Já não registramos mais os nomes, bastam os números dos finais de semana: quantos talentos foram assassinados, quantos meninos foram sepultados.
Uma lógica nefasta que inverteu a cronologia, porque antes sepultávamos os velhos, com tarefas mais ou menos cumpridas. Agora choramos a morte de futuros engenheiros, advogados, professores, atletas. E não ficamos sem jantar ou sorrir, talvez na certeza de que não seremos atingidos.
Setores da sociedade contemplam a morte de outros, aqueles do lado de lá, merecedores, às vezes de nossa solidariedade tardia, a solidariedade que vem depois da tragédia anunciada, depois da morte, depois do último tiro, afinal são vários os tiros que jogam para a exclusão até o último que inclui na nota triste dos registros policiais.
E por que o silêncio contemplativo de parte da sociedade? Porque essa parte que morre é a herdeira de um País desigual, de uma nação partida, um estado construído sobre bases de desigualdade, onde seres humanos foram convocados para mandar, e outros seres humanos foram convocados para obedecer.
Uma sociedade que hierarquizou pessoas em graus de primeira e de segunda. Uma sociedade ainda acorrentada nas suas matrizes cognitivas – a pior marca do racismo – correntes invisíveis nas cabeças de quem escravizou e de quem foi escravizado.
Para uns, cotas de paciência histórica e de convencimento para tê-los como aliados; para outros cotas de políticas afirmativas, cotas de educação, saúde e proteção. Amor e apreciação positiva em fartura. Respeito sem subordinação, oportunidades e reparação das injustiças. É o nosso papel no mutirão da solidariedade que deve chegar antes da catástrofe, antes do último tiro e de um corpo a mais de um jovem talento a menos. O rap pede passagem.

Ailton Ferreira