Também será lembrada como aquela em que os três principais candidatos parecem ter feito, entre si, o pacto de não tratar do tema de maior interesse de 51,3% da população brasileira: o abismo de desigualdade que separa negros e não negros, apontado em todos os indicadores sócio-econômicos de institutos tão diversos quanto o DIEESE, o IPEA e ou a Fundação SEADE.
E o pior é que não se pode alegar que o silêncio tenha a ver com ignorância. O que a ausência de propostas expõe de forma eloqüente é o grau de insensibilidade que parece ser comum a todos a respeito da herança maldita que – entra governo, sai governo – permanece intocável. Ou seja: nenhuma.
Não faz quinze dias que a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio – a PNAD, do IBGE – indicou a permanência de uma desvantagem superior a dois anos de estudos para menos, na relação entre negros e não negros. Essa desvantagem se mantém desde 1.929, segundo apontam Estudos do IPEA.
A ex-ministra e candidata do PT, Dilma Rousseff, que está na frente em todas as pesquisas e ameaça ganhar já no primeiro turno, o tucano José Serra, e a senadora Marina Silva, do PV, poderiam ter apresentado uma agenda para o país com diagnóstico e propostas sobre como enfrentar a desigualdade herdada dos quase 400 anos de escravismo e de mais 122 anos de racismo pós-abolição. Não lhes faltam dados, nem informações, supõe-se.
Qualquer pessoa razoavelmente bem informada sabe que o racismo é elemento estruturante da desigualdade social brasileira, a mesma desigualdade que coloca o Brasil no ranking dos 10 mais desiguais do mundo.
Não apenas não apresentaram agenda alguma, fizeram pior: silenciaram. Nenhum considerou que uma questão que envolve a situação da maioria da população brasileira, merecesse um minuto que fosse dos seus programas eleitorais. Certamente os seus marqueteiros, os responsáveis pelo que devem falar na TV, nas entrevistas e nos debates, desaconselharam tocar no assunto que consideram inadequado porque polêmico, potencialmente explosivo.
O silêncio nesse caso é irmão-gêmeo da cumplicidade com os efeitos perversos da desigualdade: no Brasil, os negros são os mais pobres, dentre os pobres; são os que vivem em piores condições, tem pior assistência de saúde, são os que mais ocupam as filas do desemprego e do subemprego, morrem mais cedo.
Só duas razões explicam a omissão: a primeira é a persistência do mito/mentira da democracia racial, das idéias herdadas de Gilberto Freire, para quem a escravidão no Brasil não teria sido tão perversa quanto nos países de colonização anglo-saxã. Quem pensa a partir dessa matriz, não considera que a permanência do racismo e os seus efeitos, seja tema relevante para entrar na agenda de candidatos à Presidência.
Quem pensa dessa forma, tem enorme dificuldade de ver o país sob o ponto de vista das necessidades da maioria negra e pobre. Elites encasteladas que vêem a desigualdade como “um detalhe” e o Estado como um espaço privilegiado para a defesa dos seus interesses.
Para quem pensa assim, a tragédia dos jovens que diariamente são assassinados pela Polícia em todas as cidades brasileiras – por carregarem na testa a marca do suspeito padrão – são apenas números para figurar nas estatísticas e em estudos acadêmicos.
A segunda razão é que – mesmo sendo maioria – tratar desse tema, significaria mexer em vespeiro, causar polêmica, sem resultados em votos.
A pergunta aos três candidatos, que não quer calar é: como pretendem fazer com que o país se torne a quinta-economia do mundo, preservando o modelo de desigualdade que mantém a maioria da população, que é negra e pobre em condições de miséria e na penúria em que vive a maioria.
A resposta, mais uma vez, tem sido sempre a mesma: o silêncio. Ou a alternativa de um modelo de inclusão subalterna, em que aos negros – só se permite o acesso pela porta dos fundos – e ainda assim, uma vez dentro, devem saber do lugar que lhes é reservado: o “puxadinho”.
É só isso que explica o porque os negros presentes em todos os partidos – a maioria dos quais organizados em correntes e articulações -, também convenientemente se calam. É esse o modelo que as elites brasileiras e os seus Partidos, invariavelmente oferecem e que ficam escancarados a cada eleição.
É certo que tais lideranças brandirão textos que encaminharam para os programas dos seus candidatos; propostas genéricas de como tratarão a questão racial. São todas tão genéricas que seria possível afirmar que estariam lá apenas como uma cortina de fumaça, um álibi, aos que docilmente se prestam ao triste papel de recolhedores de migalhas.