Por quatro dias, delegações de todos os Estados e mais Distrito Federal – de negros, ciganos, judeus, palestinos, indígenas – se reuniram à pouca distância do Palácio do Planalto, em plena Esplanada dos Ministérios, para tratar de um dos temas mais importantes – senão o mais importante – da agenda do país neste século XXI: a desigualdade étnico/racial, um dos eixos estruturantes da desigualdade social brasileira, fruto de quase quatro séculos de escravismo e de mais 121 anos de racismo pós-Abolição.
Nenhuma cobertura. Nenhuma análise. Nem uma linha. Silêncio ensurdecedor, engrossado até mesmo pelos mais importantes jornais de Brasília – o Correio Braziliense e o Jornal de Brasília. As TVs – Globo, Bandeirantes, Record, SBT, Rede TV, todas com Redações e escritórios instalados na Capital Federal – igualmente fingiram que não viram.
Saber quais os critérios adotados pelos diretores de Redação, Editores e pauteiros desses veículos para a ausência e o silêncio, é tarefa impossível. Não serão encontrados em nenhum Manual. Mas, mas certamente, de uma coisa não resta dúvidas: jornalísticos é que não foram.
Alguém poderá dizer que a Conferência era uma iniciativa do Governo Federal e, cobri-la, seria desviar-se dos assuntos que normalmente merecem a atenção da pauta dos jornais e enveredar pelo jornalismo chapa branca. Falso.
A Conferência, embora chamada pelo Governo, por meio da Secretaria Especial de Políticas da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), é desde 2005, uma iniciativa do Estado brasileiro, tanto que todos os Governadores, de todos os Estados, de todos os Partidos a convocaram, e assumiram as despesas de deslocamento de delegados.
Alguém poderia ainda tentar a desculpa de que, sendo uma iniciativa do Estado, ainda assim, mantido estava o viés chapa branca. Também falso.
Embora sendo iniciativa do Estado, a Conferência teve a maioria dos seus delegados eleitos por organizações e entidades da sociedade civil, de todos os segmentos que, de alguma forma, sofrem as conseqüências da cultura do racismo e da discriminação.
A ausência de cobertura da mídia brasileira, só tem um motivo e duas explicações óbvias. O motivo é o velho racismo institucional – que é a modalidade, supostamente neutra, aparentemente inocente, praticada pelas instituições, em atitudes e posturas reflexas, presentes na alma das instituições e das pessoas; inocente, frio, asséptico, mas nem por isso, menos perverso e letal.
Quanto às explicações, trata-se, primeiro, de uma desonestidade, como bem o disse o cientista social e também jornalista Carlos Alberto Medeiros, que priva a sociedade de informações para que possa formar suas próprias opiniões.
Sem essas informações, fica-se refém da pauta terrorista montada por gente como Ali Kamel, o poderoso chefão do Jornalismo Global, e Demétrio Magnolli, de O Estado de S. Paulo, para quem ações afirmativas, cotas e políticas públicas para a população negra, significam o risco de dividir o país – as tais “divisões perigosas” – não por coincidência, o temor maior dos escravocratas no final do século XIX, quando a Abolição era iminente.
O detalhe é que fazem isso – como no caso de Kamel e de de outros articulistas que atuam nas redes de TV – a partir de empresas que operam sob concessão pública, o que configura, no mínimo, além de uma desonestidade, um atentado ao direito à informação garantido a todos pela Constituição.
A segunda explicação é do professor Kabenguele Munanga, professor titular do Departamento de Antropologia da USP – ele próprio recentemente alvo e vítima de ataques covardes de Magnolli, um dos chefes da brigada anti-cotista, que entre outras barbaridades o chamou de racista e charlatão acadêmico. O carrasco tem sempre a necessidade de matar duas vezes. A segunda é pelo silêncio.
Nota da Redação
Com uma Equipe de quatro profissionais – comandados pela jornalista Dolores Medeiros – a Afropress cobriu a II CONAPIR, em Brasília, durante os quatro dias e, no mês de julho, veiculará, em vídeo, as entrevistas com várias lideranças presentes, abarcando os mais variados temas.
Em nome da Equipe, queremos agradecer aos profissionais colegas da Seppir pelo apoio logístico, indispensável para o sucesso da cobertura; aos colegas da Cojira/Brasília e Blogs autônomos, e os inúmeros cumprimentos recebidos pelo trabalho realizado, do Brasil e do exterior, que temos, na medida do possível, postado na sessão dedicada aos leitores.
Estamos buscando fazer a nossa parte para furar o bloqueio da invisibilidade que, como se vê, é um poderoso instrumento para manutenção do racismo – com tudo o que essa chaga social acarreta – em nosso país.