Vivíamos então no regime comunista primitivo. Por causa do desenvolvimento das técnicas da agricultura ocorreu uma significativa melhora na produção de alimentos e nem todos precisaram mais trabalhar. Estes utilizaram o tempo vago para se dedicarem a outras atividades especializada dando origem à primeira divisão social entre as classes, pois agora apareceram classes e tarefas distintas das da tribo. Essa melhoria nas condições de produção dos alimentos alterou profundamente a estrutura social da tribo. Daí em diante jamais a humanidade voltaria a conviver sem as desigualdades de raça, gênero e classe. E a África sofreu muito por ter em seu solo todas as riquezas necessárias para a reprodução do capital. Foi roubada e maltratada pelas mais variadas nações e povos, sendo que hoje nenhum dos devedores lhe pagou a dívida, que agora passou a ser uma dívida social, monetária e política.
2 – Na África também nasceram as principais contribuições do homem no campo da ciência, filosofia, medicina, engenharia e matemática, ambos saberes foram usurpados pelos invasores dos quatros cantos do mundo, que autoproclamaram como seus o pensamento e a prática seculares erguida por gerações e gerações na Núbia, Axum, Daomé. Tais ensinamentos permaneceram por gerações e séculos na forma de tradição oral, até a conquista do Egito, negro e antigo, por Alexandre Magno. O movimento filosófico comandado por Aristóteles e sua escola compilaram os ensinamentos egípcios e afirmaram ser gregos. As Escolas de Mistérios, que hoje conhecemos como Maçonaria, Rosa Cruz entre outras, é invenção africana tão antiga quanto o próprio continente. Aliás, foi no Egito que a humanidade teve uma de suas mais evoluídas civilizações tendo a frente a liderança do faraó Akhenaton. Mas todo o processo societário e histórico posterior foi marcado por esse grande furto ao solo africano. Usaram argumentos falsificados e mentirosos para continuar o roubo e ninguém ser punido ou criticado por essa tamanha brutalidade. As relações internacionais acontecem sob esse signo: um grupo de países submeteu economicamente outro grupo de países.
3 – Nisso, no campo internacional e apesar da retomada do enfrentamento ao neoliberalismo, ainda precisamos avançar para romper com a nova ordem social imposta pelas nações mais ricas e desenvolvidas. Basta lembrar que após importantes vitórias contra o colonialismo no continente africano, só para citar esse exemplo, retomam ao poder central práticas que antes foram derrotadas pelo socialismo. Em vários países africanos governos e políticas conservadoras voltam ao cenário local, provocando guerra fratricida a serviço do imperialismo.
4 – Por isso, mais do que constatar essa retomada neoliberal no continente, precisamos impulsionar uma onda de resistência que traga o povo e as forças políticas para mais uma etapa da batalha contra a exploração. Ou seja, tornou-se necessário a construção de um instrumento que dialogue com todos os lutadores sociais e revolucionários para pôr fim definitivo a essa agenda conservadora.
5 – Contribui para isso o fato de que já temos motivos concretos para essa construção, pois na América Latina, como fez Cuba, forças progressistas comprometidas com a igualdade social sagraram-se vitoriosas em seus países, como Bolívia e Venezuela, duas nações cujo poder é dirigido por indígenas. O Movimento Negro da região sempre foi um movimento forte no Chile, Equador, Argentina. Hoje, Hugo Chavez dá prosseguimento na Venezuela ao projeto iniciado pelos negros ex-cativos e que chegaram ao poder proclamando Rei Bayano e a liberdade dos africanos no século XVIII. Na Colômbia a vitória foi de Rei Benko Bioho, no ano de 1600, e no Uruguai foi constituído o Partido Negro Autoctóno, além de incontáveis experiências revolucionárias não catalogadas pela historiografia, como a derrota de Napoleão Bonaparte para o negro Toussaint L`Overture no Haiti de 1793.
a) Mas precisamos estar alertas. George Bush, o inimigo da humanidade, usando o poder militar dos Estados Unidos, ameaça diariamente guerrear quem pensa e age diferente daquilo pregado pelo Consenso de Washington. Recentemente os alvos de sua tirania recaem sobre a heróica Coréia do Norte, brava nação socialista da Ásia. Os casos da Palestina, Iraque e Líbano demonstram claramente como os Estados Unidos conseguem articular diplomaticamente para que seus interesses não sejam contrariados. E organismos como a ONU-Organização das Nações Unidas, Fundação Ford e OMC – Organização Mundial do Comércio volta e meia dão guarida a esses interesses. E de novo usaremos o exemplo da África para mostrar como isso acontece na prática: a indústria farmacêutica, visando somente os lucros financeiros, comete verdadeiro crime lesa-humanidade contra milhares de pessoas africanas, e ninguém ousou travar esse debate com força suficiente para mudar essa situação.
b) – Após o genocídio de populações inteiras, a dominação, de novo feitio – imperialista-capitalista – abarca os campos político, econômico, cultural e militar, onde os destinos do continente africano é traçado fora d’África, em reuniões e círculos financeiros organizados pela ONU e FMI-Fundo Monetário Internacional. Cuja desestabilização da região africana é a principal tarefa da diplomacia, tanto de sangue quanto de guerra fria, das potências européias, muitas delas ex-colonizadoras d’África.
c) -Tais potências aplicam um receituário neoliberal sob as nações africanas. E estas terapias neoliberais destruíram o contrato social oriundo das independências pós-colonialismo. Cuja democratização ampliou o espaço político, mas de modo muitíssimo incompleto. A tutela das instituições financeiras internacionais sobre a África limitou essa democratização, ou seja, a África se desgarrou das amarras coloniais para cair nos braços da ditadura do capital. Exemplifica isso as recentes manobras visando o “cancelamento” de “dívidas” dos países africanos que em contrapartida exigem-se-lhes políticas condicionadas à adoção de privatizações e abertura dos mercados africanos à “concorrência” mundial. Os únicos beneficiados pelas guerras tribais são as potências capitalistas da Europa e América do Norte. O genocídio ocorrido em 1994 em Ruanda, cujo grau de cumplicidade envolve múltiplos agentes como a França, Bélgica, membros da Igreja Católica e do Banco Mundial; foram os créditos desse banco que compraram as armas e enxadas empregados na matança de 1 milhão de ruandeses, comprova isso. O alerta quanto às ações nocivas da presença dessas potências em solo africano vem também da África do Sul, caso sintomático dos estragos feitos à África pelos imperialismos e seus organismos. Incapaz de enfrentar a desigualdade e rendido às políticas do Banco Mundial e FMI, o Congresso Nacional Africano-CNA, partido de Nelson Mandela, vive riscos reais de dissidência. Se antes a sociedade sul-africana era dividida racialmente, hoje está intrinsecamente estratificada em classes sociais. O CNA tinha um programa econômico pautado na luta contra essas desigualdades sociais, cuja base sociológica refletia a influencia do Partido Comunista Sul-Africano na coalizão que elegeu Mandela. Agora o governo segue um receituário neoliberal. Essa mudança de rota provoca críticas de setores alinhados ao governo como os sindicatos de trabalhadores e a classe média. A África do Sul não conseguiu mudar a situação no campo, onde 87% das terras são propriedade de fazendeiros brancos da época do Apartheid,entre outros impasses.
6 – Aproveitando-se dessa brecha, os Estados Unidos aumentaram significamente sua presença militar na região. O pretexto foi a guerra contra o terrorismo da Al Quaida ( na Somália e Sudão), mas os seus reais interesses estão no petróleo de Angola e Nigéria e outras riquezas do continente negro. Os Estados Unidos são dependentes de várias matérias-primas que são abundantes na África: manganês (usado na produção de aço), cobalto, em que 50% das reservas mundiais estão concentradas no Zaire e Zâmbia, cromo ( que é usado nas ligas aeronáuticas) e 98% das reservas mundiais estão no Zimbábue e África do Sul, além de ouro, antimônio, flúor e os diamantes industriais. Para dar manutenção a esses interesses, Washington criou, em 1996, a Força de Resposta às Crises Africanas (ACRF), hoje substituída pela Acri – African Crisis Response Initiative. A Acri teve como missão: a “manutenção da paz” e “ajuda humanitária”. Entre julho de 1997 e maio de 2000, a Acri gastou 30 milhões de dólares para formar batalhões leais aos Estados Unidos no Senegal, Uganda, Costa do Marfim, entre outros. Em 2002 Bush transformou a Acri em ACOTA – Africa Cotengency Operations Trainning Assistance, cuja estratégica está alicerçada em 2 eixos: de um lado, dar garantia de exploração ilimitada dos mercados, recursos e fontes de energia, de outro, dar garantia de segurança no envio dessas matérias-primas aos Estados Unidos.
7- De forma não muito diferente agem Alemanha, Inglaterra, Itália, França, Portugal e outros países europeus na exploração mercantilista da África.
8 – Portanto, a luta contra os imperialismos (norte-americano e europeu) requer uma nova repactuação multipolar para a qual a esquerda africana joga papel fundamental e o fortalecimento da União Africana -UA- é o único caminho para criar uma alternativa macroeconômica que se contraponha ao neoliberalismo na região.
9 – Nisso, Cuba, Brasil e Venezuela podem e devem fornecer a máxima solidariedade para o êxito da edificação dessa grande África, nascida das lutas do passado e pronta para enfrentar os desafios geopolíticos do século XXI. Em que a União Africana precisa ser a referência principal desse enfrentamento e da contraposição à onda conservadora que toma conta do continente africano onde os novos governos eleitos desses países vem funcionando como correias de transmissão e apêndices dos imperialismos.
10 – Dessa forma recomendamos que União Africana adote uma postura mais impulsionadora no sentido de favorecer a balança comercial entre os próprios países desse bloco, uma vez que continuamos a registrar os mesmos graus de exploração do que melhor tem a economia africana pelas potências imperialistas, agora sob a batuta da UE-União Européia,OMC-FMI. Haja vista que a África responde por apenas 1% do PIB mundial e 2% das transações comerciais no mundo. Para isso é preciso potencializar a SADC-Comunidade Para o Desenvolvimento da África Austral, criada em 1980 e que tem um PIB de 216 bilhões de dólares, fortalecendo e filiando novos países africanos a essa comunidade, inclusive com a adesão do Marrocos. Todavia a SADC contar apenas com 14 países-membros, a África como um todo, possui um solo riquíssimo em recursos minerais como petróleo, ouro, diamante, urânio, carvão e gás natural. Tais recursos, em vez de fomentar o desenvolvimento sócio-econômico da região, motivou a que diversas nações do globo invadissem e saqueassem os países africanos, ora implantando e financiando regimes racistas e ditatoriais, ora praticando e incentivando o genocídio inter-tribal, através de guerras contra os povos donos dessas riquezas, sempre com a cumplicidade e omissão da comunidade internacional, cujos episódios atuais são os conflitos no Sudão, Somália, Etiópia. Enquanto a África se guerreia, Estados Unidos e demais paises da Europa lucram e crescem economicamente comercializando essas riquezas e retroalimentando, pelo financiamento de armas, governos e regimes, as proto-rivalidades entre os irmãos africanos.
11- Quanto ao Oriente Médio, somos favoráveis à autodeterminação dos povos. Reconhecemos o Estado de Israel e o Estado da Palestina, e suas organizações políticas soberanas e autônomas como única solução pacífica a essa guerra fratricida.Nos somamos à esquerda israelense contra o atual governo racista e de direita ortodoxa, pois o Estado de Israel em conluio com os Estados Unidos usam métodos nazistas para agredir e guerrear os demais povos da região. No entanto, avaliamos como positiva a alia de 1985 onde 14 mil judeus negros da Etiópia foram levados para Israel fugidos das guerras tribais, fome e miséria que assola o país etíope.
12 – No plano internacional vale ressaltar que a influência negra na Espanha e Portugal, pela presença moura e sarracena por quase 10 séculos, é maior que a influência negra no Brasil; que se deu a partir de 1530 aos dias de hoje.
13 – Finalizo resgatando a contribuição de Josep Stalin, ex-líder da URSS, para a luta de emancipação do negro. Stalin foi o primeiro chefe de Estado a condenar, em 1936, a invasão da Abissínia, hoje Etiópia, pelas tropas fascistas italianas. Em 1937 a Internacional Comunista, secretariada por Stalin, financia o atleta negro Paul Robenson na tentativa de fundar a República da Nova África, próximo ao Mississipi nos Estados Unidos. Apesar das primeiras e poucas experiências, com seus erros e acertos, o socialismo mostrou-se superior ao capitalismo no fornecimento de direitos humanos e qualidade de vida para os povos.
Propomos:
1- Política de desenvolvimento sócio-econômico entre Brasil, Venezuela e Cuba com os paises africanos, potencializando a capacidade econômica da União Africana.
2 – Criar a ponte aérea ligando Recife no Brasil e Dakar no Senegal.
3 – Recomendar ao Estado Brasileiro prioridade nas relações com a União Africana, bem como o fortalecimento desta nas relações exteriores entre Brasil e continente africano.
4 – Pelo pagamento da dívida histórica que as potências capitalistas têm com a África.
5 – Que o Brasil lidere campanha internacional contra a prática da mutilação genital feminina, principalmente em países da África.
6 – Pela imediata retirada das tropas norte-americanas do continente africano.
7 – O Socialismo é o futuro da África.

Alexandre Braga