Na verdade, pareceu um embróglio formado para a manutenção do status quo de uma elite que pensa que poderia ser escravocrata. A falta de conhecimento histórico, para não falarmos em manipulação dos fatos, do senador Demóstenes Torres (DEM), presidente da Comissãode Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal, foi indigna para alguém que ocupa esta posição.
Sua insensibilidade – ao afirmarque mulheres negras não foram estupradas e que mantinham relações sexuais consentidas com os senhores de fazendas, no tempo daescravidão – às vésperas dos cem anos do Dia Internacional da Mulher, revelou o descaso do parlamentar em relação as lutas de milhares de pessoas ao redor do mundo. Homens e mulheres que lutam por Justiça e por Cidadania, além de direitos e reparações necessárias.
Outros opositores às políticas de Ações Afirmativas, que nos fazem lembrar os negacionistas, não compareceram ao debate. Alguns nem chegaram a apresentar justificativas. Foram eles que deixaram os únicos negros que faziam parte da campanha do”contra”, sozinhos. Essa é uma manobra que as elites sempre utilizaram. Usam negros contra seus próprios irmãos e depois os abandona.
A ausência desses setores talvez também tenha ligação com o impacto causado pelas declarações da Secretária de Estado dos EUA, HillaryClinton, que dias antes, na Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, reafirmou a importância das Ações Afirmativas para combater as desigualdades. Reconhecer a origem de um problema é o passo mais importante para superá-lo, já dizem as diversas escolas de psicanálise.
Os grupos políticos e acadêmicos que se opõem a política de cotas nas universidades, não conseguiram justificar, de forma mínima, os motivos que os levam a pensar desta forma. Os argumentos utilizados ou foram indecorosos – como no caso do senador Demóstenes – ou desprovidos de qualquer sentido histórico e sociológico.
Esses grupos tiveram contra si os argumentos do fato do Brasil ter vivido 363 anos de escravidão de milhares de africanos, sem preocupar-se com a adoção de políticas públicas que efetivamente cuidasse de pretos e pobres, que garantisse equidade de acesso aos sistemas oficiais de ensino, “que promovesse a Reforma Agrária e escola para todos”, como queria Joaquim Nabuco há122 anos. Aí, sim, não precisaríamos de cotas.

Ivanir dos Santos