Em manifestação na semana passada, no Rio, Chico Buarque ecoou o mantra "não ao golpe" do lulopetismo e sub-legendas, identificando coincidências e similaridades entre o atual movimento pelo impeachment da Presidente, com o golpe militar de 1.964, que instaurou uma ditadura por 21 anos, acabou com as liberdades democráticas, prendeu, torturou, matou e desapareceu com centenas de brasileiros. Também no Farol da Barra, Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram o mesmo animando a plateia por ocasião do show comemorativo aos 467 anos de Salvador.

Só por ignorância, má-fé, desonestidade intelectual, ou tudo isso junto, alguém pode embarcar nesse tipo de narrativa. No caso dos três geniais músicos, autores de clássicos da MPB, que embalaram gerações, o motivo pode não ser nenhum dos citados, mas outro: alienação. Chico, Caetano e Gil estão presos ao passado e, alienados da realidade, não podem – ou se recusam – a enxergar o futuro. Parafraseando a famosa canção de Chico, “o tempo passou na janela e só Carolina não viu”.

Senão, como admitir que não saibam dos escândalos em cascata que atingem em cheio o Governo e o lulopetismo como projeto de poder? Como ignoram que, ao "mensalão" pelo qual foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) os principais dirigentes da legenda que está no poder há 13 anos, tenha se seguido o “petrolão”, o escândalo  que levou ao chão a principal empresa brasileira – a Petrobrás? Como desconhecem que, decisões deliberadamente tomadas pelos Governos Dilma, quebraram a economia, com a explosão do desemprego, da inflação e da falta de perspectivas em que vivem os brasileiros?

Como fazem vistas grossas ao maior estelionato eleitoral das eleições no Brasil, gestado e executado nos laboratórios do Planalto pelo marqueteiro João Santana, também preso em Curitiba? Como fingem não vê que impeachment é mecanismo previsto na Constituição brasileira e, inclusive, já utilizado contra o ex-presidente Collor, tendo Lula e o PT como um dos seus principais defensores e protagonistas?

Entre os artistas, até o momento, registre-se a solitária e indignada reação do músico Guarabira (do trio Sá, Rodrix e Guarabira): “Que me desculpem Chico Buarque e fãs (entre os quais me incluo), mas comparar o pedido de impeachment com o golpe militar, como se todos os que lutaram contra a ditadura tivessem a obrigação de se alinhar ao PT, trata-se de uma boçalidade do mesmo tamanho que seu imenso talento”.

Que sejam contra o processo de impeachment por estar sendo conduzido por um Congresso comprometido até o pescoço com a lama (só para lembrar o presidente da Câmara e do Senado, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, são investigados pela Operação Lava-Jato, sendo que o primeiro já se tornou réu), entende-se, em homenagem e em respeito ao direito de livre opinião e expressão.

Que Chico, Caetano e Gil embarquem numa farsa, reforçando a palavra de ordem com a qual Lula e o lulopetismo pretendem salvar a pele e ludibriar, mais uma vez, o povo brasileiro, ou em nome do que quer que seja, é algo que ficará registrado nas respectivas histórias e no filme dos seus piores momentos.

Ofensa à inteligência

Nas manifestações ocorridas no dia 31 de março, de triste memória, escolhido para reforçar o paralelismo e a similaridade com o outro golpe, e em defesa de Lula e Dilma contra o impeachment, não se ouviu uma única palavra, uma frase que fosse, uma faixa sequer, contra a corrupção e o assalto organizado da maior empresa brasileira.

Não houve um único ou solitário discurso em defesa de punição exemplar para os que criminosamente roubaram os cofres públicos, receberam vantagens indevidas e causaram prejuízos sem conta ao povo brasileiro. Lula é suspeito de ser o chefe do esquema criminoso e por isso já foi levado a depor em condução coercitiva e os dois tesoureiros do Partido – Delúbio Soares e João Vacari Neto – também condenados nos casos do "mensalão" e do "petrolão", este último, inclusive, ainda preso em Curitiba.

As evidências de que o ex-presidente recebeu vantagens indevidas das empreiteiras sócias do esquema – Odebrecht e OAS, em especial –, no caso do triplex no Guarujá e do sítio em Atibaia, são conhecidas. Um inquérito aberto pelo Ministério Público Federal apura sua participação em tráfico de influência internacional em defesa das empreiteiras em países africanos, da América do Sul e do Caribe.

Ao contrário, o que se viu nas manifestações foram ataques ao juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava-Jato que revela aos brasileiros o sub-mundo, os bastidores do maior assalto ao dinheiro público no Brasil praticado por um Governo que – pasmem – num passado recente, se proclamava – e ainda se proclama – de esquerda.

Numa alusão à quaresma recente, Moro foi malhado como Judas. Não foi diferente a campanha desencadeada pelo lulopetismo e devotos contra o ministro Joaquim Barbosa, relator da Ação Penal 470 que botou na cadeia cabeças coroadas do Partido.

Como se pode ver, há algo de errado, quando um partido que nasceu e se proclama ao lado dos trabalhadores e dos excluídos da sociedade, passa a defender a corrupção como método de governo e assume a defesa despudorada de criminosos.

Corrupção, roubo escancarado de dinheiro público – com pedaladas e ou sem pedaladas fiscais – não é um crime qualquer: é a  fonte de todos os crimes, porque retira dos mais pobres o dinheiro da saúde, da educação, do transporte. E o pior: perverte o sentido da política como instrumento de transformação social para fazê-la mero balcão de negócios e de enriquecimento de poucos.

Segundo o respeitado jornalista Hugo Studart, é voz corrente em Brasília que o mercado persa em dinheiro vivo já tem até uma tabela definida: R$ 1 milhão por voto contra o impeachment; R$ 400 mil por ausência no plenário, "dinheiro que não é, por óbvio, do orçamento, mas caixa 2 do PT mesmo". Não entram nesse cálculo, R$ 50 bilhões que o Governo já anunciou que vai distribuir em emendas parlamentares, obras e similares e também é voz corrente que na ilha da fantasia que é Brasília, que o Governo está fixando a compra do voto de cada senador por R$ 5 milhões em dinheiro vivo.

O jornal Folha de S. Paulo desta segunda-feira (04/04), traz em manchete que "Lula avança sobre o "baixo clero" para salvar Dilma de impeachment" praticamente confirmando as graves denúncias de Studart. Veja: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/04/1757130-contra-impeachment-lula-avanca-sobre-baixo-clero.shtml

Depois de trair os sonhos de gerações de brasileiros, depois de fingir ser o que nunca foi, o lulopetismo, parece ter se superado: está tentando se reinventar em pleno século XXI lançando ao mundo um novo e "revolucionário" produto apreciado, especialmente, por empreiteiros corruptos: a esquerda “rouba mas faz”.

 

 

Dojival Vieira