S. Paulo – O diretor Executivo da Rede Educafro – a mais importante rede de cursinhos pré-vestibulares para negros do país – Frei David Raimundo dos Santos, disse, ao comentar pela primeira vez, a aprovação, na véspera, do Estatuto da Igualdade Racial, que os senadores fizeram a pior escolha ao optarem pela a versão proposta pelo senador Demóstenes Torres, do Partido Democratas, de Goiás.
“Para a nossa tristeza, optaram pela pior redação, a opção imposta pelo herdeiro do colonialismo Demóstenes Torres. Aproveitaram-se do momento em que o Brasil está com todas as atenções voltadas para a Copa do Mundo da África para que o Demóstenes pudesse mostrar os seus compromissos com os herdeiros do colonialismo”, afirmou Frei David.
A votação aconteceu por acordo entre os Partidos na tarde desta quarta-feira (16/06), com a exclusão de pontos considerados essenciais para a população negra como a questão das cotas, a supressão de artigos que tratavam da saúde, do acesso ao mercado de trabalho, aos meios de comunicação e com a rejeição – por Demóstenes – do reconhecimento dos efeitos da escravidão e da existência de uma identidade negra no país.
Depois da votação, o ministro Elói Ferreira, o ex-Edson Santos, Paim e todo o staff da SEPPIR, que ignoraram o apelo de mais de 120 entidades pela retirada do projeto da pauta, foram ao gabinete do presidente do Senado, José Sarney, para agradecer o “empenho do senador” e tirar fotos celebrando a “vitória”.
Sem liberdade
Frei David, no entanto, ao contrário de lideranças negras que responsabilizam a SEPPIR e o senador Paulo Paim (PT-RS) pelo acordo com Demóstenes, preferiu isentar o atual ministro e o ex, Edson Santos, patrocinadores da iniciativa. “Tenho certeza de que os nossos irmãos negros que lutaram a favor não tiverem essa liberdade para escolher. Estiveram o tempo todo com a faca no pescoço e diante do seguinte dilema: é melhor um passarinho na mão do que dois voando”, acrescentou.
Segundo Frei David, tanto Elói, quanto Paim se tivessem chance e poder político teriam escolhido outra redação. “Na manhã da votação do Estatuto os senadores tinham três possibilidades: a primeira, era serem coerentes com eles mesmos e trazerem de volta a redação votada em 2004; a segunda, poderiam ter escolhido a redação votada na Câmara dos Deputados, que já não era a melhor, mas ainda assim teria sido preferível. Mas, para a nossa tristeza, optaram pela pior redação”, frisou.
Na sua avaliação, a SEPPIR ficou sem opção. “Tenho certeza que a SEPPIR, o senador Paim, não tiveram outra opção. Foi a pior e a única opção que deram a eles. Ficaram na situação de escolher e escolheram: melhor um passarinho na mão do que dois voando”, insistiu.
O religioso considerou ainda justificável a posição assumida pelo ministro Elói Ferreira. “É compreensível. Eles estão em final de mandato e é normal que quem tem o poder na mão tem de mostrar trabalho”.
Ampliar a indignação
Apesar da derrota, que para ele, acabou “revelando o nível de poder político acumulado pelo povo negro”, Frei David se mostra otimista e afirmou que está confiante de que haverá “um aumento da consciência política do negro”. “É preciso aproveitar o momento Obama, e a própria votação desse Estatuto para aumentar a consciência política.
Segundo o Frei, é preciso que todos os que estão insatisfeitos aproveitem o momento para aumentar a indignação do povo negro. “Com isso vai acontecer, o que o senador Demóstenes Torres mais tem medo: que o debate nacional sobre a exclusão do negro tome cada vez mais corpo. O tiro vai sair pela culatra”, concluiu.

Da Redacao