Em muitos países da África o conceito de Ubuntu é encontrado como uma visão cultural de mundo que tenta capturar a essência do que significa ser humano. A definição que eu encontrei que mais me chamou a atenção é: Ubuntu é muito difícil de processar em uma língua ocidental. Ele fala com a própria essência do ser humano. 

Quando você quiser elogiar alguém, você diz se ele ou ela tem Ubuntu. Isso significa que eles são generosos, hospitaleiros, amigáveis, carinhosos e tem compaixão. Eles compartilham o que têm. Isso também significa que a minha humanidade é intimamente ligada ao consenso de sermos “um”. Africanos dizem "uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”.

Eu sou humano, porque eu pertenço, eu participo, e nós compartilhamos. Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível aos outros, apoia os outros, não se sente ameaçada quando os outros são bons e capazes, porque ele ou ela tem uma boa auto-garantia que vem de saber que ele ou ela pertence a um todo maior e é diminuído quando outros são humilhados ou diminuídos, quando outros são torturados ou oprimidos, ou tratados como se fossem menos de quem eles são”. (Tutu presidente da Comissão da Verdade e Reconciliação citado por Timothy Murithi, pesquisador de Desenvolvimento de Políticas e Pesquisa da Universidade de Cape Town, na África do Sul).

Isso pra mim é um conceito de vida muito pertinente aos dias atuais e ao mercado de trabalho. Aqui no Brasil, um dos meus grandes desafios é conscientizar não-negros sobre a importância de programas de inclusão e até as pessoas que trabalham nas empresas que valorizam a diversidade étnica e tem esse pilar como objetivo e missão.

Meu trabalho exige sensibilização sobre a luta contra o racismo, o preconceito e a discriminação racial, que infelizmente ocorre desde o processo seletivo e persiste no dia a dia corporativo. A partir desse contexto, fiquei pensando no ideológico Ubuntu africano no nosso mercado de trabalho brasileiro. Se todos aqui, de todas as etnias, tivessem essa visão e missão, teríamos um valor mais humano nas relações e talvez não houvesse a necessidade de programas de inclusão, uma vez que essa prática seria natural.

O sentimento de pertencer seria usual, porque quando um de nós chega, todos nós chegamos. E mais: se eu cheguei até aqui, eu vou estender a mão pra você também. Espero que o Ubuntu africano provoque uma reflexão das nossas práticas e possamos evoluir nossos conceitos de branquitude, negritude e enfim, chegarmos à humanitude.

 

Patrícia Santos de Jesus