Trata-se de um movimento hegemonizado por algumas pessoas, que se escondem por trás do título fantasia de entidades, mas que, do início ao fim, nada mais representam do que os Partidos, cujas camisas vestem, porque, inclusive, dentro deles, não têm nenhuma autonomia nem autoridade para adotar posições que contrariem suas cúpulas – muito mais por falta de altivez e subserviência.
E para que ninguém pense que estamos falando apenas dos Partidos, que se colocam no chamado campo da esquerda (tais definições oriundas da revolução francesa, são cada vez menos precisas e confusas, como se sabe) o mesmo ocorre com os movimentos de partidos do centro ou da chamada direita.
A tática de todos os Partidos no Brasil – da direita a extrema esquerda – sem distinção, é considerar que, diante do abismo provocado pela desigualdade racial e, considerando que isso perpassa a sociedade brasileira de alto a baixo, incidindo, portanto, nas eleições, a saída é abrir um “puxadinho” para acomodar os negros e com isso fingir que estão verdadeiramente preocupados com o problema.
Então, o que vemos é o “puxadinho” dos negros do PT, do PC do B, do PMDB, do PSDB, do PTB, DEM, do PSOL, do PSTU, só para citar alguns, tenham o nome que tiverem, às vezes até com o pomposo nome de Secretarias ou Secretariados.
No caso da asssistente social e agora ex-ministra Matilde Ribeiro, foi ungida ao cargo com o aval dos negros do PT, menos pelos seus méritos pretéritos, mas, muito mais pela militância partidária em Santo André. Até então, Matilde era uma ativista discreta do movimento negro. Nunca se ouvira falar de qualquer ação sua ou ato ou atividade na qual tivesse se destacado.
Com a vitória de Lula nas urnas, em 2002, eis que assume o primeiro plano da cena, coordenando a questão racial, na Comissão de Transição que se formou no final de 2002 e início de 2003. Como sempre acontece nesses casos, logo passaria a ter, com a criação da Seppir, em março de 2003, seu nome antecedido nos anúncios com o pomposo atributo: Ministra Matilde.
Ora, o episódio de sua saída do cargo, por pressões do próprio Governo do PT e do Presidente Lula, foi uma peça digna de registro pelo volume de trapalhadas, pelo show de incompetência e, por último, por uma atitude reveladora de traços pessoais e de caráter, que demonstram que a “ministra” não tinha mesmo – nem nunca teve – estatura para ocupar o cargo em qualquer Governo, inclusive, neste.
Surpreendida pela Controladoria Geral da União (CGU), órgão do próprio Governo que mantém o Portal Transparência, onde busca expor com detalhes, os gastos de funcionários – de ministros ao dispenseiro do Lula -, Matilde viveu um calvário de dias, nos quais fechou-se em copas, recusou-se a falar sobre o caso à mídia (e, por conseqüência, à sociedade e aos negros, que dela esperavam uma satisfação) e, no ato final, saiu atirando. Mas, não foi nos responsáveis pela sua queda – o seu Partido, por exemplo, que não a defendeu, lançando uma nota no dia seguinte à exoneração; o Presidente da República, que teve gastos 90 vezes maiores que o dela, inclusive na manutenção da sua dispensa com a compra de quantidades astronômicas de carnes, bebidas e vinhos.
Ela atirou em dois assessores, membros de sua equipe durante os dois mandatos, a quem – até por dever de lealdade e ética – deveria, no mínimo, por elegância, proteger – e não lançar às feras como fez, uma vez que, por óbvio, nenhum dos dois – Antonio Pinto e Carlos Eduardo Trindade – tinham por função, informá-la de que um ocupante de cargo público – seja ministro ou não – deve ser comedido com o uso de recursos oriundos dos impostos, e dispor deles com a cautela que a cidadania exige. Esse era um dever primário da ministra Matilde. Elementar, para ocupantes de qualquer escalão.
Mas, como apesar de admitir o erro, alguma satisfação tinha de ser dada ao distinto público, eis que Silva e Trindade, surgem como uma luva para assumir a responsabilidade final dos “erros” da Ministra. Aliás, é notável a velocidade como, neste Governo, “crimes” se transformam em erros.
Ora, isso é de uma falta de ética, de uma deslealdade tamanha com auxiliares que, não se tem notícia de alguma aberração semelhante. Tivesse Matilde estatura para o cargo, teria assumido a responsabilidade pelo desmando. Mas, sozinha. Não buscando responsáveis por algo que com ninguém dividiu: o gasto, por sua própria conta e risco – inclusive nas férias, duty free, hotéis e restaurantes – de R$ 171,5 mil durante o ano de 2007, 90 vezes menos que o gasto pelo próprio Presidente com cartões corporativos, mas de qualquer forma, muito mais do que o salário de R$ 10 mil que recebia por mês, enquanto esteve na Esplanada.
Foi um vexame que ficará na história. Foi a exposição de um padrão de comportamento do qual, nós negros, temos que manter distância e nos apresssar a informar que não é o padrão de outros de nossos pares, que sabem, sim, distinguir o público do privado, e preservar e valores como ética e lealdade mesmo em momentos difíceis.
O comportamento, contudo, é a expressão de uma cultura de um certo Movimento Negro, que nos últimos 30 anos, se aninhou no colo de Partidos e de Governos, para fazer o papel de símbolo em um Estado racista que pretende se mostrar, apenas na aparência e para consumo de marqueteiros, inclusivo e preocupado com a desigualdade racial.
Esse setor do Movimento – que é hegemônico em alarido, e em influência, apesar da absolutamente minoritário na massa negra – não tem agenda própria. Seus líderes falam pela Causa “até a página dois”, porque o seu objetivo é, principalmente, ocupar espaços de poder dentro do Estado, não para romper o caráter racista desse Estado, mas para fazer a sua própria revolução pessoal – ou seja, cargos, sinecuras e vantagens – ao custo de virar as costas para a população negra que há 120 anos aguarda na planície que a Abolição se concretize no plano real.
O festival de trapalhadas, incompetência e, por fim, deslealdade e deselegância, protagonizado por Matilde, deve nos levar a uma reflexão profunda a respeito das nossas relações com o Estado e com aqueles que dizem nos representar. Principalmente porque, o prejuízo que todos nós negros e negras sofremos na luta por nossas bandeiras históricas neste ano de abolição não concluída são imensos. Bandeiras como a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, a nacionalização do feriado de 20 de Novembro, a generalização das ações afirmativas – que se ampliam nas universidades – não por iniciativa do Governo, tendem a sofrer um refluxo e saem enfraquecidas.
Depois de assistir a peça – com final infeliz protagonizada por Matilde Ribeiro -, assiste-se agora uma corrida frenética pela indicação de nomes para a Seppir. E o mais incrível é que lideranças de peso começam a se envolver em um debate sem pé nem cabeça, ignorando – ou fingindo ignorar – que, esta democracia virtual ensaiada não pode levar pessoas sérias a esquecerem que, ao final, caberá ao conglomerado partidário, liderado pelo PT, escolher o nome que esteja disposto a assumir o papel de símbolo, com as vantagens inerentes (e custos idem) a essa função. Aliás, uma Secretaria com o orçamento que tem a Seppir (minguados R$ 30 milhões/ano, segundo se sabe), o mais provável é que Lula mantenha no cargo o interino: o sociólogo Martvs Chagas, que é do PT. E é de Minas.