Os ataques racistas a jornalista Maria Júlia Coutinho, a garota do tempo do Jornal Nacional, da TV Globo, expõe com toda a nitidez, o “jeitinho brasileiro” de combate ao racismo. Ou de não combatê-lo, é mais apropriado dizer.

O racismo, costumo dizer, é como uma serpente muito venenosa, que vive no quarto de cada brasileiro, transita pela ante-sala, passeia debaixo das camas e, às vezes, até enrola-se nas cobertas. Enquanto não é tocada, permanece lá. Basta que um(a) negro(a) ocupe o espaço que não lhe está reservado pela tradição secular herdada do escravismo e pronto: o bote virá com certeza.

Os ataques a jornalista são o bote da serpente. Maria Júlia ocupou o espaço que a tradição reserva a brancos (as) bem nascidos. Onde já se viu uma negra se tornar a apresentadora da previsão do tempo do principal telejornal do país!!! Não pode: os racistas acham que é demais, ficam histéricos e atacam com seu repertório costumeiro.

As pessoas – não apenas, nós negros, mas também as de boa fé que se horrorizaram com os ataques sofridos pela jornalista – precisam entender essa lógica e saber identificar o “monstro”.

Construção sofisticada

Da mesma forma como o racismo brasileiro é uma construção extremamente sofisticada, que está enraizada na ideologia dominante, o “jeitinho brasileiro” de combatê-lo também o é. Na verdade, é a forma mais eficaz de naturalizá-lo.

Portanto, convém prestar atenção em que consiste e como se manifesta a complexa engenharia que, de quebra, ainda usa negros (de boa fé, diga-se) como símbolos.

Prá começar, convém lembrar que para o sistema racista, parte integrante do sistema capitalista – que é, pela própria natureza – baseado na exploração dos que não tem nada pelos que tem tudo, negros são apenas símbolos.

Não são pessoas de carne e osso, com virtudes e defeitos, problemas, valores, dificuldades, necessidades, que poderiam ser resumidas no gigantesco déficit de cidadania decorrente dos quase 400 anos de escravidão. Negros são  alegorias, ainda que estejamos em um país em que a nossa presença é majoritária.

Quando considerados na sua dimensão humana, no máximo, podem chegar a peças de reposição, portadores de deveres, nunca de direitos. Alguém dirá que isso é mania de perseguição, pura paranóia de negro vitimizado, e outras expressões costumeiramente usadas por algumas pessoas que, não sendo negras, nem tendo consciência da realidade do que é ser negro no Brasil, por óbvio, não sabem o que isso significa.

O humano simbólico

Os negros que aceitam essa posição de símbolos, mesmo sob o pretexto do combate ao racismo, são indispensáveis, fundamentais mesmo para a legitimação do “jeitinho brasileiro” de combatê-lo. Acabam, por inconsciência, ignorância e, ou oportunismo, servindo de contraponto necessário.

Notem como a jornalista Maria Júlia Coutinho, num passe de mágica virou “Maju” e assim passou a ser tratada pelo principal apresentador do Jornal Nacional, William Bonner. De repente, o Brasil passou a conhecer, em pleno horário nobre, não a competente jornalista Maria Júlia Coutinho, mas a “Maju”. Todos passamos a nos acostumar com aquela figura que – utilizada como símbolo – passou a compartilhar de uma inédita informalidade no clima grave do telejornal, tendo o próprio Bonner como interlocutor.

Eis aí o primeiro passo. Transforme a vítima em símbolo. Não se trata de uma pessoa real, com todos os defeitos e virtudes, mas a “Maju”, por quem as pessoas são convidadas a conceder uma certa dose de simpatia.

Essa é a clássica fórmula do racismo brasileiro de "mostrar escondendo e esconder mostrando". Para os que duvidam, remeto a pergunta: você se lembra de algum(a) outro(a) jornalista dos principais jornais, apresentados (as) dessa forma, com esse grau de intimidade? Me aponte uma, ou um que seja. Não há.

O segundo passo do “jeitinho” é conceder a vítima – quando alvo de hostilidades e até mesmo de agressões nas redes sociais, como foi o caso – a nossa imediata e automática “solidariedade”. A palavra mas adequada seria piedade cristã, o “bom mocismo” típico de um certo colega da grande mídia, que chegou a classificar em sua coluna a reação da jornalista como “histórica”.

Nada mais revelador do que o recado do Bonner e equipe do Jornal Nacional em vídeo que se tornou imediatamente viral no Youtube: “Somos todos Maju”.

A experiência mostra que quando todos somos alguma coisa, na prática, verdadeiramente, ninguém é; portanto, “somos todos Maju” também pode ser “Ninguém é Maju”. Ficamos por isso mesmo, elas por elas, encenação pura.

Ora, se isso acontece, com uma jornalista bem sucedida que está na bancada do principal telejornal do país, imagine o que não se passa com o negro comum, sem cidadania nem direitos (a maioria sem sequer consciência deles), que diariamente sofre a violência do racismo – um dos elementos estruturantes da desigualdade social – nas suas relações sociais, no local de trabalho, nas abordagens da Polícia.

O sistema e seu contraponto

O interessante é que não apenas as pessoas embarcam nesse senso comum que não quer dizer nada, como certa parcela de negros se compraz em fazê-lo, e aí está a sua contribuição a manutenção do sistema racista: o “jeitinho brasileiro” só funciona se, na oposição, houver negros fazendo o papel de combatê-lo de “mentirinha” – apenas simbólicamente, aceitando passivamente o papel de alegorias.

Quem tiver dúvidas, basta ver o número de entidades, órgãos criados pelo Estado, e de eventos promovidos por entidades e por empresas. É o que chamo de forma simbólica de combate ao racismo a atuar na mesma lógica que alimenta o sistema.

Por último, vale uma observação sobre o caso “Maju”. A própria jornalista caiu na cilada: primeiro, ao aceitar ser tratada com essa “intimidade”, o que é absolutamente incomum num jornal com o formato do Jornal Nacional. Aceitou o papel de símbolo, da negra que se “mostra” no principal telejornal (a exemplo do que aconteceu em passado recente com o também jornalista Heraldo Pereira), para que a emissora continue escondendo a realidade em que vive a maioria dos negros brasileiros – 50,7% da população, de acordo com o Censo do IBGE 2010 – ausentes, como regra, dos seus quadros e dos seus programas.

Depois, ao tratar as agressões como “manifestações de preconceitos”, ao dizer que “já lida com essa questão do preconceito desde que se entende por gente” e que “os preconceituosos ladram, mas a caravana passa”.

Estratégia global

O discurso se encaixa direitinho na estratégia global e do “jeitinho brasileiro” de combate ao racismo porque confunde coisas absolutamente distintas: preconceito é uma coisa, discriminação e racismo é outra. Ela quis dizer que “por ser negra” sofre racismo desde que se entende por gente”, ao contrário do que disse, porque não poderia afirmar no JN ser alvo de “racismo”.

Não custa lembrar que, em 2006, o diretor geral de Jornalismo da emissora, Ali Kamel, deu-se ao trabalho de lançar o livro “Não somos Racistas”, imediatamente transformado em um libelo contra a política de cotas, adotas pelas principais universidades do país. Dizia Kamel que não éramos racistas, mas podíamos vir a ser, caso as cotas fossem adotadas. Estará o chefe da Maria Júlia, acreditando que suas piores previsões se confirmaram?

Ao misturar as bolas, a jornalista reforça o senso comum que mais confunde que esclarece. Preconceitos, todos nós humanos, temos; discriminação (gênero) e racismo (espécie) é outra coisa: numa sociedade racista como a nossa, se aprende e se pratica.  

Metástase

Depois, ao dizer que os “preconceituosos”/racistas são uma minoria, erra mais uma vez. O racismo no Brasil não é produto de um grupo minoritário, é senso comum que contamina a sociedade como um todo, embora apenas um grupo pequeno se assuma racista, como os que postaram comentários ofensivos nas redes sociais. Ainda assim, todos protegidos pelo anonimato. Sabe-se que é da natureza do racismo, no Brasil, apresentar-se na sua modalidade dissimulada, camuflada, hipócrita.

A forma de não cair nesse jeitinho ‘fofo” de combate ao racismo, assumido agora até pela Globo, como diria o meu colega jornalista Rosenildo Gomes Ferreira, é também não cair na cilada desse antirracismo de boutique, simbólico, de eventos.

Ao fim e ao cabo desse novo modismo e dessa peça da ideologia, o resultado obtido, já se sabe. Passa-se a ideia de que: a) o racismo no Brasil é uma exceção, coisa de uma minoria de gente perversa, de meia dúzia tarados adeptos da supremacia branca.

Como todos sabemos, isso é falso. A patologia, como um câncer, já se espalhou, contaminou todo o corpo social. Há muito tempo está em metástase; b) As Leis a serem aplicadas pelo Estado são suficientes como ingenuamente reforçou Maria Júlia no seu comentário no JN. (“Acho importante essas medidas legais serem tomadas, até para evitar novos ataques a mim e a outras pessoas. Isso é muito importante”).

A realidade é bem outra, querida Maria Júlia. O Estado brasileiro é um dos responsáveis pela herança maldita gerada por quase 400 anos de escravidão e, a exemplo das demais instituições, a reproduz: pratica racismo institucional.

Isso não quer dizer que não se deva fazer a denúncia e buscar amparo nas Leis, usando-se o aparato jurídico disponível. Porém, é ingênuo achar que basta. Ao contrário, a realidade é que em 66,9% de todos os casos de racismo e injúria racial que chegam ao Judiciário brasileiro são os réus que acabam ganhando, de acordo com dados coletados pelo professor Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Não custa lembrar o caso do vigilante da USP, Januário Alves de Santana, alvo de tortura praticada por seguranças num supermercado de S. Paulo, todos eles absolvidos pela Justiça da 2ª Vara Criminal de Osasco. O caso ainda será apreciado pelo Tribunal de Justiça de S. Paulo, graças a recurso do advogado assistente de acusação e do Ministério Público, onde se espera que se modifique a absurda decisão de primeira instância.

Por fim, já está mais do que na hora do ativismo antirracista entender a cilada e adotar estratégias de combate ao racismo que não sirvam de contraponto ao “jeitinho brasileiro”. O racismo no Brasil é sofisticado. A forma de combatê-lo também requer um mínimo de sofisticação e preparo. Não basta o alarido dos modismos nas redes sociais.

Deveríamos todos, isto sim, acompanhar com atenção as providências adotadas pelo Ministério Público de S. Paulo, por intermédio do promotor Christiano Jorge Santos, no sentido de buscar a identificação e a punição dos agressores e processá-los na forma da Lei; e cobrar da Rede Globo que capacite os seus próprios profissionais para que, na cobertura diária aprendam a não naturalizar o “monstro” e se acostumem a retratar o outro lado: o lado dos que são a imensa maioria do país, preta e pobre, e que só aparecem com destaque quando são personagens de tragédias. Ou como personagens do mundo do crime nos camburões da Polícia.

 

Dojival Vieira