Preliminarmente, nunca é demais afirmar que estes espaços estão muito aquém do que somos e do que representamos. Para cada Hédio que ocupa um posto estratégico como a Secretaria de Justiça do principal Estado da Federação, há dezenas de lideranças, para quem é reservada a invisibilidade ou o papel subalterno, de símbolo – estratégia sempre usada pelos defensores do mito/mentira da democracia racial para jogar para debaixo do tapete uma questão sempre adiada: a presença negra em todas as áreas, posto que, somos metade do país.
A presença do doutor Hédio à frente da Secretaria, representou o rompimento com uma tradição que vinha desde os tempos da Colônia: quase sempre os escolhidos para ocupar postos importantes no Estado, ou eram personalidades sem quaisquer vínculos ou ligações com a luta pela igualdade, totalmente cooptadas pelos esquemas de Poder, ou a elas se reservava às áreas da cultura ou do esporte, espaços onde nossa presença já está conquistada e consolidada.
Ter um negro ocupando a Secretaria mais importante de um Estado que é a locomotiva do país e, mais do que isso, um negro da estatura e com as qualificações e história de um Hédio Silva Jr., é uma conquista fundamental na luta contra a discriminação e o racismo.
Milhares de jovens acostumados com os estereótipos que sempre associaram o negro à condição de homem ou de mulher escravizados – reproduzidos inclusive nos bancos escolares – passaram a ter uma outra visão da nossa presença na sociedade.
Sabem que nós também somos hábeis e capazes para exercer qualquer cargo, qualquer função com competência e zelo e não apenas servimos como adereços nos espaços do Estado.
Hédio, como todos nós, sonha e luta por um país em que homens e mulheres não sejam julgados pela cor da sua pele, mas sim pelo seu caráter, como bem dizia, Martin Luther King, ao abordar a segregação da população negra norte-americana.
Sua saída da Secretaria de Justiça, contudo, não pode significar para a população negra a perda de um espaço fundamental. Mesmo sabendo-se que são cargos de confiança, é necessário que nossas lideranças maiores façam chegar ao vice-governador Cláudio Lembro, que assume o comando do Estado com o afastamento do governador Geraldo Alckmin para disputar a Presidência da República, a posição de milhões de negros e negras paulistas: queremos que a Secretaria de Justiça seja ocupada por um homem ou uma mulher negros e queremos a ampliação da nossa participação nos espaços do Estado.
Três nomes são cogitados para o posto: a professora Eunice Prudente, ex-presidente do IPREM e atual diretora Executiva do Procon; o Erickson Gavazza Marques, brilhante e ilustre advogado, sócio de uma das mais prestigiadas bancas do Estado; e o presidente da Comissão do Negro e Assuntos Anti-Discriminatórios (CONAD), Marco Antonio Zito Alvarenga, cujo nome compôs a lista tríplice encaminhada ao Presidente Lula para ocupar a vaga de desembargador ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região.
Os três são muito qualificados para ocupar o posto. Todos têm uma enorme folha de serviços prestados à comunidade, ao Estado e ao país.
Eunice Prudente, representando as Mulheres Negras, cuja história é indissociável dos avanços por um país com igualdade racial; o doutor Zito Alvarenga, à frente da CONAD, deu visibilidade à Comissão da Ordem dos Advogados de S. Paulo e revelou-se um valioso articulador ao conseguir aglutinar lideranças representativas de segmentos discriminados da sociedade – como judeus, armênios, latinos, ciganos, etc – no Movimento Nacional pelo Respeito e Valorização da Diversidade, recém lançado em ato na Assembléia Legislativa. E o doutor Gavazza, representando a força da juventude negra e os compromissos com o futuro. Mesmo jovem, Gavazza, tem se destacado nos fóruns e tribunais pela dedicação e pelo zelo no exercício da advocacia.
Tanto quanto o doutor Hédio que sai, os três nomes cogitados são quadros importantes da Ordem dos Advogados de S. Paulo, que se destacaram na gestão do doutor Luiz Flávio Borges D’Urso, o que evidencia o prestígio crescente da Ordem no cenário da política paulista.
Mais importante do que a defesa de um ou de outro nome, contudo, é afirmar para os governantes que assumirão o Estado, que a comunidade negra paulista quer a manutenção da Secretaria em mãos de um dos seus representantes. Mais do que isso: quer ampliar essa representação para que as instituições do Poder Público não continuem a repetir o racismo institucional, que tem sido um dos mais resistentes inimigos do avanço do Brasil para a condição de país em que se respeitam e valorizam as diferenças e se defende a igualdade.