A convite da Afropress venho tecer aqui as razões de minha profissão de fé no advento de uma era “pós-racial” anunciada pela trajetória, campanha, mensagens e eleição de Barack Obama à Presidência dos EUA. Diante de tantas manifestações saudando Obama, o faço mesclando esperança e sonho.
O sonho tem por fulcro as palavras do derrotado Senador McCain saudando a eleição de Obama, parafraseou Ortega y Gasset e pregou a união e apoio de todos americanos ao presidente eleito dizendo: “a nossa geração tem o dever de entregar a nossos filhos um mundo melhor”.
O faço na condição de ativista contra o racismo e por direitos humanos. O faço trazendo na memória um já lendário congresso nacional de negros pela constituinte, em 1986, em Brasília, vi nestes anos, o movimento negro atuado para a alteração das relações humanas no Brasil, especialmente visando combater o racismo através da destruição da crença em “raças” a fim da consolidação no povo do conceito universal da única espécie humana visando à entrega a nossos filhos de um mundo melhor e livre da praga do racismo.
O faço, constatando que nos últimos anos, setores importantes do MN se deixaram seduzir ao apelo fácil – perdoem-me por não dizer demagógico – de políticas públicas em bases raciais, cotas coercitivas impostas pelo Estado, enfim, as equivocadas políticas especiais com critérios raciais, o que produziu divisão no movimento, imobilizando os avanços.
Vi muitos militantes, ao contrário de Obama, a despeito de bem intencionados, sucumbirem ao aceitamento do racialismo como se imutável condição humana, pregando a desconsideração da possibilidade pós-racial que se nos apresenta pela eleição nos EUA, o que deixa de ser miragem para ser viável, o profético sonho do Doutor Martin Luther King, pelo qual pagou com a vida: I have a Dream – Eu tenho um sonho.
Embalado pela crença na humanidade, King proferiu o discurso em 1963. Mais que um discurso, cantava em ritmo Black louvando um futuro pós-racial. “…Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado dos seus princípios: “Achamos que estas verdades são evidentes por elas mesmas, que todos os homens são criados iguais… Eu tenho um sonho de que, um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos de antigos escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade; eu tenho um sonho de que os meus quatro filhinhos, um dia, viverão numa Nação onde não serão julgados pela cor da sua pele e sim pelo conteúdo do seu caráter. Quando deixarmos soar a liberdade, quando a deixarmos soar em cada povoação e em cada lugarejo, em cada estado e em cada cidade, poderemos acelerar o advento daquele dia em que todos os filhos de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e cristãos, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar com as palavras do antigo spiritual Black: Livres, enfim. Agradecemos a Deus, todo-poderoso, somos livres, enfim”. Para o Doutor King não havia “raças” só havia a humanidade.
Diante da descrença nesse sonho, King dizia: “não desistamos. Vamos resistir. Não vai demorar muito. Nenhuma mentira dura para sempre.”
No início da campanha de 2008, os adversários alardeavam que o racismo americano impediria a vitória daquele desconhecido, culto e elegante afro-americano. Diziam que os eleitores brancos, em esmagadora maioria, o rejeitariam. Pensavam que Obama apresentar-se-ia com alguma afirmação racial na defesa de um programa de governo de afro-americanos.
Eles desconheciam que Obama prosseguiria a marcha falando aos corações humanos dos EUA e do mundo e que as mensagens que deram o norte da campanha: “Change – Yes We Can” (Mudar – Sim, nós podemos) e “One World, One Dream” (Um Mundo, Um Sonho) seriam tão bem compreendidas e apoiadas por uma nova geração que espera uma América e um mundo mais humano, o sonho de um mundo proposto por Obama: 66% dos que têm de 18 e 29 anos; 52% dos que tinham entre 30 e 44 e 96% dos afro-americanos confiaram no discurso da “audácia de ter esperança no poder de mudanças”; 46% do eleitorado branco, também. Na Alemanha, na Índia, no Brasil, na África enfim, o mundo inteiro passou a viver o sonho de King.
Posto isso preciso reafirmar: acredito que Obama representa um futuro “pós-racial”. Essa eleição não foi qualquer coisa. Um feito impensável apenas dois anos atrás não se efetivou apenas pela conjuntura econômica. Ela traz uma simbologia que levará algumas décadas para ficar perceptível. Ouso compará-la a outros feitos extraordinários ainda recentes.
Nos anos 1980 emergiram no Brasil e na Polônia, duas lideranças sindicais. Lech Walesa e Lula. Desafiavam ditaduras militares. Lula enfrenta um regime apoiado pelos EUA. Walesa, enfrenta o Partido Comunista e a cortina de ferro sob o império russo. Eles pregavam o direito de trabalhadores e lutavam por liberdades democráticas. Walesa, Prêmio Nobel da Paz, em 1983, chegou a Presidente da República (1990) pelo voto popular. Lula foi eleito em 2002.
Ambos trilhavam então uma impensável Era Pós-Comunismo que resultou na derrubada do muro de Berlim (1989) e Pós-Guerra Fria com o desmanche da União Soviética (1991). Após Lula, todos os países vizinhos elegeram uma nova elite política.
Com Obama não será diferente. A improbabilidade de sua eleição é a mesma que se pensasse no fim da URSS em 1980. Por isso que sua eleição é saudada no mundo inteiro e nos permite sonhar mais ainda que o sonho do Dr. King. Falo agora de novos sonhos.
Imaginemos que em meados de 2009, o Presidente dos EUA, a bordo do Air Force One (o avião oficial do Presidente) faz uma de suas primeiras visitas oficiais, de surpresa, desembarcando em Havana, em visita protocolar ao velho líder adoentado e carcomido pela longevidade e anuncia ao mundo, o fim dos embargos econômicos, a desativação da base-prisão de Guantánamo e, ao lado da cama de Fidel, reúne-se com Lula, Chávez, Evo, Aristide, Cristina, Calderón, Uribe, Michelle. E para ouvirem ao discurso do irmão-Presidente Raul Castro, em praça pública de Havana, que anuncia ao mundo, o término de mais uma fase revolucionária cubana com o fim do regime de partido único e que a emenda havia sido debatida pela Assembléia Nacional de Cuba e aprovada por voto aberto depois da leitura de uma mensagem de três horas do ex-presidente Fidel Castro que, doente, não pode comparecer.
A emenda à constituição aprovou também a anistia política, ampla, geral e irrestrita e que, àquela hora, já estavam livres todos os presos políticos e restabelecidas todas as garantias democráticas, os direitos individuais e garantida a livre expressão do pensamento, sendo ovacionado, a cada minuto, numa grandiosa festa popular cubana. A Assembléia cubana declarava que a partir daquele dia Cuba e Estados Unidos seriam nações irmãs e parceiras e que todos os cubanos residentes nos Estados Unidos seriam bem-vindos à Ilha e livres para investirem seus dólares.
Jornalistas do mundo inteiro, ao vivo, quetionam: Porque o gesto espetacular do Presidente Obama exatamente em Cuba? E o Presidente elucida: é por que nós mudamos! É o reconhecimento que nós – inspiradores dos ideais da igualdade – devemos agora ao regime cubano por haver proporcionado aos afro-cubanos o melhor bem estar social, condições de saúde, trabalho, habitação e educação, consubstanciando, no melhor índice médio de IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – desfrutado por africanos ou afrodescendentes, em todo o mundo.
E mais declara o Presidente Barack Obama: “Viemos restabelecer com Cuba e com os latinos americanos, nossos vizinhos, uma relação de fraterna convivência e amizade com o apoio do povo dos Estados Unidos, pois, a despeito de nossas divergências políticas e institucionais temos o dever de reconhecer que Cuba, desde a revolução de 1.959, sempre foi exemplo de solidariedade. A ajuda humanitária que prestou e presta a outros países nas áreas de saúde, educação, programas de cooperação energética e esporte, segue a linha heróica cubana de José MartiI: Pátria é Humanidade. Pátria e humanidade se juntaram inseparavelmente, pela história e para sempre, na mente e no coração do povo cubano. E que Pátria mais humana e solidária do que tem sido Cuba!”
E ainda, prossegue o jovem Presidente: “Nós, que ora representamos a audácia da esperança e tivemos a ousadia de dar voz ao sonho do povo dos Estados Unidos: “yes, we can change!” (Sim, nós podemos mudar!) em nome das tradições igualitárias que iluminaram e estimularam a nossa democracia e que apoiaram essa mensagem, viemos retirar Cuba do isolamento político e econômico para que, doravante, com o nosso apoio e reconhecimento perante o mundo possa ampliar ainda mais a sua vocação para ações humanitárias.
Nós, perante o mundo, queremos reconhecer e homenagear os jovens cubanos que doaram suas vidas em nome de um ideal, e dizer-lhes, como diria o El Comandante Fidel: ´que foram generosos e nobres combatentes nas planícies, montanhas e povoados de qualquer canto da pequena pátria ou noutras terra do mundo que reclamavam o concurso de seus esforços, em longínquos cantos da pátria grande sonhada por José Martí, não foi nem será em vão, pois representaram a luta pela humanidade que hoje reverenciamos.
Percebendo o silêncio pasmo dos jornalistas e que o mundo o ouve atentamente, Obama, prossegue: “Sim, senhoras e senhores, nós mudamos!
Cubanos e americanos mudamos. Em todo o mundo, a postura política está mudando! A eleição nos Estados Unidos significa que o mundo está mudando! Por isso, e para comprovar de vez, viemos dizer ao comandante Fidel, que felizmente tem saúde para ouvir de um Presidente dos Estados Unidos da América que, em troca da mais ampla liberdade política e prosperidade econômica em Cuba, lhes oferecemos o respeito institucional.
Viemos dizer que o Estado Unido, doravante, respeitará inteiramente as deliberações democráticas do povo cubano. Em troca da vocação humanitária dos cubanos lhes oferecemos o final dos embargos econômicos e vamos estimular os investimentos necessários para a vitalidade econômica deste país-irmão. Em nome de sonhos sonhados, convido a todos os líderes de todas as nações do mundo para que nos próximos dez anos o mundo conheça uma nova realidade humana, social e cívica.
Viemos dizer ao velho guerrilheiro que embalou sonhos humanitários de nossa juventude, que, doravante nem o povo cubano, nem o povo do Haiti, de Ruanda, do Quênia, da Colômbia, do Congo, da Bolívia, do Afeganistão, do Iraque, da Palestina, de Israel, do Irã ou do Paquistão, jamais precisem investir tantos recursos econômicos na defesa nacional pois já não existirá mais a duradoura ameaça americana: já não consideramos Cuba, Palestina ou a Líbia, nossas inimigas a serem derrotadas! Nós já não temos adversários a serem destruídos. Teremos, doravante, nações que precisam de apoio, de solidariedade e de fraternidade. Temos uma só condição já amplamente comprovada pelos cubanos: basta que queiram serem amigos da humanidade.
E mais, acrescenta o Presidente: “reconhecemos que com poucas centenas de milhões de dólares, que os países mais ricos poderão dispor, muito menos que dez por cento dos gastos que o mundo tem feito para socorrer o sistema financeiro, com a ajuda e a experiência cubana, acabaremos com as doenças endêmicas tropicais na América latina e na África.
Reconhecemos ainda que com menos dinheiro, Cuba e os demais vizinhos promoverão a paz e a contribuirão para a prosperidade no Haiti, em Ruanda, no Quênia ou na África do Sul, onde quer que exista flagelo, doenças, fome, os povos do mundo estarão lá, solidários e fraternos.
Reconhecemos que com um fundo de apenas 0,1% sobre as transações financeiras internacionais, em apenas dez anos, constituiremos um fundo bilionário e suficiente para investimentos em reparação histórica aos países africanos que durante quatro séculos tiveram seus filhos seqüestrados, suas terras ocupadas e suas riquezas naturais expropriadas, em razão disso, convocamos os países ricos a se somarem conosco nesse empreendimento a reparação histórica aos povos africanos.
Reconhecemos, por fim, entre tantas ações humanitárias, que o método cubano de alfabetização de jovens e adultos “Yo sí, puedo!” (Sim, eu posso!), elaborado pelo Instituto Pedagógico Latino-americano y Caribeño (Iplac) com a finalidade de erradicar o analfabetismo premiado pela Unesco, seja levado a todos os cantos do mundo. Esse será um programa em prol da erradicação do analfabetismo e deve ser universalizado para que não exista mais nenhuma pessoa que não saiba ler e escrever.
Reconhecemos a sabedoria das lições do educador José Martí que nos legou: “A educação precisa ir aonde vai a vida. É insensato que a educação ocupe o único tempo de preparação que tem o homem em não prepará-lo. A educação precisa dar os meios de resolver os problemas que a vida venha a apresentar. Os grandes problemas humanos são: a conservação da existência e a conquista dos meios de fazê-la grata e pacífica.´
Por essas razões estamos em Cuba e nos comprometemos com os ideais de José Martí para com La Patria Grande e que as pessoas de todo o mundo que ainda vivam na escuridão das letras, dos números e dos cálculos, merecem receber e acreditar nessa mensagem: “Yo si, puedo!”, conclui emocionado, abraçado a Michelle e a Fidel.
Se descrevo essa possibilidade potencializada ao máximo, não é simples e completo delírio alucinante. É apenas um novo capítulo do sonho profético de Luther King. Agora, é a possibilidade, impensável, de uma era nova para a humanidade: a era Pós-Racial, Pós-Guerra Fria, Pós-Imperialismo e Pós-Unilateralismo, em que todos os governantes e todos os agentes sociais estarão compelidos pela voz majoritária dos povos a agirem com fraternidade e solidariedade.
Essa é a era que vivemos, é o início da era humana jamais consagrada na história da humanidade. Yes, nós podemos sonhar e queremos mudanças para viver numa humanidade despida de opressão baseada em crenças raciais, sem violência, somente com amor. Afinal, diz Ortega y Gasset, “a geração atual deve ser esforçar para entregar às futuras um ambiente social melhor”. Viva José Martí! Viva Gandhi! Viva King! Viva Mandela, Viva Obama! E para sempre, viva em paz, a humanidade!

José Roberto F. Militão