Já chorei pra caramba. Sabia que ele ia ganhar – de quinta pra sexta, no meio da noite, acordei literalmente com um sinal piscando com o nome dele, cheio de luzes, e entendi que era a confirmação.
Ainda assim, quando eles anunciaram que ele já tinha ganhado, chorei muito. Não tanto por ele, mas pelos milhares de afro-americanos que foram mortos porque ousaram votar, até 43 anos atrás. Ontem mesmo passei um vídeo pra minha turma sobre a segregação racial no começo do século XX.
OS negros eram linchados simplesmente porque os brancos estavam a fim. Os bairros negros eram atacados-inclusive aqui em Nova Iorque-porque os brancos resolviam que eles tinham que “colocar os negros no seu lugar”. Os negros eram presos sem motivo e condenados a sentenças absurdas porque os estados sulistas queriam trabalho grátis após a abolição da escravatura. Os condenados morriam de torturas, de gangrena, de malária, de escorbuto, de desnutrição. Eram acorrentados uns aos outros e também neles mesmos, as mãos e os tornozelos presos quais os de um porco prestes a ser abatido.
Tudo isso vinha à minha cabeça enquanto assistia à vitória histórica do Obama, um cara que, ironicamente, não exatamente compartilha de um histórico de segregação neste país porque o pai dele era queniano e a mãe, branca. E continuo chorando. Tantos morreram, tantos foram humilhados para chegarmos até aqui. Quantos perderam seus negócios, sua honra, sua esperança, sua vida, para chegarmos até aqui?
Pela TV eu vejo negros chorando, eu vejo brancos chorando, eu vejo todo mundo rindo, eu vejo as filhas lindinhas da nova “Primeira Família” e eu fico embasbacada com a mudança social que se desenrola à minha frente.
Eu não paro de chorar, porque eu sou negra antes de ser mulher, porque somos brasileiras por uma mera coincidência, porque os navios negreiros largaram nossos antepassados aí em vez de aqui. Dilma, se lembra que você falou que todo negro nas Américas vem de gente muito forte, porque a passagem da África pras Américas deve ter sido inimaginavelmente horrível?
Penso nos nossos avós e as humilhações pelas quais devem ter passado e pelo esforço que deve ter sido criar famílias quando não se esperava nada de bom deles. Eles não viveram pra ver hoje, mas nós sim. Somos todos fortes hoje com a vitória de um negro que vai comandar o país mais absurdamente racista da modernidade. E as almas de todos os negros acorrentados, amordaçados, admoestados ao longo dos séculos têm um pouco de paz hoje.
Beijos,
Vânia

Vânia Penha-Lopes