Washington/EUA – No dia dedicado a lembrar o Movimento dos Direitos Civis e a memória do reverendo Martin Luther King, seu principal líder – o Martin Luther King Day, feriado nacional americano – o presidente Barack Obama, o primeiro negro a chegar a Casa Branca, faz juramento público logo mais à tarde, tornando-se Presidente da maior potência militar do planeta por mais quatro anos.

O juramento reservado já foi feito ontem, no Salão Azul da Casa Branca, cumprindo a tradição americana dos presidentes tomarem posse sempre no dia 20 de janeiro. Na presença da mulher, Michelle e das filhas, Dalia, 14 anos, Sasha, de 11.

"Eu, Barack Hussein Obama, juro solenemente que cumprirei fielmente as funções de presidente dos Estados Unidos, e que farei tudo em meu poder para preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos", disse Obama, com a mão esquerda sobre a Bíblia, diante do juiz da Suprema Corte, John Roberts, numa cerimônia de menos de um minuto.

Na cerimônia desta tarde (21/01), o juramento será repetido, desta vez, sobre duas Bíblias: uma usada na cerimônia de posse de Abraham Lincoln, e a outra que pertenceu a Luther King.

Milhares de pessoas (de 800 mil a 1 milhão) deverão acompanhar a cerimônia, mas esse número é bem menor – o mesmo acontecendo com o entusiasmo – das cerca de 1,8 milhões que estiveram na cerimônia de posse em 2.009.

Afropress procurou lideranças, personalidades e ativistas negros no Brasil e pediu que respondessem a pergunta: “O que mudou para os negros no mundo, com Barack Obama na presidência dos EUA”. As respostas variam do otimismo que ressalta o efeito simbólico que é ter um negro dirigindo a Nação mais poderosa da terra, ao ceticismo dos que consideram que as realizações ficaram aquém das expectativas geradas.

Também pedimos ao correspondente em Nova York, Edson Cadette, que estará na posse, um balanço, que pode ser lido na sessão de Colunistas. Veja os depoimentos:

Elisa Lucas Rodrigues – Coordenadora de Políticas para as Populações Negra e Indígena da Secretaria da Justiça de S. Paulo.

A eleição e reeleição de Barack Obama significa um divisor de águas para a situação de negros de todo o planeta. A reeleição parecia estar distante. Foi uma campanha dura. Diferentemente dos seus antecessores sua plataforma foi a questão social. Dois fatores entre vários destacaram-se: a presença da juventude (acima de 16 anos) e a participação da populaçãp latino americana.

Obama mostrou uma Nação diferente da terra da prosperidade tão cantada nos séculos IX e XX. No século XXI os EUA são um país como outro qualquer. A questão é interna como de qualquer outro país. O desemprego cresce galopante. Porém a determinação desse homem, apoiado pela brilhante Michele faz com que ele despertasse a atenção de todos.

Especialmente para os negros do Brasil ele toca num ponto especial: auto-estima e crença de que realmente podemos. Para nós, que representamos metade da população deste país, fica o exemplo de que unidos poderemos também eleger, quem sabe em breve, políticos negros comprometidos com essa questão.

Maurício Pestana – Cartunista, publicitário, diretor executivo da Revista Raça Brasil

Num período tão conturbado pelo qual passa a humanidade, com crises econômica na Europa e no resto do mundo, crise de valores por conta também da alta alta exposição de tudo e de todos, a recondução do primeiro presidente negro da maior potencia mundial é, no minimo, um dos fatos mais marcantes da história contemporânea da humanidade, que deve ser festejado e encarado com otimismo numa única frase: nem tudo está perdido, a humanidade ainda tem jeito

 

 

Marco Antonio Zito Alvarenga – Presidente do Conselho Estadual da Comunidade Negra de S. Paulo

A posse de Barack Obama como Presidente dos Estados Unidos das Américas, em seu segundo mandato representa a vitória da Diversidade e aumento da Esperança de um povo na reforma voltada para tornar um país menos injusto, menos intolerante e igual para todos em seu território e desta forma universalizar as oportunidades.

O entendimento exposto tem como base o seu compromisso de campanha e que passou a ser programa de Governo visando diminuir o abismo social existente  no pais, líder mundialmente como a maior potencia  do planeta, mas sem ver os seus problemas internos.

É certo ser a posse do presidente americano e implementação de seu programa de Governo um exemplo a ser seguido na  escalada brasileira em adentrar ao rol das grandes potencias e, para tanto, a democratização das oportunidades  internamente para reparar os erros históricos motivadores da constituição de uma elite detentora do poder, tanto na área privada como na pública.

O quadro social no Brasil não expõe o protagonista de nossa participação na construção deste país, excluindo a população negra, de índios, brancos e demais etnias coradas pela pobreza.

Concluindo, destacamos o fato de estar distante a possibilidade de um negro ocupar o cargo de Presidente da República, uma vez que, ainda não conseguimos sequer ocupar cargos de destaques no Executivo, Legislativo e Judiciário, tando no âmbito Federal, quanto no Estadual e Municipal e até mesmo junto ao setor privado, que dirá o de Presidente do Brasil. Mas, nem tudo esta perdido, por termos esperança, por estamos trabalhando, por um futuro moldado pela Igualdade Racial.

Vera Daisy Barcellos – Jornalista gaúcha e militante do Movimento feminista e de mulheres negras

A presença pela segunda vez consecutiva de Barack Obama no comando de uma das maiores nações do mundo tem um sentido muito forte e uma representatividade ampla e expressiva, independente de qualquer ideologia.

Significa, em minha opinião, principalmente para a população negra brasileira, alijada, em sua maioria, dos espaços de poder, se enxergar num espelho e refletir que é possível, sim, a mudança. Sei que são realidades diferentes, lá e cá.

Sei, também, que a reeleição de Barack Obama é resultado, principalmente, dos anseios de segmentos sociais norte-americanos – negros, latinos, mulheres e jovens – que apostam em Obama a concretização de uma agenda social mais progressista e capaz de ofertar transformações.

Mas, quando vejo na web, um “post compartilhado” de uma adolescente negra de 13 anos, moradora em uma das comunidades mais vulneráveis de Porto Alegre/RS, comentando sobre a foto de Mr. Obama mostrando um CD da cantora Beyoncé e escrevendo que “Tio Obama mandou ver”, eu tenho a convicção, sem me dedicar a uma análise aprofundada, que a presença de um negro na grande Casa Branca mexe com o imaginário social, sim!

Antonio Spirito Santo – Músico e arte-educador da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)

 

Mais que simbólicas, as eleições de Obama como presidente dos EUA representaram a quebra de um paradigma, a ultrapassagem da última muralha rumo a abolição final da escravatura que, perpetuada em colonialismos, espalhou africanos numa diáspora imensa que se espraiou como água por todo o planeta.

No bojo da contradição de ser o governante da maior potência capitalista do planeta, Obama representa em si mesmo – mais do que o salvador da pátria negra do mundo, mais do que o messias da improvável África mítica de alguns – o exemplo candente de que somos, igualmente capazes de alcançar a liberdade por nós mesmos.

 

Reginaldo Bispo – Coordenador de Organização do Movimento Negro Unificado (MNU)

Exceto por uma melhora na auto-estima, não vejo mais nada. Na política, na economia, para a África, para os africanos, para os negros americanos, não vejo nada.

Não desativou a prisão de Guantánamo, não melhorou o emprego para os negros americanos, aumentaram as prisões e a pobreza entre eles. Para piorar, mantém a mesma postura agressora e militar em relação ao resto do mundo.

Finalmente, não perdoou nenhum preso politico da luta pelos direitos civis dos anos 60. São dezenas de Panteras negras presos, sem crime provado. Se fosse americano, votava nulo, como votei aqui. A aliança incondicional com Israel, ameaça o mundo de uma guerra com o Irã e o mundo árabe.

José Mário Soares, Capitão Marinho – Advogado baiano e oficial do Exército Brasileiro

A reeleição do Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, representa mais uma dose de auto-estima em toda comunidade negra mundial. Depois de séculos de escravidão, hoje, em pleno mundo globalizado, a população do planeta está podendo presenciar que o cargo que dita quem é a pessoa mais poderosa do mundo será ocupado, pela segunda vez seguida, por um negro.

A competência do Presidente Barack Obama, sua plena compreensão do que representa simbolicamente para o combate à discriminação racial e a sua importância para o enaltecimento dos valores de todos africanos e descendentes fazem com que tenhamos cada dia mais orgulho de sermos negros. Parabéns Presidente e muito obrigado por nos mostrar que: “sim, nós podemos!”

 

Da Redacao