A republicação na Afropress do artigo ''O lugar de Eusébio'', originalmente publicado no jornal luso 'Público', foi um dos melhores contributos oferecidos aos amigos, conhecidos, admiradores e curiosos que desconheciam o outro lado da história da vida do agora saudoso e imortal futebolista afro-lusitano que nos deixou. 



Lembro-me de que me tornei benfiquista ainda na minha infância justamente por causa de Eusébio. Ele foi imenso dentro e fora das quatro linhas, imensamente maior do que a exploração que sofreu do próprio clube, o Sport Lisboa e Benfica, e do fascista Estado Novo de Salazar.



Maior do que a exploração que sofreu do próprio emblema porque retribuiu-o com muitos títulos e alegrias temperados com muito suor, sangue e lágrimas como nenhum outro e com uma gratidão reveladas por um amor e dedicação impressionantes, felizmente ainda reconhecida em sua vida através de uma estátua que o eterniza, honra e glorifica, logo na entrada do Estádio da Luz, em Lisboa, palco da sua felicidade e da de milhões de adeptos benquistas e do futebol em geral.



Muito maior do que a exploração e a utilização política da sua imagem pelo fascismo salazarista porque granjeou uma invejável admiração por esse mundo fora, coisa que o Estado Novo não tinha, como futebolista, estrela anti-vedete e ser humano campeão da simplicidade. No decurso das décadas de 60/70, Portugal, no seu melhor, foi quase só Eusébio.



Foi vítima de comentários racistas que, segundo ele, aconteciam em quase todos os jogos mas não ligava para não se enervar e desconcentrar porque o que queria era jogar bola. Acabou goleando os fascistas e racistas com a sua grandeza como futebolista, aliada a uma impressionante simplicidade como ser humano que fizeram dele um autêntico King, como os portugueses e os afro-lusófonos, em geral, carinhosamente o tratavam.

Tornou-se, por mérito próprio, o grande embaixador do Benfica, do futebol e mesmo do Estado português. Os racistas nunca conseguiram fazer de Eusébio um racista. Pelo contrário, ele humanizou-os e civilizou-os ao fazê-los, no mínimo, sentirem orgulho de serem portugueses e apresentarem-no orgulhosamente ao mundo como um português.



Aliás, o King sempre manifestou ser profundamente português. Amava Portugal de uma forma tão visívelmente sincera e honesta de fazer inveja aos muitos dos que se reclamam portugueses de gema.  Mas, paralelamente, jamais esqueceu a sua condição de africano. Visitava frequentemente o seu Moçambique natal e também Angola, terra de onde era natural o pai, branco de origem portuguesa. Foi o maior futebolista português e foi igualmente o maior futebolista africano, detalhe que muitos desconhecem ou fingem desconhecer. Se Portugal celebra de forma muito justa e emocionada a partida física de Eusébio, a África também.



Convém todavia recordar que essa celebração merecida que se faz ao Eusébio da Silva Ferreira por terras lusas tem também algumas dimensões terríveis. Sobretudo pelo modo como se procura apagar o passado colonial e pelo facto de, em Portugal, as questões raciais parecem não existir para a mídia, como lembrou muito bem o antropólogo Nuno Domingos, autor do excelente artigo acima referido, num email pessoal a mim dirigido e que tomo a liberdade de tornar público pela sua pertinência.



Uma omissão frequentemente lembrada pela professora Inocência Mata, da Faculdade de Letras da Universidade Lisboa e colaboradora da Afropress, que num artigo aqui recentemente publicado com o titulo ''A invisível presença do Outro na classe política portuguesa'', expôs a forma caricata como uma jornalista a abordou para um pedido de entrevista. Esta sugeriu-a que poderiam falar de tudo menos sobre essas coisas que a mesma considerava como “chatas” da raça porque, na sua opinião, ''felizmente em Portugal não temos esse problema, não distinguimos as pessoas pela cor''. 



Eusébio, como africano e ''preto'', foi alcunhado de ''Pantera Negra'' pela forma pujante e felina como praticava o seu futebol. Fez do epíteto um estereótipo positivo na narrativa do futebol e o mundo o viu assim carinhosamente. Como um verdadeiro rei mago da bola quis o destino conspirar para que fosse a enterrar no Dia de Reis, 6 de janeiro, segundo a tradição cristã. 



Obrigado Rei. Kanimambo Kingcomo se diz no teu Moçambique. 

Alberto Castro