Longe de terem a inocência que lhes costuma atribuir o senso comum, epítetos, piadas e boatos podem ser utilizados, e freqüentemente o são, como instrumentos de dominação no plano simbólico, reforçando a posição dos membros do grupo no poder e, correspondentemente, rebaixando a auto-estima e a autoconfiança do(s) grupo(s) subordinado(s), como nos mostra o mesmo Elias no também clássico “Os estabelecidos e os outsiders”.
No caso brasileiro, o antropólogo Antônio Sérgio Guimarães, da USP, mostrou tais mecanismos em ação ao estudar as ofensas comumente dirigidas aos negros no contexto de Salvador. Todos nós as conhecemos: “macaco”, “tição”, “tiziu”, “urubu” e muitas outras, para não falar na carga negativa de termos aparentemente neutros como “negro” e “preto”, ao mesmo tempo fruto e instrumento de séculos de rebaixamento e humilhação.
Não sendo possível rebater tais ofensas com termos de igual peso em relação aos brancos – já que estes simplesmente não existem no léxico da língua portuguesa -, resta aos ofendidos fazerem de conta que não se incomodam, deixarem de lado a possibilidade de reação, pressionados pela percepção – não exagerada, como se tem visto – de que do contrário poderão irritar os dominadores e, de alguma forma, prejudicar-se.
Ou melhor, restava. Nos últimos tempos, estimulados pela adoção de novas posturas por parte de um segmento importante da sociedade brasileira, interessado em rever atitudes e comportamentos “naturalizados” em relação aos brasileiros que o antropólogo Kabengele Munanga, também da USP, chama de “negros indisfarçáveis” – ou seja, os que trazem nos traços fenotípicos a marca indelével da ancestralidade africana, independentemente da possível europeidade de seu DNA – , alguns destes têm ousado enfrentar a discriminação de que são vítimas, sem medo da reação, freqüentemente surpresa, e por vezes raivosa, dos defensores do status quo. O fato de utilizarem mecanismos juridicamente consagrados, como a legislação anti-racista, demonstra claramente o caráter pacífico e a legitimidade de suas reivindicações.
Numa frase lapidar que demonstra o seu conhecimento da realidade racial brasileira, muitas vezes subjugado diante da necessidade de defender o modelo da “democracia racial”, o sociólogo Gilberto Freyre afirmou numa entrevista concedida em 1978, pouco antes de falecer, que “a harmonia racial da sociedade brasileira é fruto da generosidade dos negros”.
Ainda que possamos discordar do termo “generosidade”, preferindo substituí-lo por “submissão”, somos forçados a concordar com a essência da frase de Freyre: não há problema enquanto os negros permanecem no “seu” lugar. Transformar em vítima um agressor confesso, cuja responsabilidade é magnificada pelo cargo de professor, é apenas uma forma perversa de reforçar e perpetuar os mecanismos simbólicos de dominação que ajudam a sustentar as desigualdades extremas que caracterizam nossa sociedade.
Isso, porém, só seria possível se os agressores continuassem contando com a colaboração acrítica do grupo subordinado. O problema é que o mundo está mudando, e eles aparentemente não se deram conta disso. Precisam reeducar-se, por doloroso que isso lhes pareça.

Carlos Alberto Medeiros