Se tem uma coisa que não faço é rogar praga, ela volta e rebate sei lá onde. Mas a vida é assim: aqui se faz e nem sempre aqui se paga.

Dito isso, tenho a impressão de que o mundo dos encantados é pra onde a gente vai depois daqui – e não é céu, purgatório e inferno não, porque isso é coisa de opressão religiosa; lá está Thiago de Melo, Elis Regina, Anastácia, Paulo Freire, meu irmão, e tanta gente que fez a diferença entre nós, que moveu planetas para ajeitar o outro, que dividiu o pouco que tinha, que aprendeu com os erros e se desculpou.

Cabe junto aos encantados aqueles que salvaram tartarugas, que deram as mãos nas tristezas, que acolheram com abraços apertados viventes apavorados, que, na hora da tragédia, espalharam a esperança.

Encantados são os de coração cheio de amor e de justiça.

Não fiz um gesto sequer para lamentar a morte de negacionistas responsáveis pelas mortes de nossos parentes e amigos e, agora, de Olavo de Carvalho (se bem que estar escrevendo é um gesto), um velho mau, constrangido pela soberba e que prestará conta aos encantados.

Fiquei órfã com tantas mortes de gente boa. Apesar de ter me enchido de dor e transbordado de raiva não bato palmas pela morte de gente ruim…deixo isso a cargo do espanto, pedindo aos encantados que interfiram na amplitude do bem.

Rita Braglia é jornalista, ambientalista, divulgadora das causas indígenas e quilombolas, apoiadora de todos os movimentos de solidariedade.