O entendimento da  questão racial no Brasil, para uma descendente de italianos, não foi uma  das coisas que veio naturalmente. Afinal, crescemos numa sociedade que há séculos tratava o recismo como se uma questão “natural”, tal como o nascer do dia ou o cair da chuva.

Foi preciso ir pro chão, foi preciso ler, pesquisar, ouvir muito e, embora dando plena razão à minha querida Nilma Bentes – “você nunca saberá a dor da cor” – aprendi a me reconhecer suavemente racista, por ter demorado tanto a enxergar o submundo da discriminação e do “discreto” apartheid”  nacional e a ler as estatísticas com olhos inquiridores.

Foi já na idade madura que revi meus conceitos esquerdistas de que a solução de tudo viria pela luta de classes. Aprendi que por dentro dela havia nesse Brasil “cordial” um crime jamais reparado: o do racismo.

Aprendi também que ainda que tenhamos muito a construir e a combater, sou testemunha do quanto avançamos nos últimos 50 anos. E, perder isso de vista, é desmerecer a luta e o sacrifício de milhares de negros, dos mais ilustres aos anônimos e não podemos nos permitir isso. Portanto, é fundamental abrir os olhos para combater as armadilhas do capitão-do-mato que preside o país.

Num um país construído no genocídio e no escravagismo, uma sociedade cínica, hipócrita e insensível, que combate toda e qualquer possibilidade de lutar contra a desigualdade racial, distorceu nosso conhecimento e escreveu nossa história como bem quis. Pior, aniquilou na população negra a sua participação imprescindível para nos tornarmos um país e roubou-lhes o orgulho de serem quem são. No máximo, deixou brechas no “folclore”, para não aniquilá-los definitivamente da nossa história.

A eleição de Jair Bolsonaro fragiliza muitas conquistas e o campo dos direitos está formal e informalmente minado. Ele e seu governo ferem diariamente, pelo racismo expresso ou com disfarces –  ainda que ele use um deputado negro como figuração nas fotos oficiais –  em  medidas ditas administrativas, o caráter político de exclusão das minorias. Todas.

Duas conquistas da população negra são sagradas, como marco do avanço sobre o racismo e estão sendo ameaçadas: a  política de cotas, que é a justa reparação da sociedade brasileira a mais de 300 anos de escravidão, submetendo negros escravos e sua descendência a tratamento ignóbil, transformando-os – se não houver intervenção de políticas públicas – em cidadãos de 5ª classe, deformando sua autoestima, querendo validar a naturalidade de um crime.  A segunda é a ameaça da não titulação ou revisão da área dos territórios quilombolas – e das terras indígenas – uma afronta à Constituição.

Em janeiro deste ano, Bolsonaro anunciou a criação de um “grupo de trabalho” com a função de rever demarcações de terras indígenas e quilombolas. Ainda que o STF, em fevereiro , tenha derrubado a tese do marco temporal e referendado os ritos para a demarcação dos territórios quilombolas e, recentemente, saiu do Ministério da Goiaba e retornou ao Ministério da Justiça a gestão da FUNAI e do INCRA, basta sufocar orçamentos para que nada aconteça. E, onde nada acontece pela via institucional, acaba “acontecendo” pela lei dos mais fortes!

Axé, camaradas.

Maria Adelina Guglioti Braglia