O dia 25 de abril é histórico, não apenas para os portugueses, que nesta data livraram-se do jugo de 48 anos da ditadura salazarista e conquistaram a democracia. Também os baianos, possuem muito orgulho desta data, embora por razões diversas. Foi neste dia, que um grupo de jovens negros e pobres do Maciel/Pelourinho, pequeno bairro encravado no Centro Histórico da cidade do Salvador, fundou a maior entidade contemporânea do movimento negro brasileiro – O Bloco Afro Olodum, hoje uma associação civil, cuja razão social é Grupo Cultural Olodum. Para quem não sabe, seu nome é uma corruptela de Oludumare, o ser Supremo das Religiões de Matrizes Africanas, em particular do Candomblé.

No primeiro momento era apenas uma entidade carnavalesca que buscava superar, por meio dos seus tambores, a histórica discriminação da qual era vítima, por abrigar em sua área de atuação os becos e vielas da marginalidade e da prostituição. Daí, como rastilho de pólvora se fez presente a consciência intuitiva, aliada a criatividade e ao talento de uma juventude ávida em fazer-se presente na cidade da Bahia. E pelas mãos de um ferreiro e alabê, chamado Neguinho do Samba, surgiu um novo ritmo que seduziu o Brasil – o samba reggae.

Mistura de um conjunto de ritmos, timbres e sonoridades de origem africana, onde o samba e o reggae de origem jamaicana são os protagonistas. O samba reggae encantou a Bahia e o mundo. Mas o Olodum não contentou-se em ser apenas uma novidade musical ou uma excentricidade cultural, implementou um dos mais arrojados projetos de enfrentamento e combate ao racismo endêmico que sempre se fez presente na sociedade baiana mascarada da cordialidade e da submissão. O projeto possuía um nome simples – Rufar dos Tambores, mas a grandeza do seu som. E os tambores rufaram e os negros clamaram, Olodum sou eu.

E o Olodum ganhou as ruas, a cidade e o país. Aplicou de maneira visceral os três princípios conceituais que regem o fazer cultural na contemporaneidade: apostou no caráter simbólico da força da cultura negra e da sua função histórica, na permanência e garantia da auto estima dos escravizados de ontem e os discriminados de hoje.

A cidadania deixou de ser um instrumento de retórica e passou a ser parte integrante dos cantos e dos toques da sua banda magistral. A Banda Mirim, braço instrumental do projeto Rufar dos Tambores foi o seu abre alas para dar espaço, ensinar e acolher as crianças negras e pobres que perambulavam pelas ruas fétidas do Maciel/Pelourinho.

Deste primeiro passo surgiu a Escola Criativa Olodum, hoje Escola Olodum, um exemplo de inclusão e respeito às crianças, adolescentes e jovens não só do Pelourinho, mas de toda a cidade do Salvador e sua Região Metropolitana. Neste diapasão surgiu o Bando de Teatro Olodum e sua Companhia de Dança. O Bando formado por jovens atores negros fez sucesso, fincou raízes e é hoje uma das principais companhias de teatro do país, revelando talentos e cidadãos da qualidade de Lázaro Ramos, Érico Braz e Tânia Toco, todos atuando na Rede Globo.

E o Olodum seguiu adiante. Conquistou novos parceiros, agregou novos valores, construiu sua sede num velho casarão do Centro Histórico e deu a ela o nome de Casa do Olodum, dando o exemplo de que era possível resgatar e preservar o velho Pelourinho. E a partir dessa iniciativa a economia da cultura passou a ser uma preocupação permanente entre os dirigentes do Olodum. Por meio da sua Banda e dos parceiros institucionais e empresariais construiu uma sólida carreira musical produzindo inúmeros hits de sucesso, mas que também cumpriam a histórica missão de combate ao racismo e da luta pela igualdade.

Graças a estes recursos profissionalizou e capacitou milhares de jovens na cidade do Salvador. Cresceu, agigantou-se, virou referência mundial. Sofreu discriminações de todas as ordens, sociais, raciais, econômicas. Vários dos seus membros foram vítimas da violência policial, incluindo casos de morte. Mas também, foi amado, copiado, imitado e serviu de exemplo, no Brasil e no exterior, de como a cultura pode ser um valioso instrumento na luta pela transformação social.

Mas, também o Olodum foi vítima dos seus próprios erros, ora fruto do despreparo, da desinformação e da ganância de alguns, ora fruto da má fé e da manipulação política. E outros tantos tombaram pelo caminho. O Olodum sofreu o baque, andou cambaleante durante um tempo, reorganizou-se, reestruturou-se política e administrativamente e continua firme e forte na caminhada, onde a cultura, a liberdade e a democracia são elementos indissociáveis para um viver melhor. Em verdade, nestes 35 anos de existência, o Olodum tem sido um fiel porta voz daquilo que se encontra no artigo 8º da nossa Lei Maior que é a Constituição Brasileira – “Ninguém pode ser discriminado em razão de sua origem, raça, sexo, idade, idioma, posição social, modo de vida, convicção religiosa, filosófica ou política, ou, em razão de deficiência física, mental ou psíquica.”

E viva o Olodum, da Bahia, Capital, Grande Rei Olodum.

Axé!

Toca a zabumba que a terra é nossa !

 

Zulu Araújo