O reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, José Carlos Ferraz Hennemann, afirma que a conclusão positiva à implantação do sistema de cotas na Universidade já para o Concurso Vestibular de Verão de 2008, é fruto de um amplo debate junto com a comunidade acadêmica.
Segundo ele, a universidade é um espaço de debate plural e amplo e quanto a críticas encaminhadas quanto a adoção do sistema, responde: “Devo sempre me manifestar como reitor, porque fui eleito pela comunidade universitária para representá-la e esta comunidade optou pelo sistema de cotas. Então sou favorável ao sistema que a comunidade da minha universidade decidiu adotar”.
Veja a entrevista do reitor Hennemann
Portal Palmares/Afropress – Por que a UFRGS levou tanto tempo para aprovar o sistema de cotas, quando se sabe que as discussões junto à academia estavam sendo feitas há mais de dois anos?
José Carlos Ferraz Hennemann – Este dois anos mencionados foram destinados ao debate no seio da comunidade universitária. Lembro que quando nos apresentamos como candidatos à Reitoria da UFRGS, já dizíamos que colocaríamos em debate as ações afirmativas, as quais também fazem parte de nosso Plano de Gestão. Fizemos isto com muito critério, incluindo a realização de seminários com especialistas, trocas de experiências com outras universidades que já possuíam a política de cotas e, em novembro do ano passado, constituímos no Conselho Universitário uma comissão para apresentar uma proposta. Esta proposta ficou pronta e foi apresentada e debatida no Conselho, que fez emendas e aprovou a adoção de ações afirmativas. Assim, debate pode ter havido há mais tempo, mas foi nesta administração que se tomou a decisão de submetê-lo ao Conselho Universitário para torná-las realidade.
Portal Palmares/Afropress – A UFRGS tem recebido manifestações contrárias a aprovação do sistema? De onde vem? De que forma está respondendo a tais manifestações?
Hennemann – Recebeu manifestações contrárias antes de a matéria ser encaminhada pelo Conselho Universitário. Certamente são de pessoas e grupos que possuem opiniões diferentes, mas a Universidade é o lugar onde o debate deve se dar de forma muito ampla e respeitosa. A resposta foi dada pelo Conselho ao aprovar uma política de cotas na UFRGS. Consideramos normal existirem críticas, já que o tema é complexo e em todas as universidades que a adotaram houve divisões de opinião.
Portal Palmares/Afropress – De que forma a universidade irá monitorar, ou seja, acompanhar o desenvolvimento deste sistema de ação afirmativa?
Hennemann – Do ponto de vista de sua implantação e avaliação, a decisão aprovada pelo Conselho Universitário já define estes parâmetros. Quanto à permanência dos estudantes na universidade temos uma Secretaria de Assuntos Estudantis que adota diversas medidas de atendimento ao estudante. Mas certamente haverá necessidade de um acompanhamento, sempre tivemos consciência disso. Por isso a decisão prevê avaliações anuais e outra, de maior envergadura, daqui a cinco anos.
Portal Palmares/Afropress – Que outras ações a UFRGS promete realizar em favor da promoção, da valorização e do estudo da cultura afro-brasileira?
Hennemann – No interior da universidade e, principalmente, junto à Pró-Reitoria de Extensão (PROREXT), existem grupos de estudos. Certamente com o ingresso de um maior número de estudantes negros, o estudo da cultura afro-brasileira vai se ampliar. A Pró-Reitoria desenvolve, em caráter continuado, o Programa Anti-Racista no Cotidiano Escolar, que é uma atividade junto às escolas públicas, com o objetivo de formação continuada de docentes e alunos, especialmente para a implantação da Lei 10.639/03 (que institui o ensino de história e cultura afro-brasileira nos currículos da Educação Básica). No bojo deste programa sempre houve várias ações (seminários, atividades culturais etc.). Com a instituição das cotas na UFRGS, é nosso projeto ampliar essas ações afirmativas, de forma integrada com a Pró-Reitoria de Graduação e a Secretaria de Assuntos Estudantis, no sentido de construir seminários, palestras e outras atividades para refletir e discutir questões relacionadas com a nova realidade, como: educação das relações raciais no espaço da Universidade, formas de acompanhamento e avaliação das modificações no espaço acadêmico em função das cotas, intensificação das ações de estudos sobre cultura afro-brasileira, como, por exemplo, o Curso de Extensão sobre História da África (que está programado para 2007/2) e outro Curso de Extensão sobre a História dos Afro-Brasileiros (programado para 2008/1).
Portal Palmares/Afropress – Na sua avaliação pessoal, fora de sua atuação como reitor, o senhor é favorável a implantação do sistema de cotas?
Hennemann – Devo sempre me manifestar como reitor, porque fui eleito pela comunidade universitária para representá-la e esta comunidade optou pelo sistema de cotas. Então sou favorável ao sistema que a comunidade da minha universidade decidiu adotar.
Portal Palmares/Afropress – O senhor espera que a mesma aprovação se dê também nas universidades federais de Santa Maria e Pelotas?
Hennemann – Isto depende de cada universidade, mas me parece que as universidades federais brasileiras caminham para esta nova realidade que é ter uma maior diversidade no seu interior.
Portal Palmares/Afropress – Fala-se muito em polêmica na implantação deste sistema pelo país? Na sua avaliação, que pontos são polêmicos e que podem vir a gerar resistência?
Hennemann – Toda a medida adotada em uma universidade pública, sejam cotas, implantação de cursos, educação a distância ou mesmo alterações em concursos vestibulares gera polêmica porque atinge um número muito grande de pessoas. No caso em questão é ainda mais polêmico porque toca em questões culturais profundamente arraigadas na sociedade. No caso da nossa universidade não vejo agora o que pode gerar resistências. A Decisão nº 134/2007 denominada de “Programa de Ações Afirmativas, através de Ingresso por Reserva de Vagas para acesso a todos os cursos de graduação e cursos técnicos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul” está publicada no site do Conselho Universitário com todas as informações sobre a sua aplicação.
Portal Palmares/Afropress – Quais são as suas considerações finais acerca do tema: políticas de ações afirmativas no Brasil?
Hennemann – A Universidade Federal do Rio Grande do Sul é uma das grandes universidades brasileiras a adotar um programa de ações afirmativas e isto demonstra o compromisso cada vez maior que temos com as demandas da sociedade. A partir de agora a Universidade se prepara para aplicar o seu concurso vestibular em janeiro de 2008 com mais esta novidade. Isto significa um novo impacto na sociedade gaúcha. Já vínhamos, e isto é importante lembrar, adotando medidas que permitiam aos estudantes do interior do Rio Grande do Sul fazer a inscrição e realizar as provas em cidades da sua região. Neste ano de 2007 já realizamos as provas do vestibular em três cidades do interior e vamos repetir esta experiência em 2008. Tudo o que possibilitar um acesso mais amplo de estudantes ao ensino superior público se caracteriza como uma ação afirmativa. Mantemos, não sem dificuldades, em pleno funcionamento as moradias estudantis e os restaurantes universitários. Temos um significativo número de bolsas próprias que permitem aos estudantes treinamento em suas áreas de estudo, mas também uma remuneração para isto, como ocorre com as monitorias, as bolsas treinamento, as bolsas permanência e as bolsas de extensão.

Entrevista do reitor Hennemann (foto) ao jornalista Oscar Henrique Cardoso, ACS/FCP/MinC – Foto: UFRGS