Desde que a Copa do Mundo começou, o Brasil passou a ser o foco das atenções do mundo. Ficou evidente um pouco da nossa incompetência, onde tudo é resolvido de última hora. Planejamento? Esquece! Isso é coisa de europeu.

A "boa" educação de parte da classe média, que acha que pode tudo, também foi revelada mundialmente. Ao invés de protestar de forma educada, preferiu soltar palavrões em alto e bom som para o mundo ver e ouvir. Não contente, em uma outra partida, a torcida se achou no direito de vaiar quando o Chile teve seu hino nacional tocado a capela ou vaiar um torcedor excessivamente por está vestindo a camisa da Argentina. Todavia, isso faz parte da atitude arrogante que estamos acostumados a ver e ouvir no Brasil, ou você nunca ouviu o clássico "você sabe com quem está falando?"

Quando vimos os japoneses, na arena do Recife, ou os alemães no Rio, recolhendo o lixo, como qualquer pessoa comum educada faria depois de utilizar um espaço público, o gesto deles nos pareceu um ato incrível. Certamente porque estamos acostumados com as nossas atitudes arrogantes em um país que ainda carrega seu passado colonialista estabelecendo as relações de servidão.

Quem já não ouviu a frase ''Limpar por quê? Tem quem limpe!'' ou ''se eu limpar, vou tirar o trabalho do gari!'' Lembro de uma outra frase que virou moda, que não seria aplicável aqui, porém fica a reflexão: “Tem gente que joga lixo na rua para garantir o emprego do gari. Mas morrer para garantir o emprego do coveiro ninguém quer, né?”

Mas voltando ao assunto da Copa, outro fato que que não só me chamou atenção, mas a de meus colegas e amigos ingleses, foi o fato deles perceberem que não havia negros na torcida brasileira! Não é estranho que em um país do futebol, com uma população de mais de 50% de afrodescendentes, que também gosta de futebol, que muito deu ao futebol, que essa população não esteja presente na torcida?

Principalmente em um país, onde a maioria dos nossos craques, inclusive o maior de todos – Pelé -, é de origem afrodescendente? No mínimo, por ser o esporte mais popular entre os brasileiros afrodescendentes, se esperaria um seu número mais significativo na torcida…. Mas tudo bem, os jogadores afrodescendentes já nos representam no campo, né?

Não. Não está tudo bem! Mais uma vez revelamos nossas mazelas ao mundo. É notável que o país que possui mais negros fora dos países da Africa, com exceção da Nigéria, tem negros presentes no campo, como jogadores, porém quase não tem fora, nas arquibancadas, como torcedores. Certamente esses negros não têm a mesma oportunidade de torcer como a maioria da população branca de classe média nos estádios.

Por que será? Não somos um país que se orgulha de sua linda ''democracia racial''? É nesses momentos que notamos que essa ''democracia racial'' nunca existiu no Brasil. Nossas  desigualdades são reveladas em momentos assim. Poder eles podem, mas pagar para entrar nos estádios, os negros não podem! Nesse quesito, já perdemos a Copa.

No sul do Brasil, que possui uma maior quantidade de população branca, poderia até se compreender essa escassez de negros nos estádios, em um país de negros. Mas essa invisibilidade de negros está presente em todos os Estados-sede da Copa, essa diferença permanece independente da região do país. Sabe o que essa  Copa do mundo parece? O Carnaval de Salvador, onde os brancos ficam no camarote ou no cordão de isolamento e os negros e pobres pulando na pipoca. Essa é a imagem que tenho da torcida brasileira nos estádios.

Então, de tanto ouvir dos meus amigo ingleses a pergunta ''Onde estão os negros no Brasil?'', ao invés de responder, resolvi retrucar: "por que você acha que não estão presentes? Eles respondem, meio na dúvida, com outra pergunta: "porque eles não podem pagar?" Eles não me dizem, ''porque negro não pode entrar'', mas ''porque eles não podem pagar''. Já sabem da desigualdade racial no Brasil! Essa é a dinâmica do nosso apartheid social e racial que ataca mais no bolso dos negros, a maioria.

A grande maioria dos afrodescendentes não ascenderam. Ainda são minoria entre as classes A e B economicamente ativa.

Na questão das desigualdades, a Copa do Mundo está ficando para “inglês vê”, para o ''mundo vê'' que o Brasil está a passos longínquos de resolver os seus problemas sociais, e muito menos raciais.

Dessa forma, estamos mostrando ao mundo a nossa essência dúbia, o mais lindo e o mais feio, o mais rico e o mais podre, o mais branco em um país de mais negros. Somos um país de extremos, desigual, e isso não podemos negar aos olhos do mundo nessa Copa.

Natália de Santana Revi