S. Paulo – A ONG ABC sem Racismo entrará junto aos órgãos do Ministério Público Federal e Estadual, com representação pedindo instauração de inquérito para apurar a prática de crimes por parte dos proprietários de fazendas em vários Estados brasileiros, inclusive S. Paulo, que, a pretexto de promoverem o turismo étnico, fazem apologia da escravidão.
Para o jornalista Dojival Vieira, presidente da entidade e editor de Afropress, a promoção desse tipo de turismo 118 anos, após a abolição do regime de trabalho escravo, revela o quanto ainda está presente no imaginário brasileiro, os resquícios do período do escravismo, que explica, de certa maneira, a manutenção intocada da cultura racista que permeia todas as relações sociais, econômica, culturais e políticas na sociedade brasileira.
“Trata-se de uma violência contra a população negra que representa metade do país; uma agressão continuada à nossa história, aos nossos ancestrais e representa uma ameaça ao futuro das nossas crianças que já crescem como senso de auto-estima destruído”, afirmou, lembrando a reportagem do repórter Fabiano Maisonnave, da “Folha de S. Paulo” no Caderno de Turismo, edição de 14 de dezembro.
Maisonnave, que esteve visitando antigas senzalas no interior de Pernambuco – como em Vicência a apenas 81 km de Recife – em que o guia anuncia. “Hoje vocês vão se sentir como verdadeiros senhores de engenho, verdadeiras sinhazinhas”. Em outra fazenda – o engenho Uruaé, em Goiana, a 65 Km da capital pernambucana – o realismo chega ao ponto do guia se amarrar no tronco e pede que um voluntário simule açoitá-lo.
Também na Fazenda Goiana, o grupo de turismo é recepcionado por um casal de funcionários negros vestidos de escravos, inclusive descalços.
Simultaneamente, o editor de Afropress convidará artistas e personalidades negras e anti-racistas de todo o país, da política, da Academia, do cinema e da televisão, para que se tornem signatários da representação.
Segundo a ONG ABC sem Racismo, o caso de Pernambuco, não é isolado. Fazendas do Vale do Paraíba, no interior do Estado do Rio (foto), também promovem a prática desse tipo de turismo que faz a apologia da escravidão.
Em S. Paulo, o Secretário de Turismo, Fernando Longo, lançou recentemente uma modalidade de turismo étnico cultural que tem como título “Rota do Escravo”. Um dos roteiros – o Roteiro 6 – São Sebastião Ubatuba-Ilhabela – é apresentado como “encontro do elo entre passado e presente escravista no Brasil”. Á área concentra as principais comunidades remanescentes de Quilombos, como Caçandoca.
Segundo o editor de Afropress este tipo de turismo macabro, não ofende apenas a população negra, mas representa um deboche a qualquer noção de avanço civilizatório e ofende a qualquer pessoa que se paute por padrões civilizados de convivência. “Não se trata de resgate histórico coisa nenhuma. Trata-se da prática masoquista e racista que ofende os nossos ancestrais e compromete o futuro das nossas crianças. Alguém já imaginou o que aconteceria se um desses criativos agentes de turismo resolvesse reproduzir a história do Colizeu Romano, organizando visitas com cristãos sendo atirados aos leões como na época? Alguém pode imaginar se as visitas aos campos de concentração na Alemanha fossem conduzidas por guias apontando judeus sendo sacrificados nas câmaras de gás? Trata-se de uma violência e um deboche.
A ação será protocolada na próxima semana, inicialmente junto ao procurador Sérgio Suiama, procurador Regional dos Direitos do Cidadão, com o pedido para que o mesmo remeta a Subprocuradora-Geral da República e Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão, Ela Wiecko de Castilho, a distribuição da representação em todos os Estados com o pedido de providências. E também a promotora Fernanda Leão, do Grupo Especial de Inclusão Social do Ministério Público de S. Paulo.
O jornalista pede a instauração de inquérito contra os responsáveis por tais práticas, sejam agentes públicos e ou privados, com a sua responsabilização cível e criminal bem como a cessão imediata desse tipo de turismo macabro que, segundo ele, “ofende a dignidade do povo negro brasileiro”.

Da Redacao