Para quem não está acompanhando o caso, vamos aos fatos. Na calada da noite, de forma premeditada, enquanto os estudantes dormiam, criminosos profissionais, munidos de produtos inflamáveis atearam fogo às portas de três apartamentos, provocando terror e pânico.
Os autores do crime, que o chanceler Celso Amorim chamou de “episódio vergonhoso” e “muito grave”, antes tiveram o cuidado de desativar os extintores de incêndio – o que evidencia a intenção criminosa – e de pintar nas portas com um “x” em vermelho. De acordo com os depoimentos dos estudantes, as provocações de caráter racista e xenófobo não são recentes e já eram de conhecimento da Universidade.
Pois bem, diante de um fato de tal gravidade, o que faz, a mídia capitaneada pela TV Globo – leia-se o todo poderoso diretor executivo de jornalismo da Central Globo de Jornalismo, senhor Ali Kamel? Primeiro tenta de forma impertinente e lançando às favas qualquer preocupação com objetividade jornalística, vincular o crime, à uma fala infeliz da ministra Matilde Ribeiro, da Seppir que, no dia anterior, havia considerado natural que negros se insurjam contra brancos, para ficar nas suas palavras.
Ao tentar estabelecer relação de causa e efeito, o que a Globo e o senhor Kamel tentaram fazer foi manipular a opinião pública, atenuando a gravidade do crime, e buscando justificá-lo, como se alguma justificativa pudesse haver ao que o chanceler Amorim chamou de motivo “de vergonha coletiva”. Enquanto a matéria da ministra foi editada, editorializada, para 40 milhões de pessoas, a audiência estimada do Jornal Nacional, o caso do atentado na UnB, foi noticiado rapidamente, com o uso de imagens ao fundo.
Na Universidade, a corrida para abafar as repercussões do crime, retirando dele a conotação que, de fato, tem, também foi igualmente rápida. O reitor Timothy se adianta, reúne políticos, entre os quais, o senador Paulo Paim e o deputado Aldo Rebelo – o mesmo que foi acusado pelo primeiro de brecar a votação do Estatuto da Igualdade Racial – para anunciar a criação da nova data no calendário da UnB.
Enquanto isso, o delegado da Polícia Federal, responsável pelo inquérito também se adiantava, antes mesmo do início das investigações, para colocar em dúvida se o crime teve ou não motivação racista, o que nos estimula a perguntar àquela autoridade, porque as vítimas não foram estudantes dinamarqueses e ou noruegueses também presentes na Universidade.
Na tentativa de desviar a atenção, não faltou nem o Governo, por meio do vice-presidente, José Alencar que, desta vez, sem a cautela que caracteriza os mineiros, decretou: “não há racismo no Brasil”, repetindo o que o próprio Presidente já fizera na campanha eleitoral, quando ao ser questionado sobre o tema, desconversou.
No caso do reitor Mulholland sua reação apressada criando datas simbólicas, não faz jus à lerdeza com que a Universidade apura um caso de racismo no seu próprio corpo docente, envolvendo o Professor de Ciências Políticas, Paulo Kramer, acusado por alunos de se referir aos negros, de forma depreciativa, como “crioulada”. Desde agosto, os membros da comissão do processo administrativo disciplinar, instaurado por determinação do reitor, vem adiando a conclusão do inquérito, sem qualquer indicação de quando, afinal, tomarão uma decisão.
Chama a atenção a pressa, como todos tentam apagar o incêndio da possível conotação racial do crime, como se crimes raciais fôssem desconhecidos da nossa realidade cotidiana.
Mas, onde a “Operação Abafa” é mais evidente, é na mídia. Convém dá nome aos bois: os grandes jornais praticam sistematicamente racismo institucional, no Brasil, quando adotam como prática, a omissão de nomes de acusados de crimes de racismo, protegendo-os sob o anonimato ou semi-anonimato, atropelando os seus próprios manuais de redação. Trata-se de um caso gravíssimo que merece ser levado aos órgãos de representação de jornalistas brasileiros, como a ABI, e até à Sociedade Interamericana de Imprensa.
Querem um exemplo? São muitos. Sabe-se, desde quarta-feira, que há pelo menos três suspeitos – estudantes que moravam em apartamentos vizinhos aos dos africanos – cujos nomes estão de posse do delegado que dirige as investigações. Pois bem: nenhum deles teve o nome divulgado. Nesta sexta-feira, oito pessoas foram ouvidas, todas como testemunhas, porém, entre elas, estão os suspeitos. Até o final desta edição, esta Afropress não conseguiu da Polícia Federal os nomes das testemunhas e ou dos suspeitos, quando se sabe, que o caso não está sob segredo de justiça.
O jornalismo investigativo da Folha e de outros grandes veículos brasileiros não consegue avançar na apuração. Por que será? Respondemos nós: racismo. Acrescentamos: racismo institucional.
A própria Folha, na mesma página em que noticiou o atentado contra os africanos, edição de quinta-feira, (29/03 – página 4 do Caderno Cotidiano) deu também o caso “de um comerciante de 45 anos, preso em flagrante em São José do Rio Preto, acusado de injúria qualificado por elemento racista”.
Seu nome? Ninguém informou. Por que razão? É menor de idade? Não, tem 45 anos? É penalmente responsável? Claro que sim – até onde se sabe, a maioridade penal começa aos 18 anos.
Por que não se revela o nome, negando à sociedade um direito, que é o direito à informação? O benefício do anonimato seria dado ao autor ou suspeito de roubo de uma galinha, que fôsse? Claro, que não.
Respondemos nós: o nome disso é racismo, racismo institucional, o mesmo que, neste momento, está sendo praticado pela mídia para, de um lado, inflar a repercussão à uma fala infeliz de uma ministra de Estado, não por um acaso negra, como se falas infelizes constituíssem alguma novidade partindo de ocupantes de cargos públicos neste país.
Sabe-se muito bem que, todos os dias, de cada três falas de ministros, só para ficar neste Governo, pelo menos uma, é totalmente infeliz, a começar pelas falas do próprio chefe deles. De outro lado, também pratica racismo institucional quem busca, consciente ou inconscientemente, esconder e/ou omitir nomes de suspeitos de crimes de racismo ou, por quaisquer outros meios, acionaram esta bem urdida “Operação Abafa”, cujos beneficiários maiores são os criminosos covardes que atentaram contra a vida de estudantes africanos na calada da noite e enquanto dormiam.