“Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo” (Ortega y Gasset).

Os tempos conturbados em que vivemos, na política partidária nacional, decerto revigoraram nosso ânimo em nos importar com o que acontece nos palácios de Brasília e por debaixo de seus panos, e isso é muito bom, porém fortaleceram, consigo, os ventos da irracionalidade e da má-fé.

Nós enfrentamos um furacão de sensações extremas: passamos da euforia ao seu oposto, a disforia; da crença exasperada à descrença niilista; da paixão acalorada ao ódio que congela o coração. Sobram bandeiras e, muitas vezes, falta compaixão e um senso mínimo de respeito ao outro e suas opiniões.

Rotular e gritar slogans é mais fácil que refletir e debater. O novo maniqueísmo da gastronomia política brasileira é a batalha dos coxinhas contra os mortadelas; só lamento pelos que pensam com os intestinos.

Eu poderia escrever que “eles que são brancos que se resolvam”, os corruptos que se canibalizem em suas cerimônias, plenárias e tribunais, porém nós, as pessoas negras, acabamos imbricadas nesse fuzuê, primeiro por sermos, mesmo que marginalmente, brasileiras, mas também porque nos posicionamos em algum ponto daquele pólo ideológico que descrevi no parágrafo anterior.

Vale escurecer: sou filiada à Rede Sustentabilidade. Dito isso, ressalto que reconhecemos os descaminhos dos Poderes da República, que nossa candidata à presidência da República, Marina Silva, foi alvo de uma campanha difamatória por parte da coligação que se reelegeu, e nosso posicionamento, como coletivo partidário com diferentes porta-vozes, é que a campanha que elegeu a atual Presidenta deva ser julgada no Tribunal Superior Eleitoral, ante aos indícios de recebimento de propina.

Incomoda-me, profundamente, quando a mandatária da nação, em seus pronunciamentos que soam a comícios, dá a entender que ela inventou as políticas afirmativas para a população negra brasileira. Pior é quando esse discurso falacioso é reproduzido.

Como se figuras históricas como Abdias Nascimento já não reclamassem medidas para inclusão laboral e educacional de pessoas negras nos anos 30 do século XX; como se não houvesse movimentos negros organizados e intelectuais negros que, em torno dos debates da conferência mundial sobre o racismo e a discriminação racial, a xenofobia e intolerância correlata (realizada em 2001 na cidade sul-africana de Durban), tivessem repercutido em nosso país a necessidade da implementação de ações afirmativas como políticas públicas; como se não tivesse havido mobilização interna às instituições de ensino e organizações de trabalho que implantaram iniciativas para o acesso de pessoas negras em seus quadros preponderantemente brancos.

A utopia monopolizada pelo Partido dos Trabalhadores deixou órfãos (fui filiada ao PT. Desfiliei-me na época do Mensalão e me filiei ao PCdoB. Desfiliei-me em 2014, quando das primeiras denúncias relativas ao Petrolão, e me filiei à Rede). Eles têm repetido mentiras ou, melhor dizendo, reinterpretações elaboradas de fatos. Incluindo aí ativistas negros cooptados ou auto-enganados. Relatarei um exemplo desse comportamento patológico. Serei concisa.

Em março foi divulgado pelo Estadão um relatório da ONU sobre o fato de que o governo brasileiro fracassou em mudar a desigualdade racial que você conhece muito bem, mesmo que não se considere racista. Pois bem. Recebi no meu mural no Facebook a “notícia” de que o meio de comunicação brasileiro havia errado a tradução, sugerindo interesses malignos contra o Governo Federal, por trás disso.

A “notícia” é um festival de verborragias para tentar negar o óbvio: o Governo falhou no enfrentamento ao racismo estrutural. Ponto. O trecho original que apresenta tal análise, inclusive, foi reproduzido ipsis litteris pela “notícia”, porém o autor tergiversa sobre o óbvio, como acabei de escrever, e se afunda em digressões como a de que o Legislativo e o Judiciário é que falharam, ou que a culpa pelo extermínio da juventude negra é exclusiva da Polícia Militar, como se o Executivo não tivesse nada a ver com isso ou com o atraso crônico na titulação de terras indígenas e quilombolas. Chega a ser embaraçoso ler essa tentativa diversionista de traduzir fracasso como insuficiência seletiva.

Enquanto certas organizações de defesa da população negra se preocupam paranóicamente com a Presidenta, entoando gritos de “não vai ter golpe” ante a qualquer “bom dia”, seguem as mazelas da falta de fiscalização quanto à devida aplicação das políticas afirmativas aprovadas em forma de Lei: candidatos brancos se passam por negros nas seleções por cotas, sem contar os casos em que as seleções são, em si, fraudulentas, disponibilizando um número menor de vagas do que deveria ser reservado ou criando obstáculos que “filtram” os candidatos negros desde as primeiras fases.

É impossível reaver o tempo perdido. Que nossas estratégias sejam menos “baba-ovo” das Princesas Isabéis do momento político e fortaleçam a nossa auto-gestão. Que não nos alienemos de nosso próprio protagonismo. Que nosso engajamento partidário seja consciente e proativo.

 

Jaqueline Gomes de Jesus