Para saber quem era o capitão do mato, que com tanta violência, após um século e meio ainda empunhava o chicote, lá estava ele com o chicote histórico nas mãos. Era nada mais nada menos que Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara, a casa do povo, que brandia aquele instrumento de tortura. Utilizou no seu lugar outro tão cortante quanto aquele: a frase “Cala a boca”, tão conhecida pela população negra desde a escravidão até os dias de hoje.
Naquela época, a população negra não conseguia calar-se e reagia fugindo para os quilombos, morrendo de banzo ou mesmo matando os filhos na barriga, para evitar que novos seres humanos sentissem a violência do chicote.
A abolição da escravatura não impediu que os algozes continuassem usando a truculência, fazendo leis que permitissem prender nossas crianças com nove anos de idade.
Os adultos, eram presos por vadiagem depois de deixar o sangue nas plantações de cana-de-açúcar, nas áreas de mineração ou nas plantações de café.
Não conseguindo expulsar os negros do País depois da abolição, através da eugenia, sonharam com o momento em que não haveria mais negros em nosso País. Seríamos todos loiros e de olhos azuis.
Esqueceram, contudo, que as primeiras miscigenações no Brasil não foram frutos de casamentos mistos, mas sim da violência cometida pelos verdadeiros donos do chicote que podiam usar as mulheres negras para aplacar sua voracidade sexual.
O negro continuou não fechando a boca. Ele criou a Imprensa Negra, o Teatro Experimental do Negro tentando de todas as maneiras, mostrar que vinha sendo desrespeitado. A abolição da escravatura o tirou da condição de escravo para transformá-lo num cidadão de segunda classe, ainda escravo.
Cento e vinte anos depois, ainda estamos lutando para sermos tratados como cidadãos. Sim, estamos ainda brigando para que, num País cuja constituição diz que “Somos todos iguais perante a lei”, o Estatuto de Igualdade Racial possa ser colocado em prática.
Lamentamos muito deputado, mas não podemos nos calar. Somos mais da metade da população brasileira. Todavia, não somos encontrados nas universidades, no mercado de trabalho, nos altos escalões. Somos poucos na política, dirigindo este País. Não tente dar explicações. Nenhuma explicação justifica sua atitude truculenta.
Abaixe o chicote presidente e respeite esta população que regou com seu sangue as terras deste País.
Abaixe o chicote presidente e trate o outro da mesma forma como gosta de ser tratado: “Vossa Excelência”.
Estamos despertando e aprendendo a conhecer quem nos respeita de verdade e quem apenas nos tolera.
Recolha o chicote excelência. Esse povo sofrido presidente, que ainda luta por um Estatuto de Igualdade Racial, pode reconhecer nas suas atitudes e na violência das suas palavras o mesmo algoz que marcou para sempre o seu corpo e a sua alma.
Não. Não o mandaremos calar a boca. Pelo contrário, queremos ouvir em alto e bom som a sua voz cumprindo o papel para o qual foi eleito: defender a população brasileira em sua totalidade fazendo valer aquela frase que por si só representa na íntegra a nossa constituição: “Somos todos iguais perante a lei”.
Deputado: Justiça é a verdadeira tradução da paz e o negro só quer justiça. O ser humano não se mede pela quantidade de melanina, mas sim por sua base moral e humanidade que regem sua consciência.

Elisa Lucas Rodrigues