1 – Frei David jamais afirmou ser contra a unidade do povo negro, nem isso está dito em nenhum momento. Apenas afirma, “e não teria afirmado”, como o senhor Reginaldo Bispo insinua, sempre usando o condicional, que é uma forma de desqualificar a informação, que a busca de unidade a qualquer custo foi uma característica de movimentos surgidos na década de 70 e que ficava expressa até mesmo no nome de entidades como é o caso do próprio Movimento Negro Unificado (MNU).
“Assim como os brancos estão em todos os partidos e tendências, e não necessariamente debaixo do mesmo guarda-chuva, nós negros também devemos nos permitir esse direito. O respeito à diversidade é fundamental”, afirmou. Antes, porém, destacou que a Educafro entende ser fundamental a articulação da comunidade negra em todos os setores da sociedade, como está dito em matéria da Afropress (edição de 09/03/2007);
2 – Esta Afropress não faz sensacionalismo ou “força a barra, de modo a provocar polêmicas e fabricar notícias irreais e ilusórias”. Bispo não aponta onde está o sensacionalismo e, visivelmente, não se sabe se, por ignorância ou falta de informação, confunde “alhos com bugalhos” – fatos com linha editorial. A Afropress é um veículo de comunicação. Não é nosso papel fazer notícias para o agrado deste ou daquele. As notícias podem ser contestadas por quem delas discorde, espaço que, por sinal, já foi utilizado pelo próprio Bispo. Não brigamos com os fatos, como parece pretender o missivista.
3 – A irritação do senhor Bispo, só pode ser entendida no contexto de sua impertinente e descabida reação ao fato de Afropress ter revelado o orçamento estimado do Congresso e os seus potenciais patrocinadores – o Estado e as estatais, principalmente. Esse fato, por exemplo, não teve dele, nenhuma contestação.
4 – Quando o mesmo afirma que “todas as entidades, articulações e grupos tem sido contemplados nas suas demandas”, lembra mais um senhor feudal, detentor de algum baronato, do que um dirigente político. Ora, que autoridade tem o senhor Bispo, ou qualquer organizador de um Congresso Nacional de Negros e Negras do Brasil, a transformar em “demandas”, apenas a reivindicação de participação? Quem é que lhes delegou procuração para decidir? Quem é que concedeu autoridade ao senhor Bispo, para se assumir como representante de todo o povo negro do Brasil?
5 – Ora, o que o Movimento Brasil Afirmativo, e que a Afropress simplesmente tem veiculado – e não como tenta, propositadamente, distorcer o Senhor Bispo – é o porque de ter sido excluído da Coordenação Nacional, conforme decisão anunciada na Assembléia Nacional do Rio de Janeiro de 13 e 14/01, depois de comparecer com delegados e documento de contribuição ao debate. E mais: sem nenhuma explicação sobre critérios.
A informação que circula e que já foi objeto de matéria na Afropress (edição de 07/03/200) de fonte limpa e insuspeita é de que se tratou de veto político, como nos velhos tempos em que “as executivas” de partidos stalinistas decretavam tudo, inclusive, deliberavam sobre a vida das pessoas. É esta a origem da única polêmica. Não há nenhuma outra, como o dito senhor pretende sugerir, do auto de sua arrogância.
6 – A postura autoritária e anti-democrática do Senhor Bispo, fica explícita mais uma vez, no discurso, a começar do título da desastrada resposta “Personalismos, vaidades e inverdades: Esgotam a paciência do Povo Negro”. De que povo negro o senhor Bispo fala? Quem lhe concedeu tal autoridade? Sua atitude apenas confirma o que está dito no Editorial de Afropress e que parece tanto tê-lo incomodado: “Avessos à transparência, alguns dirigentes – como parece ser o caso de Bispo – revelam a postura autoritária que se esconde por trás dos discursos. Quem critica, vira imediatamente o inimigo a ser atacado, ou eliminado, sabe-se lá”.
7 – No único momento em que tenta responder ao questionamento, distorce os fatos e explicita os métodos pelos quais a Comissão Executiva se pauta. “Já informamos ao representante da Afropress/Brasil Afirmativo, que não há qualquer impedimento à participação desta ou qualquer outra entidade ou grupo nas reuniões ou plenárias deliberativo do Congresso, mas que o fórum ao qual deve se dirigir para inscrever sua organização enquanto membro da Coordenação Nacional, e na reunião deste organismo, a ser realizada em 24 e 25 de março em Belo Horizonte, já que alertado, também ignorou a reunião da Comissão Executiva nos últimos dias 03 e 04 de março em Belo Horizonte”.
Ou seja: primeiro a Comissão Executiva exclui, sem qualquer critério ou explicação. Depois, quem se sentir incomodado vá se queixar ao Bispo. Ou melhor: vá se inscrever em Belo Horizonte, ou saia andando atrás de uma Comissão Executiva, cujos membros, não se movem, por razões políticas, sequer para decidir sobre uma questão que há muito foi tornada pública.
De todo o confuso arrazoado de Bispo, em fuga de respostas objetivas, este é, provavelmente o mais revelador, do desvario e do despropósito.
8 – Em outro momento, Bispo parte para uma linha muito próxima ao insulto, maneira também muito reveladora de quem considera toda crítica um ataque. Ou de quem imagina que a falta de argumentos possa ser substituída por gritos. “Desafio o Sr. Dojival, a quem tenho respeitado até aqui, de apontar uma testemunha, um local, um momento e qual a critica e perseguição que lhe fiz. Notem que ele já entrou para o campo de acusações desonestas, senão da calúnia, e isto não corresponde às intenções que ele professa de informar de modo verdadeiro e imparcial”.
9 – Deixando de lado, a tentativa vã de transformar uma questão política, em insulto de caráter pessoal, o respeito que o senhor Bispo teve ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, foi proporcional ao mesmo que recebeu. Portanto, não é favor algum tratar com respeito. Ao contrário: é próprio de pessoas civilizadas e educadas. Em nenhum momento ele foi acusado de perseguir quem quer que fosse. O que o editorial de Afropress denuncia é o autoritarismo em sua postura e dessa Comissão Executiva, fato, aliás, que ele novamente reitera e comprova como qualquer observador honesto pode constatar.
10 – E finaliza com a velha cantilena, também denunciada pelo Editorial: “Repito, pelo andar da carruagem, com estas falsas polêmicas, o Afropress acabam (sic) agindo como detratores dessa construção do povo negro, divulgando uma imagem que não corresponde a realidade, e portanto cumprindo o mesmo papel da Mídia burguesa e branca, esculhambar uma Construção seria, democrática, inclusiva, autônoma e independente de partidos, estado e governos.”
11 – Para mentes como a do senhor Bispo, todo veículo de informação independente, que não se preste a ser instrumento de propaganda de suas idéias, vira imediatamente “mídia burguesa e branca”, portanto, a nós não surpreende que ele coloque a Afropress no mesmo balaio.
Se alguma dúvida ainda restasse sobre a postura do coordenador do MNU em S. Paulo, o trecho acima se encarregaria de desfazer, pois ele evidencia as dificuldades para o debate democrático, de quem não aprendeu a conviver com o contraditório. Todo veículo de comunicação que não se pauta por Resoluções ou decisões de plenárias de grupos que se julgam e agem acima do bem e do mal, pois na sua desvairada megalomania adquiriram o direito ao monopólio da verdade, vira um perigo, um inimigo a ser eliminado, no primeiro momento, pela via da desqualificação.
O direito à informação e à comunicação que, por natureza, é requisito para a democracia, na medida em que explicita as diferenças, próprio de qualquer sociedade republicana e democrática, que se lixe.
12 – E por fim, claro, não poderiam faltar as palavras de ordem vazias, pretensamente radicais, para encobrir o deserto de idéias “Tomemos o destino em nossas próprias mãos!” “Vamos construir o protagonismo negro!” “Por um Projeto Político do Povo Negro para o Brasil!” – decreta Bispo, dando por encerrada sua pobre argumentação.
13 – A Afropress, senhor Bispo, não cumpre o mesmo papel da “mídia burguesa e branca”, por uma simples razão: a “mídia burguesa e branca” nos considera – a todos nós negros e negras – invisíveis, não dá espaço, não nos enxerga. O seu inconformismo, o seu desassossego, se dá porque cumprimos o papel de informar com independência e não estamos submetidos aos seus ditames, nem nos prestamos a fazer a propaganda da sua organização. Só por isso, o senhor se insurge.
É bom que, de uma vez por todas o senhor entenda, com todo o respeito que o senhor e a sua organização sempre mereceram e continuam a merecer de nós, que a Afropres não se pauta por decretos. Nem seus, nem de quem quer que seja. Também não lhe reconhece o direito nem autoridade de decretar quem é negro, quem não é negro, quem pode e quem não pode participar de um Congresso que o senhor mesmo e sua organização chamam de Congresso Nacional de Negros e Negras do Brasil.
Nega-lhe, finalmente, autoridade para falar em nome dos 91 milhões de afro-brasileiros, sugerindo-lhe que controle sua arrogância, ao menos em público, e calce as sandálias da humildade para ouvir, inclusive e, principalmente, as opiniões que não lhe agradam.

Dojival Vieira