“(…) A Roda dos Expostos, ou Casa dos Enjeitados, ou simplesmente “a Roda”, era uma forma de atendimento à infância abandonada que teve início do antigo Egito e existiu em vários países do mundo nos séculos XVIII e XIX. A primeira Casa dos Expostos no Brasil foi fundada em 1726, em Salvador, pelo então vice-rei. Consistia em um cilindro que tinha um de seus lados abertos e girava em torno de um eixo vertical. As mães e pais colocavam o seu filho nesta abertura e giravam, e, do outro lado, uma instituição recolhia a criança, preservando assim o sigilo sobre a identidade dos pais.
Em 1738 foi fundada a Casa dos Expostos do Rio de Janeiro, por Romão Mattos Duarte, e em 1882 a Roda dos Expostos já existia em todas as províncias do território brasileiro. As crianças colocadas nas Casas das Rodas eram basicamente os filhos das escravas, as quais muitas vezes utilizavam as rodas como forma de livrá-los da escravidão e para quem colocar os filhos na Roda significava uma esperança (…)”.
A distância entre os que nascem cidadãos e aqueles que por desigualdade de origem, nascem sub-cidadãos sem mantém e a Roda é sempre substituída no tempo.
Até uma década, o quesito cor nas fichas de inscrição para emprego, serviam como “peneira”. Hoje, depois de combatido pelo movimento negro, esse artifício caiu, mas seus substitutivos permanecem. As maioria das empresas assumiram que desconsiderar a cor é “politicamente correto e socialmente justo”, mas a qualificação requerida para cada posto de trabalho é a o “peneira moderna” que exclui os pretos e os pardos de funções qualificadas e melhor remuneradas.
Propor e implementar ações afirmativas ou discriminações positivas para privilegiar grupos historicamente desprezados pelas políticas públicas é obrigação do Estado brasileiro e compromisso da sociedade. E privilegiar ou discriminar positivamente os pretos e pardos é aceitar que a condição histórica do racismo é o que explica a prevalência destes entre os mais pobres (67,8%). Sem isso é apenas retórica a vontade que alguns dizem ter em combater a desigualdade racial brasileira.
Não. Não estou aborrecida nem amargurada. É que o exemplo de hoje, Dia Internacional contra a Discriminação Racial, me fez sentar e escrever, pra amenizar um relativo cansaço de ver e ouvir sempre a mesma cantilena. E lembrar do professor Hélio Santos, que afirma que cada vez que se fala em políticas afirmativas para negros, há sempre uma boa alma para relembrar que não é bem assim.
Em função desta data, as Tvs preocuparam-se em tocar no assunto. Entrevistas, apresentação dos indicadores sociais extremamente negativos, frutos do nosso racismo, e, no Programa de Ana Maria Braga, Milton Gonçalves deu um emocionado depoimento, que, ainda que atalhado pelas manifestações da apresentadora, que deixava entrever sua “piedade” pelo sofrimento dos negros, ainda assim foi extremamente positivo.
Mas, na seqüência entrou outra matéria, sobre o preconceito contra os obesos. Assim, mesmo sendo o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial , a TV Globo quis nos lembrar que também não é bem assim, afinal os pobres obesos também sofrem discriminações.
Em tempo: nada contra os obesos e seu direito de protestar contra a discriminação. Estou há anos nesta categoria.

Maria Adelina Braglia