Em meio a crise econômica que penaliza, especialmente, os mais pobres, dentre os quais negros são a imensa maioria, e numa demonstração de servilismo e subserviência poucas vezes vista em líderes de um movimento social, representantes do movimento negro chapa branca e partidário, compareceram ao Instituto Lula essa semana para hipotecar solidariedade ao ex-presidente.

O beija-mão organizado pelo Instituto acontece uma semana antes do depoimento que Lula terá que prestar ao Ministério Público de S. Paulo, em inquérito onde ele e a mulher Marisa Letícia são investigados pela suspeita de recebimento de favores de empreiteiras encrencadas na Operação Lava Jato.

Nunca antes neste país reuniram-se tantos para dizer o mesmo e para posar para fotos em papéis tão indignos. Nada mais constrangedor, porque não se trata da ação ingênua de inocentes. São todos rodados.

Flávio Jorge, Flavinho, da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN) um biombo que reúne os negros do PT, e outros conhecidos pelegos, como Edson França, coordenador da UNEGRO, do PC do B, e Nuno Coelho, dos Agentes Pastorais Negros (APNs), conduziram a cerimônia.

Também na fila do beija-mão estava o cartunista Maurício Pestana, secretário da Igualdade Racial, na gestão Fernando Haddad, e o ex-presidente da Fundação Palmares, Elói Ferreira.

Os fatos que deram causa a abertura das investigações são graves – suspeitas fundadas de que o ex-presidente, tanto no caso do triplex no Guarujá, quanto no uso do sítio, em Atibaia, beneficiou-se de favores das empreiteiras, cujos barões marcam ponto na carceragem de Curitiba.

Tão loquaz a respeito de qualquer assunto, Lula fechou-se em copas, não fala e se sente como uma espécie de monarca absolutista, que a ninguém deve explicações. A blogueiros de estimação, chamados a dedo, autoproclamou-se a mais honesta das criaturas, e assumiu o posto de cidadão acima e à margem da lei.

Nesse contexto, falar-se em “ataque da mídia e de autoridades”, como fez a pelegada negra, não faz nenhum sentido. Nem para os que vocalizam esse tipo de discurso.

A mídia apenas, há mais de um ano, noticia – dia sim, outro também – a sucessão de escândalos e as prisões de figuras graduadas, a mais recente das quais – o publicitário João Santana e a mulher – cúmplices diretos do maior estelionato eleitoral da história do país.

Quanto às autoridades, as investigações nos dois casos são conduzidas pela Polícia Federal sob o comando do Ministério da Justiça, do Governo do próprio partido, e ao Ministério Público de S. Paulo, cuja competência constitucional é exatamente essa: investigar crimes.

Para os pelegos, que acrescentaram mais um item a sua imensa folha de serviços prestados à Casa Grande, contudo, Lula é o “perseguido”, “a vítima do ataque da mídia perversa, de direita”. O papel que lhes cabe neste jogo de faz de contas é esse mesmo: confundir, embaralhar. É um truque.

Que o Partido faça isso, no desespero, diante das evidências de que haverá mais hóspedes em Curitiba, já é grave. Que um movimento social que, em tese representaria os setores mais vulneráveis – obrigados a pagar com perda de emprego, rebaixamento de salários e aumento do custo de vida o preço da crise – adote esse caminho é constrangedor, para não usar palavras mais fortes.

Tão chocante quanto as demonstrações de servilismo, é a desfaçatez da postura que adotam, o vazio das palavras que utilizam para justificar a indignidade, a ausência completa de pudor e recato.

No dizer de todos a solidariedade se explica “frente aos ataques de parte da imprensa e das autoridades”. Também repetem, em uníssono, que trata-se de “um ataque a um projeto político que deu certo” e que “o momento é de apoio e afeto a Lula”.

Como em outras situações que o peleguismo de negros amestrados se reuniu, em Palácio ou fora dele, não se advinha a que se referem já que até mesmo o "puxadinho" a que se deu o nome de Seppir, criado em 2003, foi extinto no atual Governo Dilma.

As mulheres não poderiam faltar, por óbvio, ao beija-mão encomendado. Houve até uma filósofa, que “filosofou” e ensinou que “o Brasil é um país conservador e o conservadorismo não quer que a gente continue avançando”. Mais: disse que os “ataques são ilegítimos e que não podemos ficar calados num momento como esse”. O que terá querido dizer com a frase a dita cuja filósofa, não se tem a menor idéia. É possível que tampouco ela o tenha, mas seria o caso de lembrá-la que  o “avanço” bem pode ser para o abismo porque, a caminho, sabidamente já estamos.

O desfile de palavras sem nexo continuou com a ministra das Mulheres, Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, Nilma Lino, para quem “várias lutas do movimento negro viraram políticas públicas durante os governos de Lula e Dilma e que o fato de ser um momento difícil não significa que devamos perder a esperança”.

Como se vê, para a pelegada negra, os escândalos de corrupção, o mensalão, o petrolão, nada disso existiu: é invenção da mídia. Os milhões roubados à Petrobrás (R$ 6 bilhões só em propina e corrupção, segundo o próprio balanço da empresa do ano passado) são uma ficção “arquitada pelos críticos e pela mídia golpista”.

Vivem como que numa espécie de realidade paralela. Uma bolha de auto-enganos. A perda de conexão com a realidade para um piloto de avião é apontada como causa de desastres. No caso do Brasil deste início de 2016, não é preciso muito para advinhar para onde estamos indo em marcha batida: para o fundo do poço, sem escalas.

Lula, claro, surpreso com a generosidade encomendada de tais líderes, desprovidos de qualquer senso de pudor e altivez agradeceu também na mesma linha. “Sou muito calejado. Nunca tive sossego. Eu era acusado de andar de primeira classe quando nunca tinha entrado num avião. Eu jamais faria uma coisa errada, ainda mais porque isso seria trair quem me levou aonde cheguei que é a classe trabalhadora. O que fizemos em 10 anos não tinha sido feito em 500 anos de história. É tudo? Não. É apenas o começo”, discursou.

Alguém que vive no Brasil, com crise econômica, desemprego, dengue, chikungunya e zika, com inflação acima dos dois dígitos e convivendo com escândalos de corrupção em cascata, em sã consciência, entendeu?

Eu também não.

Deixemos que continuem no seu mundo paralelo, que falem para si próprios. É inútil chamá-los à realidade.

O músico e ativista, Antonio José do Espírito Santo, sintetizou em sua rede social, diante da foto constrangedora do beija-mão. “Não conheço as moças e as senhoras. Nem preciso conhecê-las. Não são ingênuas, inocentes úteis, isto logo se vê. Lêem jornais, sabem tudo sobre a grave conjuntura nacional. Sabem muito bem onde estão e a que estão dando apoio. Foram convocadas para apoiar um político suspeito de crimes muitos graves e compareceram. Acho imoral, principalmente por serem negras, deliberadamente se prestando a farsa de se passarem por representantes de todas(os) as (os) negras (os) do Brasil. Não representam e são, nesse sentido, um grupo de farsantes”.O oportunismo, o servilismo pelego exala desta foto injustificável”.

A impostura dos devotos de Lula e do lulismo é caso a ser estudado pela ciência política: eles demonstram até que ponto se pode chegar quando se rompe a conexão com a realidade e também o quanto, em seres humanos, a ausência de pudor e recato é indigna, quase obscena.

Antes que me esqueça: para quem não lembra, pelego é o couro, geralmente de ovelha, que fica entre a cela e o animal, na montaria; serve para amaciar o contato da cela. Nos anos 80 e 90 do século passado, o termo foi notabilizado pelo próprio Lula, com a designação dos dirigentes sindicais que faziam o jogo dos patrões e traiam a própria classe.

No caso dos pelegos negros, a aparição dessas tristes figuras no cenário da crise atual, é o sinal evidente da degradação a que pode chegar esse movimento negro chapa branca, cujo papel é posar nas cerimônias da Casa Grande como símbolo e adereço de mão e, no intervalo das fotos e selfies, disputar, à tapa, os restos que caem da mesa.

Tristes tempos!

Dojival Vieira