Tinham o que tem toda família, esse cultivo de um dialeto próprio, hábitos vocabulares, terminologias e sinonímias inacessíveis aos que não são de casa; esse esoterismo doméstico a constituir, mais do que qualquer outro sinal, o calor e a identidade de uma família, aquilo que se carrega pela vida como marca indelével, o nervo exposto na saudade da própria gente.

Uma das características dessa linguagem íntima era o hábito de pontuar certas conversações com um gesto bastante eloqüente, a assinalar eventual negritude de algum personagem a que se referissem, em narrativa ocasional. Isto principalmente nas situações em que não seria conveniente uma alusão verbal.

Sim, faziam caso, um tanto excessivamente, da negritude deste ou daquele personagem. Não eram racistas, mas uma família comum; esquecida, como tantas, da existência de outras famílias, igualmente comuns e afrodescendentes, as famílias invisíveis, cômodamente varridas para uns guetos que no Brasil se chamam favelas. Eram brancos, eram a regra num mundo de regras onde as excessões deveriam ser assinaladas por conveniente pontuação gestual, na narrativa. Não, não eram racistas, eram mesmo de esquerda, um certo parente até famoso pela militância. De modo algum seriam racistas; e, no entanto… O amigo de um primo, um colega de trabalho, um vizinho tivera tal ou qual atitude muito caracteristica dos… Não, não é que fossem racistas, mas o caso é que se chegava à conclusão de que eles… Isto é, os… Enfim, não se deve… Veja, nada contra os… Mas é que eles… Embora, não sejamos racistas, isso jamais!… Tinham amigos negros, inclusive. Judeus, até!

Em público, contudo, quando tais alusões poderiam dar margem a algum mal-entendido, socorriam-se daquele gesto eloqüente: o esfregar discreto de dois dedos sobre as costas da outra mão, acompanhado de um meio-sorriso e olhar cúmplice. Na mesa do restaurante, por exemplo, isso significava que se aludia a um negro. Guardadas todas as conveniências de uma polidez que um ou outro articulista mais apressado denominaria hipocrisia.

Ela talvez fosse ovelha negra: judiava dos parentes, ferinos comentários em que lhes constatava o rol não pequeno de obtusidades e preconceitos. Driblando sucessivamente o racismo e o anti-semitismo da nossa língua portuguesa, pode-se dizer que fosse essa mistura tão comum quanto dolorosa de rebeldia e conformismo em relação aos seus. Detestava-os, em muitos pontos, embora lhes seguisse inconscientemente as pegadas.
Ela não era racista.
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— Eu invadiria Israel!
Ele não era anti-semita. Músico, poeta, politicamente engajado. Cabelos revoltos, boné, barba, roupa descuidada, a magreza terminando em dedos docemente longos, olhar quase sempre perdido numa melancolia fácil de adivinhar, como o silêncio que emanava profundamente daquelas mãos e olhos por onde dele dizia, sem querer nem precisar falar.

Jantava-se. Entre garfadas e goles de vinho, comentavam a noite anterior, a mágica visita a um recanto libanês, perdido na paulicéia imensa, onde se executava excelente música árabe. Tão boa a música, tão preciosamente executada que ele não se conteve: invadiria Israel.

Preferi não estragar o jantar; não perguntei por que a música árabe, tão lindamente executada também por árabes israelenses, o levaria ao ímpeto tão tristemente banal no Oriente Médio, invadir Israel. Talvez já soubesse a resposta: a verborréia do Hamas, do Hizbollah, dos Sírios, Iranianos, da ONU, dos governos mundo afora, inclusive o nosso; o grotesco ardor de um Hugo Chávez, tão entusiásticamente abraçado ao quase atômico Ahmadinejad, o homem que manda no Hizbollah, o homem que descobriu que negar o Holocausto dá ibope e lhe angaria fãs, inclusive entre os nazistas que há muito infernizam uma tal de Afropress.com, batem em homossexuais, em nordestinos, em judeus e afrodescendentes; os nazistas que incendeiam índígenas e sinagogogas, a lista completa das nojeiras. Eu já sabia a resposta: esses eram todos invisíveis. Tal como as gentes de Israel, transformadas em ratos pela iconografia nazista, pela propaganda iraniana e pelos milhares de mísseis que, ao norte e ao sul, as obriga a viver nos subterrâneos do país que construíram com o suor da vida inteira, mas ainda não lhes deixam possuir. Judeus, árabes israelenses, a música e a vida há muito invisível. Invisível como vida dos meninos libaneses que o Partido que se diz de D’us faz desaparecer, aos 13 anos, para uma longa doutrinação religiosa, cujo credo inclui o extermínio dos israelenses – judeus, árabes, músicos e poetas -, às custas do extermínio dos que poderiam ter sido poetas e músicos libaneses mas morrem como em escudos humanos. Os que são ensinados a ignorar os papeizinhos de alerta à população civil, os rogos para que fujam da zona a ser atacada, que os bobos irsaelenses lançam, horas antes de qualquer bomba. Vivos, são “mártires” em potencial; mortos, são propaganda anti-israelense: destinados a ser visíveis apenas no estado cadavérico, e nisto diferentes dos invisíveis cadáveres israelenses, suas vidas odiadas, as mortes festejadas em Damasco e Teerã, enquanto em Israel se pede desculpas que ninguém escuta, enquanto em Israel se lamenta pelos libaneses ensinados a morrer pela destruição de Israel, a tão sonhada chacina do povo tantas vezes chacinado, o povo que há muito vai sendo despachado de um lugar ao outro, fora daqui, fora dali, fora de tudo, fora, fora da visibilidade, fora da vida. Gritos inaudíveis, bocas invisíveis. Mesmo a um poeta politicamente engajado, as mãos e os olhos eloqüentes, senhor de uma ampla consciência social que um articulista apressado denominaria hipócrita.

Melhor não estragar o jantar. Até porque ele não era anti-semita, embora pensasse como um. E como tantos!…
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Ela, a que não era racista, certo dia viu, na rua, nascer-lhe diante dos olhos uma menina. De rua. Como se ruas gerassem meninas, num escabroso milagre biológico. Sujinha, tragicamente alegre em meio à miséria, brincava, sem dar pela tarde, pelo sol, pelos carros comedores de asfalto, pela gente tranqüila a voltar para casa, da praia ou do chopp. Estava em casa, era bela e suja a menina, na tormentosa paz dos seus três ou quatro anos. E loira.

Escandalizou-se. Aquilo era uma criança na rua! Meu D’us do Céu, uma criança!!! Na rua!!! Suja, largada, comida de vermes, abusada, já nem se sabe se menina, ainda, ou espantosamente mulher, aos três ou quatro anos! Gente, isso não é possível, é preciso fazer algo, agora!!!

Estacou. Lágrimas lhe desciam pelo queixo, ela era toda a dor da descoberta de uma dor imensa.

Foi quando enxergou, um pouco além, meia dúzia de crianças negras, as invisíveis crianças da rua, por quem jamais se chora, as negras crianças de sempre, pela rua. Parte da paisagem.

E horrorizou-se, ao descobrir-se enfim racista, as lágrimas sinceramente hipócritas.
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Um articulista mais apressado terminaria isto afirmando ser o combate ao anti-semitismo e ao racismo apenas o resgate de uma dívida histórica da nossa civilização. Além de significar uma recusa veemente de toda hipocrisia.

Miguel Fernandes