Por exemplo, quando ele passa batido pela homofobia militante do radicalismo muçulmano, não compreende como um pode um gay francês votar na direita conservadora da França, justamente o setor mais preocupado com o avanço do integrismo muçulmano na Europa. Igualmente, ao conceber a homossexualidade como uma “categoria” (sem aspas), surpreende-se com o fato de um gay rejeitar o comportamento espalhafatoso de outro.
Adriano tropeça:
“O mundo está cheio de negros que espancam mulheres, mulheres que espancam crianças, judeus que desejam uma solução final para a questão palestina.”
Eu não sei quanto “cheio de negros” o mundo está. Existem muitos negros no mundo, é preciso pesquisar o percentual. É óbvio, no entanto, que o nosso mundo está realmente “cheio de mulheres”, isto é, há muitas. Negras, brancas, judias, árabes, francesas. E homossexuais. Condições não excludentes, condições cumulativas, é bom não esquecer. O simplismo mata.
Sem tocar no duvidoso mérito da negritude e da feminilidade segundo a cartilha do simplismo, é preciso tirar do caminho uma pedrinha que a voracidade de generalização do Adriano colocou. O mundo não está cheio de judeus, em absoluto. Nem bonzinhos nem mauzinhos, nem simpáticos nem antipáticos. O mundo simplesmente não está cheio de judeus. Ponto.
Se houver 13, 14 milhões de judeus num planeta habitado por 6,5 bilhões de seres humanos, será muito. Os judeus não são sequer 0,2 por cento da humanidade. O mundo não está “cheio de judeus”. Até porque a terça parte deles foi destruída pelos nazistas, em escala industrial, poucas décadas atrás.
Numa condição judaica da qual o mundo vai longe de “estar cheio”, o percentual de doentes mentais dispostos a matar palestinos a rodo não chega, de longe, a um por cento. Nem a 0,1% chegará. Estaremos falando de 0,01, entramos na fração infinitesimal do que já de si é infinitesimal fração.
Isto, não esqueçamos, num contexto de declarações diárias de um certo exterminacionismo radical, nos meios de comunicação palestinos e árabes. Isto, não esqueçamos, no meio de uma guerra anti-judaica no Oriente Médio que vai completar não 60, mas cem anos. Uma guerra que precede em muito a formalização do Estado de Israel, uma guerra em que sobressaíram tristes episódios nos anos 1920, 30, 40, 50, 60, 70, 80 etc. É espantoso que um percentual tão pequeno de judeus tenha se tornado doente mental, é realmente espantoso que a esmagadora maioria do povo judeu, em Israel e na Diáspora — conserve serenidade de espírito na abordagem de uma história tão dura, tão encharcada de sangue judeu.
Pegue-se menos de 0,2 % da Humanidade — isto é, todos os judeus. Extraia-se 0,01 % dessa insignificância, e teremos o que o Adriano Silva, na sua competência jornalística, define como o “mundo cheio de judeus que desejam uma solução final para os palestinos”.
Que deseja Adriano Silva? Fazer-nos imaginar um mundo cheio de judeus genocidas? É isso? Desejará um atiçamento desses ódios antijudaicos, tantas vezes explosivos, incendiários, homicidas, de que — estes sim — o mundo anda cheio?
Será que Adriano Silva escreve sem pensar ou será que ele pensa demasiadamente, numa direção que me horroriza?

Miguel Fernandes