Não somos cordeiros, mas que os lobos tentam nos devorar, tentam. Eles estão uivando nas colinas da rede Globo, nos artigos dos intelectuais defensores desta democracia na qual transitam – eles e os lobos – como se a desigualdade racial fosse fruto da indolência, da incapacidade e da falta de iniciativa. As estatísticas eles contestam com suspeitas de forte manipulação. As leis, como se elas fossem beneplácito espúrio “concedido” na calada da noite. Aos fatos, reagem com olhos e ouvidos fechados.
Um conceito simplista de racismo sugere que ele é uma convicção com a qual se julga que a capacidade do outro é determinada por uma raça ou grupo étnico e este julgamento manifesta-se através da discriminação, da violência ou abuso verbal. Gobineau defendeu que a raça ariana era a raça superior, apesar de algumas impurezas da miscigenação com algumas raças. Hitler aprimorou o conceito e exterminou o que considerava a origem das “impurezas”: judeus, negros, muçulmanos, ciganos, etc… e também reservou no seu inferno um lugar para os “doentes”: homossexuais e deficientes físicos.
O que vem acirrando cada vez mais os hoje sofisticados arautos do arianismo, ou, benevolamente, da miscigenação, é perceberem que a formação de uma identidade afro-brasileira vem sendo construída há décadas e que o seu fortalecimento combaterá efetivamente o racismo e a desigualdade não só racial na sociedade brasileira. Este é o pavor. Por isto, deram uma trégua no combate às cotas universitárias para negros e agora uivam para o direito dos remanescentes de quilombos.
O mais recente combatente de Gobineau, o Doutor Denis Lerrer Rosenfield, num artigo escrito para o jornal O Globo, em julho passado, discorre sobre o conflito da Marambaia, defendendo o direito da Marinha afirmando sobre a área que “A União a comprou por 95 contos de réis em 1905 e a transferiu para a Marinha em 1906. O seu título de propriedade remonta à fazenda do Comendador Breves, tudo estando devidamente documentado”
Não fosse o ilustre filósofo pessoa bem informada, eu imaginaria que há ignorância e desconhecimento sobre a Lei de Terras de 1850, que alijou previamente os escravos libertos 33 anos após de terem acesso à terra, pelo simples fato de que para ser dono de terras era necessário ser alfabetizado, além de outros quesitos que os “libertos” não preenchiam. Assim, os que ocupavam ancestralmente a ilha da Marambaia foram atropelados pelo título legal dado à Marinha em 1905. Legal sim, mas ilegítimo. O filósofo argumenta ainda que antes não havia conflito racial na ilha! Ou seja, o conflito, para ele, se dá apenas a partir do momento em que os que ali viveram excluídos do domínio da sua terra reivindicarem seu direito “armados” da Constituição Federal.
Sendo porém nosso filósofo articulista regular de um site que se solidariza com o Coronel Ulstra, torturador contumaz, e que tem como epígrafe uma frase do General Walter Pires (http://www.ternuma.com.br/index.htm) não há inocência ou ignorância a relevar.
Os lobos estão uivando e como não somos cordeiros, não devemos balir.
Axé, companheiros.

Maria Adelina Braglia