O que é mais grave é que a mídia mundial, sob o comando e patrocínio dos EUA – com algumas poucas e raras exceções – ratifique a versão da CIA e dos homens do SEALS, o comando especial da Marinha, que não conseguem se sustentar nem com a ausência de contraditório.
Tudo o que se sabe até o momento da Operação “Gerônimo” foi dito e desdito pelo serviço secreto americano. Não há outra versão. O mundo está sendo obrigado a acreditar na única, ou nas várias versões, apresentadas pela mesma fonte, num evidente estupro dos princípios mais comezinhos do bom Jornalismo e do direito à informação.
Para quem acompanha o noticiário, vamos às contradições explícitas na cambaleante versão da CIA:
1 – Osama Bin Laden estava armado e foi morto numa troca de tiros, em que teria usado uma mulher como escudo.
Percebe-se aí, claramente, primeiro, a tentativa de justificar o assassinato de um homem que – mesmo considerado o terrorista mais procurado do mundo – tinha como todos têm, o direito de ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), que para isso foi criado. E depois de apresentá-lo como alguém que usou uma mulher para se defender, numa tentativa óbvia de reforçar a visão de um covarde, sob a ótica machista.
2 – Tal versão não se sustentou, nem por 24 horas, porque logo em seguida, os mesmos porta-vozes de Obama admitiram que Bin Laden estava desarmado e, portanto, foi executado. Se estava desarmado, não poderia ter usado quem quer que fosse como escudo. Não houve troca de tiros, portanto, houve uma execução, pura e simplesmente.
A recusa de mostrar imagens do morto, a versão de que foi atirado ao mar, “após cerimônias fúnebres”, a recusa de exibição de imagens e fotos da Operação, sob o argumento de que Bin Laden ” não é um troféu”, são apenas evasivas para evitar mais contradições.
3 – a escolha de Gerônimo para nome da Operação reforça que Barack Obama, na condição de Comandante em Chefe das Forças Armadas Americanas, não se dignou a rejeitar estereótipos racistas contra as populações indígenas americanas.
Gerônimo, morto em 1.909, com 90 anos, em Fort Sill, Oklahoma, foi um guerrilheiro Apache, que combateu o Exército americano. Considerado um herói pelo seu povo, permaneceu durante 20 anos preso pelo Exército, depois de não ver cumpridas as promessas de devolução da terra Apache.
Protestos indígenas
Harlyn Gerônimo, um ex-combatente do Vietnã e bisneto de Gerônimo, considerou o uso do nome da Operação “um insulto”. “Batizar uma operação para eliminar ou capturar Osama bin Laden com o nome Geronimo é uma distorção da história que é difamante para um chefe ameríndio e um grande ser humano”, acrescentou.
O protesto também foi reforçado por organizações indígenas que querem explicações de Obama sobre como conseguiu chegar a “uma utilização tão indigna do nome de um herói Apache” e criticam o uso de estereótipos racistas e as populações autóctones”.
Segundo Loretta Tuell, assessora chefe do Comitê de Assuntos Indígenas do Senado, “o emprego impróprio de ícones da cultura indígena é muito comum em nossa sociedade e suas conseqüências sobre o espírito das crianças indígenas e não indígenas é devastadora”.
O Comitê já denunciou durante audiência no Congresso “a associação entre o nome de Geronimo, considerado um grande herói ameríndio, e o mais odiado dos inimigos dos Estados Unidos”, afirmou Loretta Tuell, em declaração transmitida à AFP.
Protesto idêntico foi feito pelo Congresso Nacional dos Índios Americanos (NCAI), a maior organização representativa dos povos indígenas. “Associar um guerreiro índio a Bin Laden não é uma atitude justa para com a história, além de minimizar o sacrifício dos ameríndios engajados em nossas tropas”, protestou em comunicado Jefferson Keel, presidente do NCAI. Ele lembrou que 77 ameríndios morreram em combate e 400 sofrem ferimentos no Iraque e no Afeganistão, desde 2001.
O que a mídia mundial recusa-se a admitir é que os EUA violaram a soberania de um país – no caso, o Paquistão – e o Direito Internacional, no caso da execução de Bin Laden.
Não se discute aqui, o grau de perigo representado pelo chefe da Al Qaeda, nem sua participação nos atentados contra alvos americanos, em especial, na queda das Torres Gêmeas, no 11 de setembro de 2001.
Todos somos pelo combate ao terrorismo, mas é preciso que se saiba, o que os EUA chamam de terrorismo, pois a tal operação também pode ser classificada como tal, além dos casos notórios em que esse país assumiu operações terroristas, inclusive na América Latina, com a participação na derrubada do presidente Salvador Allende, no Chile, em 11 de setembro de 1.973, e também no Brasil, com a comprovada participação da CIA na derrubada de João Goulart, presidente constitucionalmente eleito, e no apoio à ditadura militar brasileira.
Em respeito ao Direito Internacional, Osama Bin Laden deveria ter sido capturado e entregue ao Tribunal Penal Internacional (TPI) para ser julgado. Jamais eliminado, como foi, em especial, se não apresentou – como admitem os EUA – qualquer resistência. Ao fazê-lo, Obama – que segundo fotos distribuídas pelo Pentágono, na “Situation Room” – acompanhou pessoalmente a Operação, nada mais fez, do que regredir séculos de civilização: fez o Direito retornar à Lei do Talião, do olho por olho.
O direito ao contraditório, à ampla defesa, o Direito do Fato e não do Autor, são conquistas da civilização, que Obama botou por terra, ao continuar a prática conhecida da potência imperial de assassinatos seletivos pelo mundo.
Dois pesos e duas medidas
Ora, se os carniceiros de Auschwitz e os chefes nazistas dos mais 20 mil campos de concentração – responsáveis pelo assasinato de 6 milhões de judeus, negros e ciganos – tiveram julgamento, onde puderam se defender como manda a Lei e o Direito – recebendo posteriormente as penas devidas, inclusive, a morte ou prisão perpétua – porque razão pode-se admitir que a maior potência militar do Planeta tenha agora comandos para executar adversários, corroborando a prática de assassinatos seletivos, condenada pela ONU?
O que fez Obama foi exatamente, o que fariam qualquer dos Bush ou qualquer presidente americano: não perdeu a oportunidade de retornar a lógica da arrogância de donos do mundo, de quem tudo pode, e de quem simplesmente não respeita e viola sistematicamente o Direito Internacional.
E pior, aproveitou a execução de Bin Laden, como faria qualquer político conservador: tenta recuperar a popularidade perdida, transformando-a num troféu, de olho na reeleição no ano que vem. O comportamento do primeiro presidente negro americano, nesse caso, não foge a lógica dos EUA como potência imperial.
Mimetismo interesseiro
Não é sem tempo, portanto, que os negros brasileiros percam as ilusões que alguns setores, especialmente os ligados a ONG´s que recebem apoio de Fundações e ou Governo norte-americanos, têm cultivado quanto ao seu verdadeiro papel.
Seria, igualmente, importante, que abandonassem a ilusão nos símbolos: ora, não é porque é negro que Obama passou a representar o “bem”, tornou-se “um dos nossos” na Casa Branca. Trata-se de uma visão distorcida, despolitizada e reacionária.
Ninguém se torna padrão de virtude, apenas pela cor da pele. Esse reducionismo obtuso tem caracterizado o atraso político, o conservadorismo de certos setores do movimento negro brasileiro.
Seria igualmente conveniente que parassem de mimetizar as propostas do movimento negro norte-americano, e de iniciativas com a chancela do Governo dos EUA. Também, neste caso, convém rejeitar a afirmação conhecida de Juracy Magalhães, um dos chefes do golpe militar de 1.964, para quem “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.
No caso dos negros brasileiros, seria conveniente ter presente mais: que nem tudo o que é bom e correto par aos negros norte-americanos, é bom para os negros brasileiros, inclusive porque, enfrentamos formas de racismo diferenciadas, somos povos distintos, cujos antepassados vieram da mesma África, porém, de partes, de culturas e com vivências totalmente distintas.
Assim, alguns parariam de ver em Obama algum redentor dos negros do mundo. Barack Obama é apenas o que aparenta: um negro educado em Harvard, que se associou ao sistema de poder norte-americano – sem o qual ninguém chega à Casa Branca – para manter os seus interesses de potência imperial.
Só, e apenas isso.