Na sua imensa maioria quem morre nessas circunstâncias são os negros Segundo o Datasus, a taxa de mortalidade por arma de fogo, não está “democraticamente” distribuída: 58,6 em cada 100 mil são negros e pardos (30,1 de negros, 28,5 de pardos) contra 16,6 de brancos.
Também de acordo com levantamento da Diretoria de Estudos Sociais (Disoc) do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), em estudos preliminares sobre dados do Ministério da Saúde e Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar – PNAD – do IBGE, são os negros que morrem mais.
Nas regiões metropolitanas os números são altíssimos, porém, Recife, São Paulo e Brasília, pela ordem, se destacam como as cidades onde morrem mais negros vítimas de homicídios para cada 100 mil habitantes. Em Recife, 102,3 em cada 100 mil são assassinados, contra 15,5 de brancos; em S. Paulo, 70 negros são mortos contra 42,6 de brancos; e no Distrito Federal, 61,5 contra 11,7 brancos.
Por isso que no debate em torno do Plebiscito em que a população irá às urnas para decidir pelo “SIM” ou “Não” ao comércio de armas de fogo, está faltando uma posição: a da população negra, a maior vítima da mortandade.
No debate, como ficou demonstrado em encontro recente promovido em S. Paulo pelo Conselho da Comunidade Negra do Estado, as posições contra e a favor – uma defendida por um coronel aposentado da PM e outra pelo “Instituto Sou da Paz” – acabam por mascarar um dado relevante: quem são, de fato, as vítimas.
De um lado, setores da classe média urbana incluída levantam a bandeira da paz, de forma abstrata e festiva para defender o desarmamento. Nem de longe, porém, se dispõe a discutir as causas da guerra e quem é a parcela mais atingida, alvo das chacinas que só aparecem nos jornais quando o número de vítimas passa dos dois dígitos. Para esses setores, muito influenciados pelos traumas de crimes dos quais foram vítimas e pelo apelo da TV, o desarmamento representaria “Paz”.
De outro lado, setores também de classe média, que defendem a mão dura do estado contra o crime e o direito à auto-defesa dos cidadãos tendem a defesa do “Não” ao desarmamento. A solução militar – partida do Estado e dos cidadãos – seria o modo mais adequado para enfrentar a violência crescente, em especial, nas periferias. A defesa do lobby da indústria de armas é conseqüência de quem acha que a solução para o problema está na militarização da vida.
A população negra deve defender o desarmamento e, portanto, votar “SIM”, nem por uma razão nem por outra, mas porque é a vítima dessa combinação igualmente explosiva e letal: de um lado, um Estado racista que a abandona à própria sorte e se ausenta quando deveria cuidar de sua segurança; de outro o arsenal clandestino que circula – parte nas mãos dos fora da lei – criando a ilusão de auto-defesa. É este armamento – cerca de 17,5 milhões de armas, 90% nas mãos de civis – que frequentemente é usado contra quem, pretensamente o guarda para se defender, o que explica onde estão e quem são as vítimas da guerra civil.