Direto para casa. Liguei o rádio, a TV, o computador, tudo ao mesmo tempo. Deveria haver algo. Alguma menção ao fato. Mas tudo corria com as notícias corriqueiras. Na internet pude constatar melhor a foto e a matéria sobre a polícia investindo no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. Fora isso, todas as outras notícias eram conforme sempre. E eu achando tudo muito estranho!
O que teria acontecido com a imprensa? Com as pessoas? Ninguém comentava nada, nem nas listas de interação, nem nas páginas do Orkut, nada!
Quando a Ministra Matilde Ribeiro deu entrevista à BBC de Londres declarando nada mais do que a nua e crua realidade do racismo no Brasil, foram muitas as vozes que se levantaram tendo a imprensa como a grande aliada nesse grito. Toda a imprensa (de papel, de ouvido, de ver, de faz-de-conta) ajudando na grita. Para eles e elas, a Ministra (negra, por sinal) estava incitando o ódio racial entre negros e brancos. Segundo eles, uma coisa absurda num país com uma convivência tão equilibrada onde as porcentagens das pesquisas mostram muito bem (segundo eles, novamente) a harmonia da convivência brasileira.
E, com o dia quase terminando, continuo atônita! Ontem, a Ministra Marta Suplicy disse que os passageiros dos aeroportos deveriam, enquanto esperam horas para viajar, “relaxar e gozar”. E além da nota de desculpas e as caras de risos dos repórteres das TV, a imprensa não diz mais nada? Então eu pergunto se a Ministra (sexóloga, por sinal) estaria incitando o turismo sexual!
Absurdo o meu pensamento, como foi absurdo todo o discurso da mídia contra a ministra negra! Mas porque ninguém diz nada a respeito da “gafe” da ministra branca? A sexóloga cometeu uma gafe. A negra deveria (segundo eles) ser chamada a atenção pelo Presidente da República. Teve gente que chegou a falar em demissão da ministra negra! Pois eu cheguei a pensar na necessidade da demissão da ministra branca. Afinal, a imprensa noticiou fartamente, na ocasião, sobre o ministério “passa tempo” que foi dado à senhora Marta Suplicy por dois anos, até que venham as próximas eleições.
Mas mesmo para um emprego temporário, algumas regras básicas são necessárias: no caso do Ministério do Turismo é saber qual a definição de turismo e o que é o turismo no Brasil, pelo menos.
Para a ministra que não sabe, turismo não é sinônimo de passeio, de lazer. Turismo é sinônimo de deslocamento. Quando viajamos a serviço, estamos fazendo turismo. E o turismo no Brasil (o grosso do vai-e-vem de avião, para lá e para cá) é de turismo de negócio, quer dizer de trabalho! Parece que dá justa causa relaxar e gozar durante o expediente, ou será que já pode?
E já que a imprensa não disse nada, parece que pode.
Oxalá chegue o dia em que tenhamos, inclusive a imprensa, um único peso e uma única medida como parâmetro. Enquanto isso não chega, uma salva às mídias alternativas. Salve Palavra Sinistra! Salve MammaPress! Salve AfroPress!

Ana Maria Felipe