As informações brutas da POF – Pesquisa de Orçamentos Familiares 2003-2003, sobre a média mensal brasileira de despesas e renda segundo cor, indicam que a guerra está instalada há séculos. Provavelmente desde 1537, quando o primeiro navio negreiro aportou por aqui.
A essência do racismo e da discriminação, que era clara no passado, está hoje embutida, submersa nas condições de trabalho e renda da população brasileira, de acordo com sua raça ou cor. Isso faz mal no presente, contamina o futuro. E, é muito grave quando tantos reagem tão mal ao reconhecimento disto.
Ou duvida-se que o anúncio do jornal “O Planeta”, de 1850, resgatado pelo Professor Vicente Sales no livro “O negro no Pará” – “Vende-se um preto de nação, bom cozinheiro, pela quantia de 400$000 réis; ao comprador se dirá o motivo da venda; trata-se na Rua do Açougue …” – passados mais de século e meio, faz a iniqüidade do presente remontar à “liberdade” tardia e desumana, sem direito à terra, ao trabalho e à educação como origens das diferenças de rendimentos entre brancos e negros no Brasil de hoje? Que a venda de pretos, apenas sofistica-se hoje pelo avesso, quando se compra mão-de-obra “negra” a um custo mais aviltante que o da mão-de-obra “branca”, mesmo com a mesma experiência, escolaridade e qualificação?
Os resultados da POF confirmam que os descendentes dos pretos de nação, quer se auto-identifiquem como pretos ou como pardos, estão sempre em desvantagem, consomem menos e comem pior, se comparados aos brancos. E os defensores da “nossa” igualdade racial não vão dar valor a este argumento. Vão afirmar que o IBGE , só pelo o fato de perguntar a cor do freguês, já é insidioso, incitando à revanche! A POF, esta é solerte! Pergunta tudo, inclusive como é que o cidadão se enxerga no espelho e mostra para o Brasil como é a dura e nada cor-de-rosa – desculpem esta ironia! – a vida da maioria dos afro-brasileiros.
A despesa total média mensal das famílias cujo responsável declarou-se branco foi de R$ 2.262,24, a dos pretos R$ 1.2245,09 e dos pardos R$ 1.232,62. É curioso observar que o desnível não é tão grande nos gastos com alimentação, mas é muito díspar nos gastos com educação. Enquanto brancos gastam R$ 343,24, pretos R$ 248,76 e pardos R$ 259,82 para garantir o alimento da família, com educação é despendido por pretos e pardos quase um terço do que gastam os brancos(R$ 30,17 e R$ 31,13, pretos e pardos e R$ 83,16 os brancos).
A desigualdade racial brasileira tem fundamento.
A desigualdade racial brasileira tem raízes tão fundas que seus frutos apodrecem antes de amadurecer.
A desigualdade racial brasileira sangra a possibilidade de sermos uma nação.
A desigualdade racial brasileira apequena o presente e não nos remete para um futuro melhor.

Maria Adelina Bralia