O primeiro deles, à própria mídia em geral, e à Folha em particular, que nos últimos trinta dias fez editorial virulento contra as cotas e o Estatuto da Igualdade Racial, sendo acusada, inclusive, pelo seu ombudsman, jornalista Marcelo Beraba, de fazer uma cobertura parcial do tema.
A campanha anti-cotas e anti-ações afirmativas, que pretende empurrar com a barriga medidas de reparação à população negra, postergadas nestes 18 anos pós-abolição, é inócua. Os sofrimentos de mais de 350 anos de escravismo e de mais de um século de humilhações e sofrimentos dos nossos antepassados, não nos fizeram perder a memória. Não há técnica de manipulação ou de marketing capaz de apagar estes crimes.
A reparação por séculos de desvantagem sofridos pela população negra é medida de justiça, que está presente nos corações e nas mentes de todos os brasileiros – negros e não negros. Não há sofisma, não há tergiversação, não há ilusionismo capaz de apagar essa verdade que a pesquisa mostra com números eloqüentes.
O segundo recado é ao Governo Lula e a metade branca da sociedade brasileira – os 50% brancos que carregam esta vantagem, numa sociedade em que nascer sem essa cor de pele representa uma desvantagem evidenciada por todos os indicadores.
Ainda é tempo de desarmar a bomba relógio. É possível promover o reencontro do país com a sua identidade multi-étnica; respeitosamente, sem exclusões, respeitando-se as diferenças, sem a ilusão de supremacias – estas sim, fomentadoras e alimentadoras do ódio e das divisões irreconciliáveis.
A tentativa do Governo de praticar ilusionismo trocando “cotas raciais” por “cotas sociais”, tornando letra morta compromissos assumidos, numa versão requentada do “esqueçam o que escrevi”, terá seu preço. Os ideólogos do Planalto, o ministro Tarso Genro à frente, não devem continuar subestimando nossa inteligência, muito menos nossa memória.
O Brasil é de todos. Brancos, negros, indígenas, imigrantes vindos de todas as partes do mundo. Para que o sonho desse Brasil generoso se realize, é preciso acabar com o racismo e com a discriminação que nos torna a nós negros, menos, e que nos reserva papéis subalternos, isso quando não nos remete ao espaço da invisibilidade como sina.
As diferenças não nos fazem menos. Podem nos fazer mais, na medida em que nos respeitemos e a valorizemos como solução, não como problema.
Para que isso aconteça há uma condição: a erradicação de toda o tipo de racismo e de exclusão; o abandono dos sonhos do colonizador que por séculos pretendeu submeter pela violência povos e culturas, colocando-as a seu serviço.
O terceiro recado eloqüente que a pesquisa Datafolha manda é a certas lideranças negras que, por conveniência, oportunismo ou as duas coisas juntas, pretendem se fazer porta-vozes de todo o povo negro, sem que tenham para isso procuração. São os do time dos “loucos por holofotes”, capazes de se atirar a qualquer aceno, de qualquer governo, até mesmo para negociar a implantação de cotas no prazo de seis anos, participar de consensos oficiais, que depois são simplesmente ignorados, e que depois se recolhem ao conveniente silêncio dos tolos.
A metade autodeclarada negra do Brasil é herdeira de muitos povos e culturas. O Movimento Negro, o mais antigo do país, começa a avançar para a construção de um Programa que nos una em nossa diversidade, da periferia à Academia, sem exclusões, nem ilusões de supremacias de quaisquer tipos. Para além de partidos e de Governos.
Devemos escancarar as pontes de diálogo entre os rappers do Capão Redondo e da Cidade Tiradentes, da Baixada Fluminense e da Rocinha e os acadêmicos negros da USP, da PUC, da UERJ, da UFBA, da UnB. Mas a periferia não aceita mais o papel de apenas objeto de estudos e pesquisas. Os que de nós, furaram a barreira da exclusão, não devem achar que conquistaram o direito de nos analisar de longe, assepticamente, como cientistas em laboratórios.
As ONGS que fazem importantes trabalhos e tocam fundamentais projetos no terceiro setor, não devem cair na ilusão que o legal é viver de projetos, que dão prestígio e visibilidade. Ser negro não pode virar um meio de vida, nem profissão. O negro que se destaca pelo talento e brilho no que faz, não pode achar que o legal é virar um símbolo útil; que pode passar a olhar seus irmãos de cima pra baixo – inocente inútil, tão caro à elite racista que dele se beneficia para o isolar do conjunto, a custa das migalhas efêmeras.
É preciso que os que se autodenominam líderes compreendam que jamais poderão sê-lo, enquanto estiveram sob o comando de partidos dominados pela elite branca – de direita ou de esquerda; ela nunca nos levou em consideração, a não ser quando nos viu como úteis aos seus interesses.
Por fim, a pesquisa Datafolha dá um último recado a nós negros, ao mostrar que apenas 9% dos pesquisados se acham bem informados sobre as cotas e o Estatuto da Igualdade Racial, embora 46% se digam conhecedores do tema.
É hora de abandonar a visão do gueto, que nos isola e fragiliza e botar mãos à obra. É hora de começar um diálogo nacional com a outra metade do país, a metade branca, e explicar a ela, que quando falamos de ações afirmativas e de cotas, os nossos avós, bisavós, tataravôs falam por nós.
Não estamos querendo privilégios. Ao contrário: queremos acabar com eles. Não queremos vantagens: estamos falando de reparação e de justiça – cobrando a dívida por 350 anos de cativeiro e pelos 118 anos de uma abolição que significou apenas mudança de status jurídico, jamais moradia, educação, trabalho.
E acima de tudo: que quando defendemos o fim da supremacia branca na Universidade, no mercado de trabalho, na mídia, não é para afirmar a supremacia negra, mas para afirmar que o que temos de mais importante e precioso e valioso patrimônio, é a diversidade que nos faz melhores e mais ricos em nossas diferenças.
Tomara que saibamos compreender estes recados!