Tarde ou mais cedo, num horizonte de tempo, entre cinco a dez anos, os seus efeitos contagiantes poderiam mesmo alastrar-se para a chamada “África Subsaariana”.
“Não! No meu país isto não seria possível”, disse o meu amigo.
“Mas, porque não?, perguntei. Ao que ele respondeu, simplesmente: “O “modus operandi” das forças de segurança do meu país é diferente das forças de segurança da Tunísia”.
Isto levou-me a uma profunda reflexão: será mesmo verdade que isto não pode acontecer num dos países da África Subsaariana?
A ocorrência de manifestações políticas contra os regimes ditatoriais e corruptos da África subsaariana, à semelhança dos países, como Tunísia e Egito não dependem primáriamente do “modus operandi” das forças de defesa e segurança, mas sim de fatores, como a formação acadêmica e profissional da maioria da população destes mesmos países, assim como do acesso aos meios de comunicação social, entre outros.
Óbviamente, existem também diferenças fundamentais na composição das forças de defesa e segurança entre os países da África do norte e dos seus contemporâneos subsaarianos.
Como ficou latente nas manifestações da Tunísia e Egito, as forças de segurança e o Exército tem demonstrado um alto grau de profissionalismo e civismo, fruto da formação acadêmica e profissional dos seus membros. Daí que o exército e a polícia não saíram a disparar contra os manifestantes.
O mesmo porém, não se pode antever num país da África subsaariana. Porque nestes países, por causa do baixo nível de escolaridade e da baixa formação profissional dos elementos que compõe as forças de segurança e o exército talvez se assistisse a atos de massacres e derramamento de sangue, perpetrados por forças de seguranças destes regimes e não por causa do suposto “modus operandi”, que o meu amigo aludia.
Portanto, independentemente destes fatores subjetivos, é quase um ponto assente que as implicações políticas dos protestos contra os regimes ditatoriais, primeiro na Tunísia e agora no Egito, certamente poderão chegar aos seus irmãos da África Subsaariana. Não importe quanto tardem em chegarem.
As minhas crenças não se baseiam em convicções messiânicas, não. Mas sim, nos fatos que a seguir descrevo.
Vivemos numa era de globalização, em que os agentes reguladores do Estado, são incapazes de controlar os fluxos de informação, dentro e fora das suas fronteiras. O advento da Internet e a dimensão extra-territorial dos órgãos de informação, tornou possível que os eventos localizados num determinado país ou região, sejam transmitidos simultaneamente para os diferentes pontos do globo.
Portanto, o mundo não poderia ficar passivo e indiferente a observar o desenvolvimento dos tumultos políticos nestas regiões do globo.
Último e mais importante: a universalidade dos valores, que são inerentes a todos os seres humanos, independentemente da raça, classe social, cultura, crença filosófica e religião, tais como a Liberdade, Justiça e Igualdade.
Partindo destes pressupostos, posso afirmar inequívocamente que aqueles que pensam que os africanos da África subsaariana não podem emular os seus irmãos do norte, podem estar enganados.
Os protestos na Tunísia tiveram como origem, a morte de um jovem graduado e desempregado, que se incendiou, em sinal de protesto por causa da repressão e maus tratos a que foi submetido por elementos da policia tunisina, quando pretendia, simplesmente, vender os seus legumes e vegetais nas ruas da cidade.
A falta de liberdades fundamentais, práticas ditatoriais, corrupção, somada aos problemas econômicos e sociais graves com que se debatem as populações, em particular, os jovens da África do Norte estão muito bem presentes e em maior escala nos países da África subsaariana.
Os níveis de pobreza, desemprego e a falta de condições básicas, como saneamento, água potável, energia, saúde e educação, são bastante superiores nos países da África subsaariana que nos países do Magreb.
Premissas estas, que por si só seriam suficientes para desencadear manifestações públicas nestes países.
Assim como na maioria dos países do Magreb e do Médio Oriente, na África Subsaariana a maioria dos atuais presidentes estão no poder há mais de duas décadas e os jovens que nasceram no pós-independência não conhecem outro chefe de Estado.
É importante destacar que, os líderes africanos não devem esperar que os ventos que sopram na região do Magreb, cheguem primeiro na região subsaariana para encetarem as reformas políticas, que há muito deveriam ter sido feitas.
Antes pelo contrário, os eventos que assolam atualmente os países do Magreb abrem uma oportunidade histórica para os líderes políticos da África, em geral, assim como em outras regiões do mundo para empreenderem reformas políticas autênticas e abrangentes, e que levem de fato a melhoria das condições de vida e o bem-estar social das suas populações.
Porque os ventos da mudança que hoje sopram na Tunísia e Egito não se restringem a uma região, povo, cultura e raça. Eles sopram para toda a humanidade.
O título original do artigo é “Os ventos da mudança não se restringem a uma região, povo ou raça”.

Pedro Nguvulo