A perda é algo ruim. Perder um relógio, a hora, o ônibus, o emprego, nessa ordem, são fatos desagradáveis, que lá no passar do tempo diminuem de importância bastando reiniciar a roda…comprar o relógio e fazê-lo despertar.
Perder o Oswaldo é indizível. O perdemos, tão seco assim, um ponto final sem direito à réplica? Perdemos Oswaldo para a pandemia. E isso é diferente.

Todos morremos, seja de velhice, de doença, de acidente, de cansaço…morremos bebês, jovens, maduros ou velhos. Mas perder secamente para uma situação surreal é dilacerante: quase 300 mil mortes em um ano!

Que pessoas eram essas, que dores deixaram, o que faziam, como pensavam, como esperavam o melhor da vida? Foram-se homens e mulheres, jovens e velhos (artistas, professores e merendeiras, donas de casa, médicos e enfermeiros, coletores do nosso lixo, pedintes, ilustres e nem tanto), contabilizados em um susto demorado, triturador de sonhos, em leitos de hospitais, em beiras de calçadas, em solidão.

Quem nos deixou foi o Oswaldo! E a morte não pode dizer simplesmente “perdeu”.

Essa asfixia física passou a ser moralmente abjeta a partir do momento em que se tomou da Saúde pública o orçamento devido (desde 2016), que, embora parco, permitiria ao menos um planejamento de “guerra”; se forem aqui registrados os assaltos aos cofres públicos com essa gestão 171, desvio de verbas para afiançar bancadas políticas com cheiro de enxofre, cortes em salários, demissões injustificadas, falta abastecimento de insumos e acenos à planos de saúde privados, seria somente um compêndio com informações. A lista de atrocidades é grande e basta ser um leitor atento e bom ouvinte para entender no que se transformou esse país em mãos cheias de sangue.

Há um ano, nas primeiras 3 mil mortes era a pandemia que varria o mundo, mas depois iniciou-se o dolo, a intenção direta de deixar morrer milhares e milhares de brasileiros, numa competição desleal com os espólios da própria morte.

E chegamos aqui, enterrando malmente nossos mortos, vendo unidades numéricas se transformarem em centenas de milhares de dores, de ausências, de vidas quebradas. Não é possível que fiquemos boquiabertos e apáticos com essa deformação do caráter nacional em cuidar mal de seu povo?

Nosso irmão morreu aos 63 anos; o companheiro amoroso e pai apaixonado nos deixou em um “puf”, no assombro da solidão, na ausência física de seu sorriso e de seu abraço; deixou-nos na orfandade de seu afeto, de seu amor imenso.
Ele foi morto pelo Estado.

Rita Braglia é jornalista, ambientalista, divulgadora das causas indígenas e quilombolas, apoiadora de todos os movimentos solidários de esquerda e irmã de Oswaldo Braglia.

Nota da Redação: O jornalista Oswaldo Braglia Júnior, 63 anos, morreu em Belém na madrugada do último sábado (20/03), vítima da Covid-19.  Ele respondia, desde outubro de 2016, pela J&Cia Norte, noticiário da newsletter Jornalistas &  Cia sobre a Região Norte. Era também gestor de projetos do Instituto Peabiru.

Formado em Economia pelo Mackenzie, de S. Paulo, Braglia atuou no Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos (Dieese), e foi diretor administrativo e comercial do Sindicato dos Jornalistas de S. Paulo durante os anos 1.980 e 1.990. Deixa a mulher Andrea Coelho, a enteada Dione e os filhos Paulo, Pedro e Thiago, do primeiro casamento.