Enquanto ele num chegasse, num tinha que batê. Os tambô do Candombe era usado como tambô africano:eles mandava recado daqui pra lá, pra África. Os veio mesmo viajava neles. Eles falava assim: __ Calunga, me leva pra minha terra! E os tambô levava eles.
Esta e muitas outras narrativas de preceito, recolhidas em comunidades de devotos do Congado em MG são apresentadas por Edimilson de Almeida Pereira, no livro Ouro Preto da Palavra. Aliás, na educação banto-mineira, desde criança a gente aprende que mesmo quem não tem devoção aos santos, deve respeitar os tambores, não pode pôr a mão, tampouco fazer graça, sob pena de despertar a ira dos espíritos que vivem neles. Tambor de Candombe então, nem se fala, a gente assisti a festa de cabeça baixa, pro tambor não se sentir desafiado. Os tambores têm vida, a palavra é força viva e Pereira é um imbondeiro da palavra.
A História oral de Ouro Preto da Palavra transita entre os mitos de reinvenção do sistema escravista e da liberdade que a devoção aos santos (Benedito, Bento, Aparecida, Rosário) proporcionava e uma “historiografia congadeira”, na qual se recria a História. Nesta, não houve Princesa Isabel que assinasse a Lei Áurea, foi São Benedito, com seus milagres de fé e bondade quem pôs fim à escravidão, como nos contou o informante Jair Teodoro de Siqueira.
Deve ser por causa de São Benedito que Pretas e Pretos e Velhos, ancestrais que se manifestam por toda Minas Gerais, cantam variações desta música do Candombe, em louvor a São Benedito:
Pai Benedito num qué
Casca de coco no terrero
Se num foi Benedito
Num acabava o cativero.
OURO PRETO DA PALAVRA – narrativas de preceito do Congado em Minas Gerais.
Edimilson de Almeida Pereira e Núbia P. M. Gomes. Editora PUC Minas, Belo Horizonte, 2003. 128 p., R$20,00.

Cidinha da Silva