Quanto vale a vida de um homem? Em se tratando da carne mais barata no mercado, que é a carne negra, pode valer um milhão de reais, talvez um pouco menos, o mesmo valor pago à título de indenização pela morte de uma cadela, a cadela Manchinha, em novembro de 2.018, em S. Paulo.

Pelo menos esta é a lógica que pautou o Grupo Carrefour Brasil, ao propor R$ 1,1 milhão de indenização à Milena Freitas, viúva do soldador Beto Freitas, morto, após ser brutalmente espancado por seguranças, um dos quais pertencente a Brigada Militar gaúcha, em 19 de novembro de 2.020 – véspera do Dia Nacional da Consciência Negra.

O Grupo, que teve no ano passado um faturamento líquido de 2,76 bilhões, ao oferecer pela morte de Beto Freitas, menos do que pagou pela cadela Manchinha, num Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado com o Ministério Público de S. Paulo, tomou outras iniciativas ousadas, para quem preferir não ver em tais iniciativas as marcas do cinismo e da desfaçatez mais despudoradas.

Fez o depósito de R$ 1 milhão em consignação para a viúva, rompendo o diálogo com os advogados que a defendiam, e um depósito de mais R$ 100 mil diretamente na sua conta, à título (pasmem!) de “doação”.

Mais: desencadeou uma campanha covarde contra os advogados Carlos Barata e Hamilton Ribeiro, tentando jogar a opinião pública contra eles, sob a falsa acusação de pretenderem honorários além dos fixados nas tabelas da OAB do Rio Grande do Sul; e se apropriou da memória do morto.

Sob o lema “João Alberto não será esquecido”, em peças publicitárias que ocupam o horário nobre na principal rede de TV – a TV Globo -, o Carrefour lembra o assassinato covarde, a que chama de “tragédia”, como se nada tivesse a ver com isso e como se as cenas brutais que lembraram o assassinato de George Floyd, nos EUA, não tivessem sido protagonizadas por funcionários seus e prepostos na loja do bairro Passo D’Areia, em Porto Alegre, subordinados à sua cadeia de comando.

Depois de lembrar de chamar a morte de Beto Freitas “ato brutal”, a empresa tenta defender-se alegando que o mesmo “não representa e nem condiz com os valores do Carrefour”, e adverte que a morte “deve ser lembrada, para que possa evoluir como empresa e contribuir para o combate ao racismo estrutural no Brasil”.

A campanha publicitária é mais uma peça clássica do cinismo, elevada agora ao seu mais alto grau. Observe-se que a ofensiva se dá no momento em que, além de humilhar a pobre viúva, impedida de socorrer o marido à morte, desrespeita, difama, injuria e agride seus defensores, e a constrange e expõe irresponsavelmente a risco: relatam os doutores Barata e Ribeiro que, no dia seguinte a divulgação pelos meios de comunicação do depósito e da “generosa” oferta, Milena passou a ser assediada por pessoas da comunidade em busca de empréstimos e doações, já que passara a figurar na lista de milionária.

A promessa do Carrefour de Tolerância Zero com o Racismo, não pode ser levada a sério, pois omite deliberadamente que o caso Beto Freitas é mais um de uma série interminável, que começou a ganhar repercussão na mídia com o ocorrido com o vigilante da USP, Januário Alves de Santana, tomado por suspeito do roubo do próprio carro, um EcoSport, em agosto de 2.009.

Januário, torturado por mais de 30 minutos por seis seguranças, recebeu à época, na esfera cível, uma indenização considerada satisfatória pela família. Do Estado, porém, não teve a mesma sorte: seus algozes foram todos absolvidos pela cega justiça brasileira, a despeito das fartas provas da materialidade e da autoria dos crimes de tortura motivada por discriminação racial. Na ocasião, medidas também foram anunciadas como parte de uma nova Política de Diversidade, para que acontecimentos do tipo jamais se repetissem.

A política de Diversidade Carrefour, contudo, tem um limite: a parceria com o mercado das empresas de segurança, na sua maioria controladas por militares oriundos do aparato repressivo da ditadura e pessoal de órgãos de segurança.

Com esse lucrativo mercado que faz as vezes de uma espécie de polícia particular de empresas como o Carrefour, responsável pela “segurança nos espaços semi-públicos”, é até possível entender quais os interesses em jogo: ambos são sócios em lucros bilionários crescentes, ano após ano.

O que não é possível entender é porque celebridades negras do ramo dos negócios, do empreendedorismo e da academia aceitam participar do novo esforço de marketing do Carrefour, na condição de integrantes de um autoproclamado Comitê de Diversidade constituído pela empresa; cabe ao dito Comitê sugerir medidas para o uso dos R$ 40 milhões do Fundo de Diversidade e Combate à Discriminação Racial, que se destinaria a “ações de impacto na sociedade”.

Para que nossa memória não se turve, nem algum dia venhamos a esquecer, eis os nomes dos parceiros do Carrefour no Comitê formado às pressas, quando o cadáver de Beto Freitas nem havia esfriado, num esforço da empresa para conter a hemorragia no valor das ações e a perda do equivalente a R$ 2,2 bilhões em valores de mercado. São eles: Rachel Maia, Adriana Barbosa, Celso Athayde, Silvio Almeida, Anna Karla da Silva Pereira, Mariana Ferreira dos Santos, Maurício Pestana, Renato Meirelles e Ricardo Salles.

Todos nomeados e escolhidos a dedo na esteira da morte, para conter a sangria da perda de valores nas ações, nas Bolsas de S. Paulo e de Paris. Pelo menos, neste aspecto, o objetivo foi atingido com folga: graças a prestimosa ação dos negros “parças” do Carrefour, em janeiro deste ano, as ações da companhia voltaram ao valor de R$ 20,36, um pouco acima do valor de R$ 20,29, para o qual estavam cotadas no dia da morte de Beto Freitas. Com a alta, o valor o Carrefour voltou a R$ 40,4 bilhões, maior patamar desde o caso.

Curiosamente, a solidariedade e parceria que sobrou ao Carrefour por parte de tais negros, faltou no caso da viúva. Para tais lideranças, o caso da indenização da viúva de Beto Freitas  é “assunto privado”; o público nesse caso, diz respeito apenas aos que, sem qualquer procuração de quem quer que seja, tem acesso e se beneficiam das ações de marketing desencadeadas pela empresa para reduzir os danos à imagem na morte de Beto Freitas.

Na nova investida, o Carrefour tampouco inova: apenas repete o treinamento feito em dezembro de 2009, após a indenização do vigilante, agora, com maior produção, mais dinheiro e, claro, com a participação de Silvio Almeida, divulgador na Academia do conceito de “racismo estrutural” (sic), repetido à exaustão, conceito que só não é mais velho do que andar para a frente. Não custa lembrar que Almeida pode alegar tudo, menos ignorância a respeito das práticas da segurança privada do Carrefour: ele é um dos subscritores do acordo extrajudicial assinado por Januário, no dia 12 de novembro de 2.009.

O surpreendente e mesmo revelador é que, na nova campanha do Carrefour tocada ao peso dos R$ 40 milhões permanece intocado o verdadeiro centro do problema, e que explica porque, de forma tão recorrente, quase cotidiana, pessoas negras continuam sendo alvo de abordagens humilhantes, violências e até mortes: a relação de promiscuidade com as empresas privadas de segurança.

É disso que se trata, mas esse tema, claro, convém ser deixado de lado em nome deste pacto de cúmplices entre uma empresa que lucra bilhões como o Carrefour e seu “racismo estrutural”, e negros que descobrem na morte de um dos nossos, a oportunidades de novos negócios.