Na entrevista, concedida em S. Paulo, com exclusividade ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, Zulu Araújo falou do trabalho de reestruturação na Fundação, dos avanços do Brasil nas políticas de ação afirmativa, nas conquistas das comunidades quilombolas e das relações com os países africanos e com a América Latina, que disse ser “a menina dos olhos” de sua gestão.
Relações com países africanos
“O Brasil tem hoje relações com o continente africano como jamais teve em toda a sua história. É bom para o Brasil e bom para o continente africano. É bom para o Brasil que se reconheça a sua parte negra, a sua parte africana e consequentemente adote as medidas necessárias para valorizar a nossa origem e os afro-brasileiros; e é bom para o continente africano que vê no Brasil, um país emergente, considerado do terceiro, mas pujante na economia mundial, vê no Brasil um parceiro capaz de poder ajudá-los de poder contribuir para que o renascimento africano ocorra, de fato, no menor espaço de tempo possível”.
Relações com os Afro-Latinos
“Apesar de uma presença forte na relação com o continente africano, com o movimento negro norte-americano, nós éramos e somos carentes na nossa relação com os nossos vizinhos, com os nossos irmãos. É clássico dizer que nós vivemos de costas para a América Latina. Somos 153 milhões de afrodescendentes, na América Latina, 90 milhões no Brasil; 26% da população colombiana, por exemplo. É preciso que agente se solidarize que compartilhe com os nossos irmãos da América latina. Nós temos podido fazer isso, ainda com uma certa precariedade. O Observatório Afrolatino, no I Encontro de Ministros da Cultura no qual foi discutido uma política pública de cultura para os afrodescendentes na América Latina, é um exemplo. O Mapeamento das manifestações culturais de origem negra (por exemplo, o Palenque San Basilio, em Cartagena, desde 1.517, o Quilombo mais antigo das Américas, patrimônio cultural da humanidade, 4 mil habitantes. Muito antes de Palmares, mais de 100 anos antes de Palmares. Benkos Bioho, o Zumbi colombiano) é outro que mostra que a relação com os latino-americanos, foi intensificada”.
Ações Afirmativas e cotas
“Nós temos um conjunto de ações afirmativas que mostram claramente para fora do Brasil, não apenas a vontade política do governo brasileiro, mas mostram conquistas. Vou citar duas delas. No Plano Educacional, com as cotas nos últimos 5 anos nós conseguimos colocar na Universidade Pública brasileira, 254.200 mil jovens afro-descendentes. Isso é mais do que entrou em toda a história do Brasil na universidade pública brasileira. Se você pegar, de 1.809, quando foi criada a primeira faculdade lá no Estado da Bahia, de lá até o ano de 2003, você não encontra um número que se equipare a esses 254 mil nos últimos cinco anos. O que prova que todas as críticas que tem sido feitas as políticas de ação afirmativa, notadamente a política de cotas, é porque nós acertamos, não é porque nós erramos. Nós temos sido criticados pelos nossos acertos. E os nossos acertos significam redução de privilégios, significam pluralidade étnica na universidade brasileira; os nossos acertos significam a possibilidade de uma parcela da população alcançar o poder real”.
Quilombolas
“De outro lado, nós temos na área rural. O reconhecimento das comunidades remanescentes de quilombos, 1.332 comunidades reconhecidas possibilitou – não apenas o lado simbólico, (os quilombolas chegam, no máximo, a 3 milhões), o que ficou ressaltado é que, além do lado simbólico, há possibilidade real de se fazer justiça no campo. De podermos fazer com que o território brasileiro seja utilizado por aqueles que nele verdadeiramente trabalham. E essa possibilidade assustou um outro setor extremamente conservador da sociedade brasileira que são os latifundiários. Aliás é quase um tabu se falar em democratização da terra no Brasil é um tabu. É um tabu que consegue fazer com que estruturas do século XVIII e século XIX perdurem no Brasil do século XXI. Esses dois aspectos só já são referências extremamente positivas para a nossa América Latina, onde as comunidades negras vivem em situação tão drástica tão lamentável quanto as comunidades negras vivem no Brasil”.
Movimento Negro
Eu acho que a sociedade como um todo amadureceu bastante. Aos trancos e barrancos, nós conseguimos consolidar um conjunto de conquistas e vitórias que dão hoje um certo patamar e uma certa segurança para que a gente possa avançar.
Mas para avançar é preciso que se reconheça que o quadro que nós encontramos hoje não é o mesmo de 30 anos atrás. Se não, não vamos conseguir formular corretamente nossas políticas daqui prá frente.
Há uma necessidade da gente retomar as nossas alianças no plano da política. A questão racial brasileira saiu do plano emocional, saiu do plano da sensibilidade, saiu do plano da justiça enquanto um dado antropológico.
Os nossos avanços, a nossa organização, a ocupação de espaços que nós fizemos, colocou a questão racial brasileira no campo da política, e no campo da política vence quem tem mais aliança e quem tem mais força. Essa é uma realidade. Como nós somos democratas e não acreditamos que seja a força bruta o instrumento capaz de fazer valer as nossas vontades, nós temos que fazer valer então os nossos convencimentos e para que a agente possa convencer a sociedade brasileira de que as nossas políticas estão corretas, que precisam ser ampliadas, que são boas para o país e não para a comunidade negra apenas. Ou seja, combater o racismo é bom para o Brasil como um todo. Ter mais negros na Universidade é bom para o Brasil como um todo, amplia o leque o cardápio de talentos, em qualquer área na economia, na cultura, na matemática, na engenharia, na arquitetura, na educação, em qualquer área, isso é bom para o crescimento do país.
Para que agente possa efetivar essas políticas, possa consolidar definitivamente essas políticas, nós vamos ter que também fazer política e fazer política significa agente saber fazer alianças também.
Nós temos que saber articular o Movimento Negro, articular a sociedade brasileira para fazer frente aos setores conservadores. Então nós temos que ter uma agenda comum.Temos que ter uma agenda política comum que consiga formar um bloco amplo, democrático, sólido para que as políticas implementadas no Governo Lula sejam políticas de Estado e não mais políticas de Governo. Volto a dizer: nós vamos ter de nos aliançar com os setores progressistas da sociedade brasileira, com os setores anti-racistas da sociedade brasileira, e aí eu tenho de deixar muito claro: não dá prá ser racialista. A cor da pele, nesse aspecto, não pode ser o principal móvel da nossa mobilização e da nossa organização. O principal móvel tem que ser a política de combate ao racismo e na política de combate ao racismo cabem todas aqueles que sejam anti-racistas.
Eu acho que essa briga agente não ganha sozinho. E sabe porque? Porque essa política racista não foi formulada apenas por um pequeno grupo, ela foi formulada por um pequeno grupo, mas foi implementada durante quatrocentos e tantos anos de tal forma que ela terminou sendo internalizada em vários setores da sociedade brasileira, até mesmo em alguns setores da nossa comunidade, que se veem de forma inferiorizada, que não valorizam suficientemente aquilo que nós temos na nossa origem; Temos aspectos religiosos que são dedicados, onde está introduzido o vírus anti-africanista e o vírus racista.
As Igrejas pentecostais tentam desafricanizar a nossa origem, a nossa presença no Brasil como uma forma de implementar o racismo, a discriminação contra manifestações religiosas de origem africana. Isso é grave”.
Veja, na TV Afropress, as quatro partes da entrevista completa do presidente da Fundação Palmares.
https://www.afropress.com/tvAfropressVer.asp?idMovie=65

Na foto, o presidente da Fundação Palmares Zulu Araújo, em entrevista à Afropress.