S. Paulo – Cresceu este ano a presença indígena nas Universidades Públicas brasileira. Em S. Paulo só na Pontifícia Universidade Católica (PUC) 35 indígenas da etnia Pancararu, tornaram-se alunos em vários cursos. A primeira turma de indígenas ingressou na PUC em 2.002.
A principal líder dos alunos na PUC é Maria das Dores Conceição Pereira do Prado, 30 anos, a Dora Pancararu, que está no 4º ano de Pedagogia. Ela é da Aldeia Brejo dos Padres, interior de Pernambuco, e veio para S. Paulo com os pais aos cinco anos em busca de melhores condições de vida, a exemplo do que faziam as legiões de nordestinos fugindo da seca. “Meu pai, Manoel Alexandre Sobrinho, trabalhava nas barragens do Rio São Francisco”, conta.
Os Pancararus são descendentes de guerreiros do sertão pernambucano e, em S. Paulo, residem, na sua maioria na Favela Real Parque, no Morumbi, ao lado de mansões cinematográficas, que abrigam boa parte do PIB brasileiro. Os mais velhos trabalharam na construção do Estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi), ao longo dos anos 60, e acabaram fixando moradia nas imediações da obra.
Em 1994, fundaram a Associação Indígena SOS Comunidade Indígena Pancararu, com o objetivo de mostrar a cultura. “Muitas pessoas nem sabem que existem índios na cidade. Fomos apoiados pelos guaranis que vivem em Parelheiros.”
O sonho da Universidade tornou-se possível graças ao Cursinho Pré-Vestibular da PUC. “Temos capacidade, mas não há condições financeiras para pagar os cursos. O Cursinho da Poli viabilizou aos índios e a outros grupos excluídos o acesso ao ensino superior, mediante convênios firmados com diversas entidades”, lembra Dora.
“Nunca vou esquecer o primeiro dia de aula, quando me apresentei na classe: ‘Meu nome é Dora, sou índia da tribo Pancararu’. Os alunos e até mesmo professores não sabiam de nada. Levaram um susto”, brinca ela.
O índio pancararu Luís Oliveira, de 30 anos, está há oito anos na capital paulista. Veio também da Aldeia Brejo dos Padres e faz Letras-Português. No primeiro contato com a metrópole, a violência chamou sua atenção.
“Enfrentei um protesto de perueiros e vi um ônibus passando em cima da cabeça de uma pessoa. Mal dormi naquela noite. Fiquei desesperado.”
Oliveira contou a jornalista Cristina Ribeiro que sente saudades da família que ficou em Brejo dos Padres. “Ter formação é obter consciência do valor da cultura. Quero lutar pelo meu povo e a primeira coisa que vou fazer é tentar resolver o maior problema da aldeia que é a ausência de água. Hoje, com a experiência que tenho não culpo mais a ‘Mãe Natureza’ pela seca. Tenho outra visão. Acredito que há possibilidades de levar água até a aldeia. Só faltam projetos, iniciativa e vontade política para isso.”, afirma.

Da Redacao